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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Wayne Shorter: Parte 2

                 

Moto Grosso Feio – Wayne Shorter





















NOTA: 8/10


Três anos depois, foi lançado mais um trabalho novo de Wayne Shorter, o Moto Grosso Feio. Após o Odyssey Of Iska, decidiu-se resgatar um material feito antes do álbum anterior, em um período em que Shorter já havia deixado definitivamente o quinteto do Miles Davis e se encontrava em plena reconfiguração estética, explorando caminhos que não pertenciam mais nem ao Post-Bop nem ao Jazz Fusion plenamente estruturado que começaria a dominar sua produção logo em seguida. Falando nisso, a produção de Duke Pearson deixou um som aberto e pouco polido, privilegiando a interação espontânea entre os músicos. Com um elenco que novamente contou com nomes daquela cena elétrica, cada um mostra aqui um lado mais econômico, assim como o próprio Shorter em seus saxes, evidenciando uma abordagem voltada ao Spiritual Jazz. O repertório contém 5 faixas, mais caóticas e energéticas. No fim, é um disco bacana e mais explosivo. 

Melhores Faixas: Antiqua, Iska 
Vale a Pena Ouvir: Vera Cruz, Montezuma, Mato Grosso Feio

Native Dancer – Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento





















NOTA: 8,9/10


No ano seguinte, Wayne Shorter retorna com mais um disco interessante, o Native Dancer. Após o Moto Grosso Feio, Shorter havia recém-saído da Blue Note e entrado na Columbia, chegando aqui a um ponto de inflexão: a experimentação abstrata dá lugar a uma música mais comunicativa. Ele, que já vinha demonstrando interesse por melodias não anglo-saxônicas, vê esse interesse se concretizar de maneira orgânica graças à colaboração com Milton Nascimento, que atua não apenas como convidado, mas como coautor espiritual do disco. A produção, feita por Jim Price, é notavelmente clara e aberta, refletindo a intenção de valorizar tanto a improvisação quanto a canção. Wayne Shorter alterna sax tenor e soprano com extrema contenção e sensibilidade, e a voz do Milton é transcendente, não é à toa que foi chamada de “voz de Deus”. O repertório é ótimo, com canções suaves e cheias de profundidade. No final, é um ótimo disco, que revelou uma parceria fenomenal. 

Melhores Faixas: Ponta De Areia, Lilia, Diana, Beauty And The Beast 
Vale a Pena Ouvir: Ana Maria, Tarde

The Soothsayer – Wayne Shorter





















NOTA: 8,3/10


Quatro anos se passaram e foi resgatado um material inédito de 1965 de Wayne Shorter, intitulado The Soothsayer. Após o Native Dancer, a Blue Note resgatou esse material, gravado após o lançamento do clássico Speak No Evil, e nesse trabalho ele mergulha em um clima mais sombrio, denso e introspectivo. Aqui, Shorter parece menos interessado em elegância formal e mais focado em criar tensões emocionais e harmônicas prolongadas. Produção feita por Alfred Lion, é sóbria e extremamente eficaz. O som é escuro e levemente opressivo, reforçando o clima introspectivo das composições. A formação é a mesma dos trabalhos mais conhecidos do saxofonista, criando uma sensação de proximidade quase claustrofóbica entre os instrumentos, o que intensifica o caráter dramático das peças, fazendo um cruzamento entre o Post-Bop e o Jazz modal. O repertório é muito bom, e as canções são bem envolventes. No fim, é um disco interessante e bastante intimista. 

Melhores Faixas: The Big Push, The Soothsayer 
Vale a Pena Ouvir: Angola

Etcetera – Wayne Shorter





















NOTA: 8,5/10


E aí, no ano seguinte, foi lançado mais um material inédito dessa mesma época, o Etcetera. Após o The Soothsayer, esse trabalho surge no mesmo período de álbuns impressionantes como líder, como Juju e Speak No Evil. Esse projeto aparece exatamente entre esses trabalhos, funcionando como uma espécie de caderno de ideias refinadas, no qual Shorter investiga soluções harmônicas e narrativas com ainda mais economia. A produção, feita por Alfred Lion, é marcada por sobriedade e clareza absoluta. O som é limpo, íntimo e profundamente equilibrado, sem exageros de dinâmica ou densidade. Cada instrumento ocupa seu espaço com precisão cirúrgica, criando uma sensação de diálogo constante e respeito mútuo. O trio composto por Herbie Hancock no piano, Cecil McBee no contrabaixo e Joe Chambers na bateria forma a base para os solos expressivos do sax de Shorter. O repertório contém 5 faixas bem variadas. No final, é um disco bacana e mais contido. 

