Garlands – Cocteau Twins
NOTA: 9/10
Em 1982, o Cocteau Twins lançava seu álbum de estreia, intitulado Garlands, trazendo algo inovador. Formado em 1979, na cidade de Grangemouth, Stirlingshire, na Escócia, por Robin Guthrie (guitarra e bateria eletrônica) e Will Heggie (baixo), o grupo acabou conhecendo a jovem Elizabeth Fraser, que se tornou a vocalista da banda. Eles chamaram a atenção da gravadora 4AD, que viu neles exatamente o que buscava: uma sonoridade atmosférica, melancólica e pouco convencional. A produção foi feita pela banda junto com Ivo Watts-Russell, criando um som cinematográfico e denso. As guitarras são distorcidas, cheias de eco e feedback. As linhas de baixo são repetitivas, hipnóticas e ameaçadoras, e a bateria é seca e minimalista. Os vocais da Elizabeth são usados como uma textura, resultando em um Post-Punk com Ethereal Wave. O repertório é ótimo, e as canções são bastante imersivas. Enfim, é um excelente álbum de estreia que mostrava um caminho promissor.
Melhores Faixas: Wax And Wane, Shallow Then Halo, The Hollow Men
Vale a Pena Ouvir: Blood Bitch, Garlands
Head Over Heels – Cocteau Twins
NOTA: 9,8/10
No ano seguinte, o Cocteau Twins lançava seu sensacional 2º álbum, o Head Over Heels. Após o Garlands, Elizabeth Fraser e Robin Guthrie começaram a abandonar aquelas referências do Post-Punk tradicional para construir uma identidade completamente própria. No entanto, eles passaram a atuar como uma dupla devido à saída do baixista Will Heggie, com Guthrie assumindo o baixo de forma temporária. A produção ficou mais sofisticada e seguiu por um caminho mais cinematográfico. As guitarras possuem verdadeiras camadas de timbres. Chorus, delay, reverb e diversas formas de processamento transformam a guitarra em algo próximo de sintetizadores. As baterias ficaram mais variadas, e Elizabeth Fraser agora apresenta vocais que trabalham sílabas, registros extremamente agudos e melodias imprevisíveis, juntando Rock gótico com Ethereal Wave. O repertório é sensacional, e as canções são bastante atmosféricas. No geral, é um baita disco e um clássico absoluto.
Melhores Faixas: Sugar Hiccup, Musette And Drums, Five Ten Fiftyfold, In Our Angelhood, The Tinderbox (Of A Heart)
Vale a Pena Ouvir: My Love Paramour, Glass Candle Grenades
Treasure – Cocteau Twins
NOTA: 10/10
Em 1984, o Cocteau Twins lançava seu atemporal e clássico 3º álbum, o Treasure. Após o Head Over Heels, Elizabeth Fraser e Robin Guthrie já haviam encontrado uma identidade artística praticamente única. A entrada definitiva de Simon Raymonde, que assumiu o baixo e os teclados após a saída de Will Heggie, completou a formação clássica da banda e trouxe uma nova dimensão harmônica às composições. A produção foi bem refinada e bastante cinematográfica. As guitarras utilizam efeitos como chorus, delay, reverberação e modulações para transformar o instrumento em uma fonte praticamente inesgotável de texturas. O baixo é extremamente elegante, a bateria é bastante sutil, e os vocais da Elizabeth abandonam qualquer compromisso com uma dicção convencional. Com isso, temos as bases do Ethereal Wave e do Dream Pop. O repertório é sensacional, sendo praticamente uma coletânea de grandes canções. No fim, é um álbum fantástico e uma obra-prima.
Melhores Faixas: Lorelei, Donimo, Ivo, Pandora (For Cindy), Persephone
Vale a Pena Ouvir: Amelia, Aloysius, Beatrix
Aikea-Guinea – Cocteau Twins
NOTA: 8,4/10
Mais um ano se passou, e o Cocteau Twins lançava um de seus vários EPs, o Aikea-Guinea. Após o Treasure, a banda voltou a lançar um EP, formato que sempre serviu como um laboratório de ideias para lançamentos futuros, e aqui revela uma faceta um pouco mais leve, espontânea e até acessível. A atmosfera continua profundamente etérea, mas existe uma sensação maior de movimento e luminosidade. A produção foi bem mais limpa, mas seguiu aquela estética característica. Robin Guthrie continua utilizando inúmeras camadas de guitarra processadas com chorus, delay e reverberação, só que de forma mais fluida. A bateria ficou bem mais simples, enquanto Simon Raymonde desenvolve melodias próprias com seu baixo, dialogando constantemente com as guitarras. Os vocais da Elizabeth Fraser alternam registros agudos, médios e graves com enorme naturalidade. O repertório contém 4 faixas muito boas e etéreas. Enfim, é um belo EP e mostrava o caminho para o futuro.
