quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Joe Zawinul

                 

To You With Love – Joe Zawinul Trio





















NOTA: 8/10


No ano de 1961, foi lançado o álbum de estreia de Joe Zawinul, intitulado To You With Love. O tecladista, nascido na capital da Áustria, Viena, começou sua trajetória por volta de 1949, quando tocou com alguns músicos da região. Dez anos depois, mudou-se para os Estados Unidos, onde iria estudar música na Faculdade Berklee de Música. No entanto, após apenas uma semana, largou os estudos, pois recebeu uma proposta para sair em turnê com Maynard Ferguson, e com isso começou a gravar álbuns pelo selo Strand. A produção é bem simplista e direta, e o trio, composto por Zawinul (teclados), George Tucker (baixo) e Frankie Dunlop (bateria), favorece a interação orgânica entre os músicos e coloca o piano do Zawinul no centro da experiência sonora, pensado para soar natural, íntimo e elegante, como uma sessão de clube registrada em fita. O repertório é muito bom, e as canções passam um clima de leveza. Enfim, é um disco até que interessante. 

Melhores Faixas: Please Send Me Someone To Love, Greensleeves 
Vale a Pena Ouvir: My One And Only Love, Easy Living, Love For Sale

Money In The Pocket – Joe Zawinul





















NOTA: 8/10


Cinco anos se passam, e é lançado seu segundo disco, intitulado Money In The Pocket. Após o To You With Love, Zawinul já estava plenamente integrado ao Jazz americano, com identidade autoral clara e em plena atividade criativa. Além disso, naquele período ele estava trabalhando ao lado de Cannonball Adderley, experiência que o colocou em contato direto com o Soul Jazz, o Hard Bop mais grooveado e uma relação cada vez mais orgânica com o público negro americano. A produção, conduzida por Joel Dorn, tem um som mais encorpado e direto, com foco na seção rítmica e na clareza das linhas melódicas. O piano do Zawinul ocupa um lugar central, mas nunca sufoca o conjunto: tudo gira em torno do balanço coletivo. O baixo é firme, a bateria tem swing e peso, e os sopros, quando presentes, funcionam como extensão melódica do pensamento do pianista. O repertório é muito bom, e as canções são mais envolventes. No fim, é um disco bacana e com maior adesão. 

Melhores Faixas: Sharon's Waltz, Money In The Pocket 
Vale a Pena Ouvir: If, Midnight Mood, Some More Of Dat

The Rise & Fall Of The Third Stream – Joe Zawinul





















NOTA: 8,2/10


Dois anos depois, foi lançado mais um trabalho de Joe Zawinul, o The Rise & Fall Of The Third Stream. Após o Money In The Pocket, o Jazz vivia um período de crise de identidade: o Free Jazz questionava estruturas, o Rock capturava o grande público jovem e a música erudita contemporânea influenciava cada vez mais os compositores. O “Third Stream”, conceito formulado anos antes por Gunther Schuller, propunha uma fusão entre Jazz e música clássica moderna. Zawinul, com toda a experiência que adquiriu, era um candidato natural a dialogar com essa ideia. A produção, conduzida por Joel Dorn, reflete seu caráter experimental e conceitual. O uso de arranjos escritos é central: linhas de sopros angulares, passagens quase camerísticas, contrastes abruptos de dinâmica e uma integração deliberadamente tensa entre partes compostas e espaços de improvisação. O repertório é legal, e as canções são mais densas. No fim, é um disco bacana e bem tematizado. 

Melhores Faixas: The Fifth Canto, From Vienna, With Love 
Vale a Pena Ouvir: Lord, Lord, Lord, Baptismal

Zawinul – Zawinul





















NOTA: 9/10


Entrando em 1971, foi lançado um trabalho simplesmente magnífico do Joe Zawinul, seu álbum meio que autointitulado. Após o The Rise & Fall Of The Third Stream, ele parou de colaborar com Cannonball Adderley e teve uma experiência transformadora ao lado do Miles Davis em In a Silent Way e Bitches Brew. Essas participações foram decisivas para mudar sua percepção sobre forma, tempo, textura e eletricidade. Assim, ele buscava uma linguagem própria que unisse improvisação, groove, atmosfera e composição, sem depender de estruturas tradicionais do Jazz. A produção, conduzida por Joel Dorn, mostrou um uso de teclados elétricos por parte de Zawinul que cria paisagens sonoras contínuas, mais atmosféricas do que virtuosísticas, explorando texturas, drones e grooves repetitivos, além de uma seção rítmica angular. O repertório contém cinco faixas muito legais e com muita variação. No final de tudo, é um baita disco e um divisor de águas. 