Melhores Faixas: Barracudas, Penelope 
Vale a Pena Ouvir: Toy Tune, Indian Song, Etcetera

Alegría – Wayne Shorter





















NOTA: 6/10


Então chegamos a 2002, quando foi lançado o seu último álbum intitulado Alegría. Após o Etcetera, o saxofonista acabou participando de alguns outros projetos e, nesse período, havia montado um quarteto com Danilo Pérez (piano), John Patitucci (baixo) e Brian Blade (bateria), que culminou no álbum ao vivo Footprints. Para esse disco, a música já não se organiza em torno de estruturas tradicionais, mas sim de narrativas abertas, memória, reapresentação e deslocamento. A produção, feita por Robert Sadin e lançada pelo selo Verve, é austera e profundamente elegante. O som é limpo, com grande atenção à ressonância e à interação entre os músicos. Com uma estética mais orientada ao Jazz de câmara, já que apresenta estruturas mais refinadas e tradicionais, o álbum soa bastante arrastado. O repertório é até bom, mas as reinterpretações são irregulares. No fim, é um disco mediano e que acabou funcionando como uma despedida após seu falecimento em 2023. 

Melhores Faixas: Serenata, Orbits, Bachianas Brasileiras No. 5 
Vale a Pena Ouvir: Capricorn II, Angola, She Moves Through The Fair


quarta-feira, 5 de março de 2025

Analisando Discografias - Milton Nascimento: Parte 3

                   

Encontros e Despedidas – Milton Nascimento





















NOTA: 8,9/10


Três anos se passaram, e Milton lançou Encontros e Despedidas, que seguiu uma direção mais moderna. Após o Anima, o nosso querido Bituca, ou como já o chamavam lá na gringa, "a voz de Deus", percebeu que precisava fazer um trabalho um pouco mais individualista e com influências mais tropicais. Então, decidiu dar uma chance à sonoridade que estava levando artistas ao estrelato. A produção feita por Marco Mazolla seguiu um caminho um pouco mais comercial, explorando as tendências da música Pop, como Synth Funk e Soul. Houve um uso equilibrado de sintetizadores, sopros e metais, evitando os excessos que muitas vezes comprometiam o som. O repertório é muito interessante, com canções envolventes e outras de grande profundidade. No fim, é um belo disco, com um ótimo nível de consistência. 

Melhores Faixas: Encontros E Despedidas, Mar Do Nosso Amor 
Vale a Pena Ouvir: Caso De Amor, Vidro E Corte, A Primeira Estrela

Yauaretê – Milton Nascimento





















NOTA: 5/10


Logo depois, Milton Nascimento lança Yauaretê (com uma capa que lembra a de uma banda de Glam), que não trouxe tantas novidades. Após o Encontros e Despedidas, Milton havia colaborado com a banda RPM em uma espécie de compacto lançado também no ano de 1987. Essa parceria resultou em duas faixas: Feito Nós e Homo Sapiens. Depois dessa experiência, ele decidiu fazer um trabalho mais temático e com influências mais tropicais. A produção ficou novamente a cargo de seu produtor de sempre, mas desta vez com uma sonoridade mais ambientalista, focada no Jazz. Como resultado, os arranjos ficaram sofisticados e com aqueles toques de profundidade da MPB, só que, em muitos momentos, o acabamento rítmico acaba sendo muito arrastado. O repertório começa bem, com ótimas canções, mas depois se torna irregular, com poucas faixas se destacando. Em suma, é um trabalho mediano e repleto de inconsistências. 