Melhores Faixas: Aikea-Guinea, Quisquose
Vale a Pena Ouvir: Kookaburra, Rococo
Victorialand – Cocteau Twins
NOTA: 9,2/10
No começo de mais um ano, a banda lançou seu 4º álbum de estúdio, o Victorialand. Após o Aikea-Guinea, Elizabeth Fraser e Robin Guthrie optaram por reduzir drasticamente os elementos musicais. O resultado foi o álbum mais minimalista, contemplativo e silencioso de toda a carreira do grupo. Outro fator importante é que Simon Raymonde não participou das gravações por estar envolvido em outros projetos naquele período. A produção foi extremamente atmosférica em todos os sentidos. O som dialoga com o Dream Pop, mas tem muita influência do que viria a ser o Ambient Pop. As guitarras seguem aquele padrão, só que agora são muito mais leves. A ausência quase completa da bateria modifica profundamente o ritmo do álbum, assim como a falta do baixo deixa um espaço maior para que os vocais da Elizabeth sirvam como um instrumento. O repertório é incrível, e as canções são bem aconchegantes e suaves. Enfim, é um belo disco e muito ousado.
Melhores Faixas: Lazy Calm, Oomingmak, Little Spacey, Whales Tails, The Thinner The Air Vale a Pena Ouvir: Feet-Like Fins, How To Bring A Blush To The Snow
The Moon And The Melodies – Harold Budd ▪ Elizabeth Fraser ▪ Robin Guthrie ▪ Simon Raymonde
NOTA: 9/10
Meses depois, o Cocteau Twins lançou um álbum colaborativo com Harold Budd, o The Moon and the Melodies. Após o Victorialand, o trio vinha de uma sequência criativa impressionante. Os EPs de 1985 mostravam uma banda completamente segura de sua linguagem, mas agora a presença de Harold Budd traz uma concepção musical baseada na repetição, no silêncio e na valorização do espaço entre as notas. A produção, feita por ambos, resultou em um som extremamente elaborado. A guitarra do Robin Guthrie continua repleta de chorus, delay e reverberação, mas agora cada nota recebe muito mais espaço para respirar. O piano do Budd aposta em pequenas frases repetidas, acordes espaçados e notas sustentadas por longos períodos. Os vocais da Elizabeth Fraser tornam-se ainda mais suaves, quase transparentes. O repertório é incrível, e as canções são melódicas e mais cadenciadas. No fim, é um trabalho muito bacana e que deve ser ouvido com atenção.
Melhores Faixas: Sea, Swallow Me, Bloody And Blunt, Memory Gongs
Vale a Pena Ouvir: The Ghost Has No Home, Why Do You Love Me?
Blue Bell Knoll – Cocteau Twins
NOTA: 9,9/10
Se passaram então dois anos para o Cocteau Twins lançar mais um disco, o Blue Bell Knoll. Após o The Moon and the Melodies, com Harold Budd, a banda decidiu fazer um trabalho muito mais luminoso, fluido e colorido. Há uma sensação constante de movimento, como se cada música estivesse em permanente transformação, mas sem perder a delicadeza que sempre caracterizou o grupo. A produção foi bem mais ampla e seguiu por um caminho mais dinâmico. Nas guitarras, existe uma clareza muito maior entre as diversas camadas, principalmente no uso de efeitos como chorus, delay e reverberação, que ficaram mais precisos. A bateria ficou bem definida, e o baixo do Simon Raymonde constrói linhas extremamente melódicas. Os vocais da Elizabeth Fraser têm um controle absoluto sobre dinâmica, timbre e articulação. O repertório é excepcional, e as canções são brilhantes e surrealistas. No geral, é um trabalho maravilhoso e que parecia representar o auge da banda.