Melhores Faixas: Double Image, Doctor Honoris Causa 
Vale a Pena Ouvir: His Last Journey, In A Silent Way, Arrival In New York

Dialects – Zawinul





















NOTA: 8,4/10


Quinze anos se passaram, e foi lançado um novo trabalho solo do Joe Zawinul, o Dialects. Após o Zawinul, o pianista acabou focando mais seu tempo no Weather Report, mas, com o fim da banda, decidiu fazer um trabalho muito mais amplo: uma música baseada em ritmos do mundo, identidade cultural, timbre, textura e groove contínuo. Não se trata apenas de um disco de Jazz, mas de um manifesto pessoal, algo que não era muito explorado com sua antiga banda. A produção foi conduzida por ele próprio e é extremamente sofisticada, totalmente centrada nos teclados eletrônicos. Zawinul já dominava como poucos o uso de sintetizadores, samplers e controladores MIDI, mas aqui os utiliza não para o virtuosismo, e sim para criar paisagens sonoras orgânicas, quase físicas. O repertório é bem legal, e as canções são dinâmicas e envolventes. No fim, é um disco muito bom e com uma proposta que funcionou. 

Melhores Faixas: Waiting For The Rain, Carnavalito 
Vale a Pena Ouvir: The Great Empire, Peace

My People – Joe Zawinul





















NOTA: 3/10


Indo agora para 1996, foi lançado mais um trabalho de Joe Zawinul, o My People. Após o Dialects, como o Weather Report já havia terminado havia mais de uma década, e o Zawinul Syndicate era, naquele momento, seu principal veículo criativo, um grupo pensado não como banda de Jazz, mas como um coletivo multicultural. Ele pensou em fazer um trabalho ainda mais amplo, voltado à comunidade humana, construído a partir de ritmos africanos, melodias do Oriente Médio, ecos da América Latina e linguagem harmônica moderna. A produção, conduzida junto com seu filho Ivan Zawinul, é mais orgânica; os teclados eletrônicos ainda são centrais, mas não soam tecnológicos ou futuristas: Zawinul os usa para simular texturas acústicas, ambientes naturais e vozes coletivas, além de incluir percussões, porém o resultado é mal executado e carece de dinâmica. O repertório é muito ruim, com poucas canções interessantes. Enfim, é um álbum terrível e sem graça. 

Melhores Faixas: Orient Express, Bimoya, Slivovitz Trail, Erdäpfee Blues 
Piores Faixas: In An Island Way, Waraya, Introduction To A Mighty Theme, Ochy - Bala / Pazyryk, Many Churches

Faces & Places – Joe Zawinul





















NOTA: 4/10


Então chegamos a 2002, quando foi lançado o último álbum do Joe Zawinul, o fraquíssimo Faces & Places. Após o My People, Zawinul já não sentia necessidade alguma de dialogar com expectativas externas. Nesse ponto da carreira, ele pensava sua música como memória geográfica e humana. Cada lugar visitado, cada músico encontrado, cada cultura absorvida deixava marcas profundas em sua escrita. A produção foi bem mais orgânica e extremamente equilibrada. Zawinul continua usando tecnologia avançada, mas de forma quase invisível. A percussão tem papel central, não apenas como base rítmica, mas como elemento narrativo. O problema é que tudo soa muito vazio, e os momentos mais imersivos parecem carecer de algo que estruture os arranjos. O repertório é muito ruim, e as canções são bem chatas, com poucas se salvando. No fim, é um disco péssimo, e após isso o pianista acabou falecendo em 2007, vítima de um câncer de pele. 

Melhores Faixas: Rooftops Of Vienna, All About Simon, Cafe Andalusia, Familiar To Me 
Piores Faixas: The Search, The Spirit Of Julian "C" Adderley, East 12th Street Band, Tower Of Silence, Siseya


Analisando Discografias - Jaco Pastorius: Parte 1

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