Melhores Faixas: O Vendedor De Sonhos (participação do Paul Simon e Herbie Hancock), Planeta Blue, Mountain 
Piores Faixas: Morro Velho, Dança Dos Meninos, Eldorado

Miltons – Milton Nascimento





















NOTA: 3/10


Dois anos se passam, e Milton Nascimento lança outro disco, o Miltons, que tentou ir para algo mais diverso. Após o Yauaretê, o cantor passou por um momento em que intensificou seu contrato com a gravadora CBS e decidiu enveredar para algo mais comercial e midiático. Com isso, optou por fugir da sonoridade mais orquestrada e seguir uma linha mais popular. A produção, conduzida por Márcio Ferreira, buscou enfatizar a simplicidade e a pureza dos arranjos, adotando uma abordagem mais minimalista, utilizando principalmente sua voz e violão, o que conferiu ao álbum uma atmosfera mais intimista. No entanto, apesar de trazer elementos envolventes do Jazz Fusion, muitas vezes o som se transforma em uma bola de neve de repetições, caindo em um loop enjoativo e inconsistente. Isso se reflete em um repertório fraquíssimo, com canções sonolentas e poucos momentos de brilho. Enfim, esse disco é bem ruim e marcou um tropeço em sua carreira. 

Melhores Faixas: San Vicente, Bola De Meia, Bola De Gude (podia dizer cover da música do 14 Bis, mas a música é do próprio Milton) 
Piores Faixas: Sem Fim, Fruta Boa, La Bamba

Txai – Milton Nascimento





















NOTA: 8,6/10


Entrando na década de 90, Milton lança outro disco intitulado Txai, que ficou mais tematizado. Após o fraquíssimo Miltons, o cantor marcou uma nova etapa em sua carreira, na qual se identificou profundamente com a música dos povos indígenas. O projeto envolveu várias gravações ao vivo feitas no Acre, em Rondônia e em outros pontos da Amazônia, refletindo seu compromisso com as questões ambientais e culturais da região. Tudo isso fez parte de uma campanha mundial de apoio à Aliança dos Povos da Floresta. Produzido mais uma vez por Márcio Ferreira, o disco buscou na música indígena uma sonoridade autêntica, repleta de sons e cantorias da floresta, além de toadas tribais quase guturais, misturando Folk com a exuberância do Free Jazz. O repertório é muito interessante, e as canções trazem uma vibe de total leveza. Em suma, é um belo disco que vale a pena ser apreciado. 

Melhores Faixas: Coisas Da Vida, Nozani Na 
Vale a Pena Ouvir: Benke, A Terceira Margem Do Rio, Txai, Que Virá Dessa Escuridão?

Angelus – Milton Nascimento





















NOTA: 9/10


Mais um tempo se passou, e Milton lançou outro disco belíssimo intitulado Angelus. Após o Txai, Bituca quis ser mais ambicioso, buscando fazer um trabalho que misturasse diversos gêneros. Para isso, decidiu contar com um time de músicos renomadíssimos, criando um som sofisticado e com influências de várias regiões. A produção, feita outra vez por Márcio Ferreira e lançada pelo selo da Warner Music, trouxe uma sonoridade que é ao mesmo tempo sentimental, profunda e envolvente, mesclando influências de Folk progressivo, Jazz Fusion, Pop barroco e, claro, muita MPB. Tudo isso é enriquecido pela participação de artistas de renome, como Pat Metheny, Jon Anderson, Wayne Shorter, Herbie Hancock, James Taylor e Peter Gabriel, só craques que entregaram muito. O repertório é bem interessante, com canções boas e muito bem encadeadas. No final de tudo, é um baita disco, criminosamente subestimado. 

Melhores Faixas: Angelus, Only A Dream In Rio (participação do James Taylor), Meu Veneno (participação da Naná Vasconcelos), Vera Cruz 
Vale a Pena Ouvir: Clube Da Esquina Nº 2, Estrelada (participação do Jon Anderson), Coisas De Minas, Amor Amigo (participação do Pat Metheny e Herbie Hancock)

Nascimento – Milton Nascimento






















NOTA: 3/10


Em 1997, ele volta lançando mais um disco intitulado Nascimento, que tentou fazer um trabalho mais diverso. Após o Angelus, surgiram vários boatos sobre sua saúde, especialmente quando apareceu mais magro em um episódio de Natal do programa Sai de Baixo da Globo. Mas ele estava bem e decidiu voltar, gravando um material um pouco mais radical do que apresentou em trabalhos anteriores. Produzido por Russ Titelman, que trouxe uma sonoridade sempre bem sofisticada e agora enveredando para um lado mais técnico do Folk, ele também quis incluir influências da musicalidade brasileira, mas fora da MPB, como Samba e Frevo. No entanto, ocorreram vários erros, como o ritmo que, às vezes, não se conecta com as linhas vocais de Milton, e também muitos efeitos mal aplicados nos arranjos. O repertório é muito fraco, com poucas canções interessantes, enquanto a maioria é irregular. Enfim, esse disco é fraquíssimo e faltou mais planejamento. 