Melhores Faixas: Carolyn's Fingers, Athol-Brose, Blue Bell Knoll, The Itchy Glowbo Blow, Cico Buff, For Phoebe Still A Baby
Vale a Pena Ouvir: Ella Megalast Burls Forever, Suckling The Mender
Heaven Or Las Vegas – Cocteau Twins
NOTA: 10/10
Entrando nos anos 90, o Cocteau Twins nos presenteava com outro álbum atemporal, o Heaven or Las Vegas. Após o Blue Bell Knoll, os integrantes passavam por dificuldades, enquanto lidavam com mudanças profundas em suas vidas particulares. Ao mesmo tempo, Elizabeth Fraser experimentava a maternidade, fator que influenciou o tom emocional de várias composições. A produção é extremamente sofisticada e clara. As guitarras continuam etéreas, mas parecem mais luminosas, com o uso de delay e reverb de forma precisa. As linhas de baixo do Simon Raymonde continuam bem elegantes, a bateria é bastante definida, e os vocais da Elizabeth são muito expressivos e apresentam uma clareza ainda maior. Temos, assim, uma obra definitiva do Dream Pop, com pequenos traços do Shoegaze que a própria banda ajudou a influenciar. O repertório é espetacular; é praticamente uma coletânea. No final de tudo, é um clássico e um dos melhores álbuns de todos os tempos.
Melhores Faixas: Heaven Or Las Vegas, Cherry-Coloured Funk, Frou-Frou Foxes In Midsummer Fires, Pitch The Baby, Fotzepolitic, Fifty-fifty Clown
Vale a Pena Ouvir: Iceblink Luck, I Wear Your Ring
Four-Calendar Café – Cocteau Twins
NOTA: 9,4/10
Três anos se passaram, e foi lançado o 7º álbum do Cocteau Twins, o Four-Calendar Café. Após o Heaven or Las Vegas, a banda deixou a 4AD Records, e passou a trabalhar com uma grande gravadora, a Fontana. Essa mudança coincidiu com um período extremamente turbulento na vida pessoal dos integrantes. A relação entre Elizabeth Fraser e Robin Guthrie, que já vinha se desgastando durante os anos anteriores, estava praticamente chegando ao fim. A produção seguiu por um caminho mais equilibrado, com um som mais sofisticado. As guitarras passaram a ter timbres mais limpos e discretos. A bateria é mais seca e definida, o baixo é extremamente melódico, e os vocais da Elizabeth Fraser ficaram mais claros e transmitem vulnerabilidade. Com isso, o som segue no Dream Pop, mas também apresenta influências do Jangle Pop. O repertório é sensacional, e as canções são bastante imersivas. No fim, é um belo disco e muito subestimado.
Melhores Faixas: Bluebeard, Know Who You Are At Every Age, Evangeline, Summerhead, Squeeze-Wax
Vale a Pena Ouvir: Oil Of Angels, My Truth
Milk & Kisses – Cocteau Twins
NOTA: 8,7/10
Três anos se passaram, e o Cocteau Twins lançava seu último álbum, Milk & Kisses. Após o Four-Calendar Café, a banda tentou recuperar parte da magia sonora dos trabalhos anteriores, mas sem simplesmente repetir o passado. A banda estava trabalhando com uma linguagem que dominava completamente, buscando uma espécie de síntese de tudo aquilo que havia desenvolvido ao longo dos anos. A produção foi, como sempre, bastante refinada, contando com guitarras cheias de camadas, efeitos e texturas, mas aqui existe uma abordagem um pouco mais controlada. A cozinha rítmica ficou bem mais discreta, com o baixo ainda sendo bastante melódico e os vocais da Elizabeth cheios de vocalizações incompreensíveis, mas agora existe uma maior sensação de intenção emocional. O repertório é muito bom, e as canções são bastante melódicas e imersivas, mesmo com algumas faixas ruins. Enfim, é um ótimo trabalho de despedida, apesar de ser o álbum mais fraco deles.
Melhores Faixas: Serpentskirt, Violaine, Seekers Who Are Lovers, Treasure Hiding
Piores Faixas: Half-Gifts, Calfskin Smack