Melhores Faixas: Guardanapos De Papel, Rouxinol, Os Tambores De Minas 
Piores Faixas: Biromes Y Servilletas, Ana Maria, Janela Para O Mundo, E Agora, Rapaz?

Pietá – Milton Nascimento





















NOTA: 5,7/10


Se passa um tempo, e em 2002, Milton Nascimento decide retornar às suas raízes, lançando Pietá. Após o Nascimento, o cantor decidiu resgatar suas influências mineiras, como na época do Clube da Esquina, e buscar uma sonoridade mais lírica e delicada. O título Pietà remete à famosa escultura de Michelangelo, representando a Virgem Maria segurando Jesus após a crucificação. Esse simbolismo espiritual e maternal perpassa todo o álbum, que trata de temas como amor, espiritualidade e a conexão entre gerações. A produção foi conduzida dessa vez pelo próprio cantor junto com Guto Graça Mello, trazendo arranjos que misturam MPB com elementos modernos do Folk e Jazz. O objetivo era criar um clima introspectivo, mas em vários momentos os arranjos ficam repetitivos e arrastados. O repertório é irregular, com belas canções e outras que são apenas sem emoção. Em suma, é um disco mediano, que poderia ter tido mais equilíbrio. 

Melhores Faixas: Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, Outro Lugar, Às Vezes Deus Exagera, Casa Aberta 
Piores Faixas: Beleza e Canção, Cantaloupe Island, Beira-Mar Novo, Imagem E Semelhança

...E a Gente Sonhando – Milton Nascimento





















NOTA: 7,6/10


Então, em 2010, chega esse que é praticamente o último álbum de estúdio de Milton Nascimento, o ...E a Gente Sonhando. Após o Pietá, Milton ficou mais focado nos shows e em algumas aparições na mídia, até que decidiu resgatar mais coisas das suas raízes, optando por fazer um trabalho mais consistente. A produção, feita por Marco Elízeo Aquino junto com o próprio cantor, trouxe um equilíbrio no som entre o acústico e o contemporâneo, criando um ambiente musical que mistura sofisticação e simplicidade, como já é característico de sua trajetória. Com uma sonoridade de MPB, Folk e Jazz totalmente intimista, os arranjos são belíssimos e carregados de uma pegada sentimental. O repertório é bem interessante, trazendo canções muito legais e envolventes, mas com algumas bem fraquinhas. Enfim, é um disco que encerrou bem sua trajetória, já que, recentemente, ele só gravou trabalhos colaborativos e se aposentou dos palcos. 

Melhores Faixas: O Ateneu, Gota De Primavera, O Sol, 
Piores Faixas: Estrela, Estrela, Resposta Ao Tempo, Me Faz Bem
 

                                           Então é isso, um abraço e flw!!!   

terça-feira, 4 de março de 2025

Analisando Discografias - Milton Nascimento: Parte 2

                 

Geraes – Milton Nascimento





















NOTA: 9,9/10


No final do ano de 1976, Milton Nascimento voltou lançando mais um disco, o Geraes. Após o Minas, o cantor decidiu aprofundar a exploração de temas ligados à sua terra natal e às tradições culturais de Minas Gerais. O título do álbum, uma grafia arcaica de "Gerais", reforça essa ligação intrínseca com o estado e suas paisagens. Tudo isso foi feito em um momento em que Milton estava completamente mal por conta de seus problemas pessoais, muito influenciados pelo governo militar. A produção, feita por Ronaldo Bastos, trouxe uma sonoridade profunda, com os arranjos de Milton Miranda sendo extremamente sentimentais. O resultado é uma junção de Jazz, Folk e, logicamente, MPB, criando um clima de leveza. O repertório é sensacional, e as canções são belíssimas, trazendo uma vibe bem atmosférica (mesmo que não seja algo na linha do Milagre dos Peixes). No fim, é um disco maravilhoso e um dos mais profundos de sua carreira. 

Melhores Faixas: O Que Será (À Flor Da Pele) (belíssima participação do Chico Buarque), Lua Girou, Fazenda, Carro De Boi 
Vale a Pena Ouvir: Calix Bento, Menino, Caldera

Milton (1976) – Milton Nascimento





















NOTA: 9/10


Ainda naquele ano, Bituca lançou mais um álbum para o mercado internacional, intitulado Milton. Após o Geraes, Milton Nascimento decidiu gravar outro trabalho para o exterior, já que estava no auge criativo, incorporando influências internacionais e explorando novas sonoridades. A produção, feita por Rob Fraboni, contou com músicos renomadíssimos, como Herbie Hancock, Robertinho Silva e Wayne Shorter, entre outros. O resultado é uma sonoridade completamente voltada para o Jazz Rock, com muita experimentação, chegando a apresentar algumas influências progressivas. No entanto, todo aquele clima da MPB continua a pairar nos arranjos. O repertório é muito interessante; apesar de a maioria das faixas serem regravações (algumas cantadas em inglês), há duas ótimas inéditas. Em suma, esse trabalho é incrível e traz um forte toque de experimentalismo. 

Melhores Faixas: Raça (Hasa) (Race), Nothing Will Be As It Was (Nada Será Como Antes), Francisco 
Vale a Pena Ouvir: Os Povos (The People), Fairy Tale Song (Cadê), One Coin (Tostão)

Clube da Esquina 2 – Milton Nascimento





















NOTA: 9,8/10


Dois anos se passaram, e Milton Nascimento lançou Clube da Esquina 2, que trazia novidades. Após o Milton (1976), o cantor, que estava no auge de sua experimentação musical, decidiu fazer essa sequência de Clube da Esquina, só que, dessa vez, seu grande parceiro Lô Borges não esteve tão presente no projeto. Assim, ele trouxe uma reafirmação dos valores e das experimentações iniciadas no álbum anterior. A produção, feita por Mariozinho Rocha, contou com o apoio do próprio Milton, Ronaldo Bastos e Novelli. O resultado foi uma sonoridade um pouco mais abrangente dentro da MPB, indo para um lado mais sentimental do Folk, além de influências psicodélicas e progressivas que aparecem em alguns momentos harmônicos, como nos barulhos de sopros e metais. O repertório é brilhante, com canções belíssimas e bem encadeadas, além de ótimas participações. Enfim, esse disco duplo é sensacional, porém muito subestimado por estar à sombra de seu predecessor. 

Melhores Faixas: Maria, Maria, Nascente (participação do Flávio Venturini), Paixão E Fé, Pão E Água (Dueto maravilhoso com Lô Borges), O Que Foi Feito Deverá / O Que Foi Feito De Vera (Elis Regina ofuscou totalmente o Milton), Dona Olímpia (Your Moon) 
Vale a Pena Ouvir: Meu Menino, Mistérios, Canoa, Canoa, Testamento

Journey To Dawn – Milton Nascimento





















NOTA: 9,1/10


No ano seguinte, Milton lançou mais um trabalho para o mercado exterior, o Journey to Dawn. Após o Clube da Esquina 2, o Milton Nascimento, apesar de todo o sucesso que tinha no cenário musical brasileiro, continuava bastante mal, principalmente por não conseguir ver seu filho Pablo. Além disso, ele estava quase se afogando na bebida, então, para gravar esse álbum nos Estados Unidos, decidiu tratar seu vício. A produção, conduzida por Jim Price, foi muito bem elaborada, com arranjos que mesclam a essência brasileira de Milton com influências do Jazz Fusion e do Folk progressivo, o que criou várias camadas ambientalistas em todo o lado melódico e harmônico do som. O repertório é muito legal, as canções ficaram muito bem interpretadas, e as faixas inéditas são ótimas. Em suma, é um baita disco e um dos melhores lançados para fora do Brasil. 

Melhores Faixas: Journey To Dawn, O Cio Da Terra, Credo 
Vale a Pena Ouvir: Maria, Maria, Paula & Bebeto, Pablo II

Sentinela – Milton Nascimento





















NOTA: 8,8/10


Mais um ano se passou, e Milton lançou mais um álbum de estúdio, o Sentinela, que era um pouco mais temático. Após o Journey to Dawn, o cantor continuava a explorar novas sonoridades. Além disso, ele encerrou seu vínculo com a EMI e decidiu não seguir as tendências da época, então acabou não sendo afetado por aquele começo de pasteurização que pairou na música mundial dos anos 80. A produção, feita por Marco Mazzola e lançada pelo selo da gravadora alemã Ariola, trouxe uma sonoridade bem mais melódica, com arranjos muito mais elaborados, tentando deixar tudo bem cadenciado e conectado com as letras poéticas de Milton, pegando influências progressivas e do Folk contemporâneo. O repertório é muito legal, com canções que vão de melancólicas a envolventes. Enfim, é um disco muito interessante, que é criminosamente subestimado. 

Melhores Faixas: Canção Da América, Roupa Nova, Cantiga (Caicó) - Tema Folclórico 
Vale a Pena Ouvir: Sentinela (participação da Nana Caymmi, Peixinhos do Mar, Tudo, Sueño Con Serpientes (participação da cantora argentina Mercedes Sosa), Itamarandiba

Caçador de Mim – Milton Nascimento





















NOTA: 9/10


Mais um ano se passou, e Milton Nascimento lançou mais um trabalho intitulado Caçador de Mim. Após o Sentinela, ele continuou a seguir para um lado mais experimental e, como estava totalmente fora do que a grande mídia sugeria para continuar tendo alguma relevância artística, Milton sabia que não precisava se preocupar com isso, já que sua obra estava cada vez mais indo para um lado mais profundo. Produzido por Marco Mazzola, que trouxe arranjos bem mais refinados e uma sonoridade que saiu daquela fórmula mais voltada para o Jazz, indo para um lado mais progressivo, principalmente nas melodias, além de juntar toda aquela profundidade característica da MPB. O repertório ficou muito legal, as canções ficaram bem melódicas e com maior foco em temas mais reflexivos. No final, é um ótimo disco e um dos mais profundos de sua carreira. 

Melhores Faixas: Caçador De Mim, Amor Amigo, Coração Civil, Sonho De Moço 
Vale a Pena Ouvir: Vida, Nos Bailes Da Vida (participação da banda Roupa Nova), Notícias Do Brasil (Os Pássaros Trazem)

Anima – Milton Nascimento





















NOTA: 7,2/10


Outro ano se passou, e mais um disco foi lançado, intitulado Anima, que seguiu algo mais encadeado. Após o Caçador de Mim, Milton quis fazer algo um pouco mais pessoal e, ao mesmo tempo, que seguisse um pouco da sonoridade que os artistas da MPB estavam buscando. Só que, é claro, ele não quis ser mais um que foi pasteurizado, assim como a maioria acabou sendo, muito por conta de dois músicos virtuosos (não é Lincoln Olivetti?). Bom, a produção foi realizada mais uma vez por Marco Mazzola, que deixou a sonoridade um pouco mais enquadrada nas influências do Soft Rock e do Pop progressivo, muito por conta dos arranjos, além de resgatar coisas que ele já tinha feito no Clube da Esquina. Só que, claro, algumas coisas faltaram uma melhor conexão. O repertório é bem interessante, e as canções continuaram naquele lado melódico, só que há algumas que apresentam irregularidades. No fim, é um disco bom, mas que poderia ter tido mais adaptação. 

Melhores Faixas: Olha, As Várias Pontas De Uma Estrela (participação do Caetano Veloso), Filho 
Piores Faixas: Coração Brasileiro, Teia de Renda, No Analices (vinheta desnecessária)

                                                         Então é isso e flw!!!   

segunda-feira, 3 de março de 2025

Analisando Discografias - Milton Nascimento: Parte 1

                 

Milton Nascimento (Travessia) – Milton Nascimento





















NOTA: 9,3/10


Em 1967, o lendário Milton Nascimento lançava seu álbum de estreia autointitulado, mas que ficou mais conhecido como Travessia. O nosso querido Bituca já demonstrava inclinação musical desde a infância. Nascido no Rio de Janeiro, mudou-se ainda criança para Três Pontas, Minas Gerais, onde integrou o grupo W’s Boys ao lado de Wagner Tiso, apresentando-se em bailes locais. Posteriormente, transferiu-se para Belo Horizonte para cursar Economia, período em que intensificou suas composições e parcerias musicais. A produção foi orquestrada por Luiz Eça junto com seu conjunto musical Tamba Trio, que fez os arranjos ficarem totalmente refinados, com uma certa aura de grandiosidade, pegando altas influências de Samba Soul e do Pop barroco. O repertório é maravilhoso, com canções belíssimas e muito bem encadeadas. No fim, é um belo disco de estreia que marcou o início de sua brilhante carreira. 

Melhores Faixas: Travessia, Morro Velho, Irmão de Fé 
Vale a Pena Ouvir: Três Pontas, Girou, Girou, Outubro

Courage – Milton Nascimento





















NOTA: 9/10


No ano seguinte, Milton lançou seu 2º álbum, intitulado Courage, que era basicamente uma versão deluxe de seu antecessor. Após seu disco de estreia, Milton Nascimento ganhou destaque no cenário musical brasileiro. Sua participação no Festival Internacional da Canção com a música Travessia chamou a atenção de produtores internacionais, levando-o a assinar um contrato de três álbuns. A produção foi conduzida por Creed Taylor, com arranjos de Eumir Deodato. A gravação reuniu músicos renomados, incluindo Herbie Hancock no piano e Airto Moreira na percussão, além de uma orquestra com mais de 40 músicos, enriquecendo os arranjos com cordas e sopros, deixando a sonoridade mais refinada e próxima da Bossa Nova e do Jazz. O repertório é praticamente o mesmo, contando com algumas canções cantadas em inglês, e tudo ficou muito bom. No fim, é um ótimo trabalho que agregou demais à sua carreira. 

Melhores Faixas: Outubro, Courage, Catavento 
Vale a Pena Ouvir: Bridges (Travessia), Rio Vermelho, Morro Velho

Milton Nascimento (1969) – Milton Nascimento





















NOTA: 8,8/10


Mais um ano se passou, e Bituca lançou mais um disco autointitulado, que começou a preparar suas bases futuras. Após o Courage, Milton Nascimento já era reconhecido tanto no Brasil quanto no exterior. Sua capacidade de mesclar elementos tradicionais brasileiros com influências internacionais chamou a atenção de críticos e do público, mas sua ambição era deixar seu trabalho com um clima ainda mais grandioso. Produzido por Milton Miranda, com direção musical de Lyrio Panicali. Os arranjos, conduzidos por Luiz Eça, Paulo Moura e Maurício Mendonça, contribuíram para a sofisticação do som, trazendo ainda mais influências da Bossa Nova e do Folk contemporâneo, buscando um equilíbrio com os novos artistas da MPB. O repertório é totalmente inédito e muito bom, com canções envolventes e harmoniosas, totalmente coesas. Enfim, é outro disco belíssimo, porém não muito lembrado. 

Melhores Faixas: Pescaria (Canoeiro) / O Mar É Meu Chão, Quatro Luas 
Vale a Pena Ouvir: Tarde, Aqui,Oh!, Rosa Do Ventre

Milton (1970) – Milton Nascimento





















NOTA: 10/10


Entrando na década de 70, o cantor lançou seu 4º álbum de estúdio, o clássico e espetacular Milton, de 1970. Após o álbum de 1969, ele participou de projetos cinematográficos, compondo o tema para um documentário sobre o jogador Tostão e atuando, além de produzir a trilha sonora, no filme Os Deuses e os Mortos, do diretor moçambicano Ruy Guerra. Essas experiências influenciaram diretamente a concepção desse álbum. Produzido por Milton Miranda e lançado pelo selo da EMI-Odeon, trouxe uma sonoridade que seguiu para um lado mais psicodélico, muito devido à ótima banda de apoio, o Som Imaginário. Além disso, continuou seguindo muitas influências barrocas e do Folk contemporâneo, deixando os arranjos refinadíssimos. O repertório é simplesmente perfeito, com canções que são verdadeiros hinos da música brasileira, graças também à sua voz marcante. No final, é um trabalho maravilhoso e um dos mais importantes de sua carreira. 

Melhores Faixas: Para Lennon E McCartney, Clube da Esquina, Canto Latino, Amigo, Amiga
Vale a Pena Ouvir: Alunar, Durango Kid

Clube da Esquina – Milton Nascimento & Lô Borges





















NOTA: 10/10


E aí chegamos ao ano de 1972, quando, precisamente 53 anos atrás, era lançado o atemporal Clube da Esquina. Tudo começou quando um grupo de jovens músicos de Minas Gerais começou a se reunir para compartilhar ideias e composições. Esses encontros informais, realizados na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte, deram origem a um dos maiores coletivos da música brasileira. Só um detalhe: os meninos na capa não são Milton e Lô, e sim dois garotos que moravam na região serrana do Rio de Janeiro. A produção, feita por Milton Miranda e Lindolfo Gaya, foi marcada por um espírito de coletividade e experimentação, com uma sonoridade que ia desde música psicodélica, Folk e Rock progressivo até Pop barroco. O repertório é maravilhoso, parecendo uma coletânea, e, sendo um disco duplo, se for para escolher, fico com a 1ª parte. Em suma, esse disco é sensacional e um dos melhores álbuns de todos os tempos. 

Melhores Faixas: Tudo Que Você Podia Ser, Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo, Paisagem Da Janela, Nada Será Como Antes, Clube Da Esquina Nº 2, Cravo e Canela, Cais 
Vale a Pena Ouvir: Trem de Doido, Dos Cruces, Me Deixa Em Paz (participação da Alaíde Costa), Um Gosto De Sol

Milagre Dos Peixes – Milton Nascimento





















NOTA: 10/10


No ano seguinte, Milton voltou ainda mais inspirado, lançando outro trabalho maravilhoso, o Milagre dos Peixes. Após o Clube da Esquina, o Brasil vivia sob a ditadura militar, marcada pela repressão à liberdade de expressão. Então, o cantor decidiu fazer um trabalho que refletisse a resistência cultural e a busca por novas formas de expressão diante das limitações impostas. A produção, conduzida por Milton Miranda e Fernando Brant, foi marcada por desafios significativos devido à censura. Das 11 faixas, oito tiveram suas letras proibidas pelo regime militar. Em vez de desistir das composições, ele optou por gravá-las como peças instrumentais ou utilizando vocais sem palavras, transformando a voz em um instrumento adicional e deixando o trabalho totalmente experimental (olha a visão do cara, mano!). O repertório é simplesmente maravilhoso, e as canções vão desde um lado melancólico até um mais ambiental. Enfim, esse disco é fantástico e uma joia rara da música brasileira. 

Melhores Faixas: Milagre Dos Peixes, Hoje É Dia De El-Rey, Tema Dos Deuses, A Última Sessão De Música 
Vale a Pena Ouvir: Carlos, Lúcia, Chico E Tiago, A Chamada, Sacramento

Minas – Milton Nascimento





















NOTA: 10/10


Dois anos depois, Milton lançou seu 6º álbum de estúdio, o Minas, que saiu daquele lado mais instrumental. Após o maravilhoso Milagre dos Peixes, Bituca mostrou sua versatilidade ao mesclar tradições musicais brasileiras com influências internacionais. Com esse disco, ele decidiu aprofundar sua conexão com as raízes mineiras e explorar temáticas ligadas à terra natal e à identidade cultural. A produção, conduzida por Ronaldo Bastos, com arranjos feitos por Wagner Tiso, levou a sonoridade para um lado um pouco mais abrangente, mantendo aquele clima de grandiosidade, mas resgatando com mais força as influências psicodélicas e trazendo de volta uma espécie de virtuosismo da música progressiva, deixando de lado a suavidade tradicional da MPB. O repertório é simplesmente maravilhoso, parecendo novamente uma coletânea, pois as canções são belíssimas e a base instrumental é algo incrível. No fim, é um baita disco e outro clássico da música brasileira. 

Melhores Faixas: Ponta De Areia, Beijo Partido, Fé Cega, Faca Amolada (participação do Beto Guedes), Paula e Bebeto 
Vale a Pena Ouvir: Minas, Idolatrada

    Então um abraço e flw!!!        

Review: Celestial do Papangu

                    Celestial – Papangu NOTA: 9,8/10 Recentemente, o Papangu retornou com seu 3º álbum de estúdio, o maravilhoso Celestial. ...