sexta-feira, 6 de março de 2026

Analisando Discografias - Chico Buarque: Parte 2

                 

Volume 3 – Chico Buarque De Hollanda





















NOTA: 10/10


Em 1968, foi lançado o sensacional e já clássico 3º álbum do Chico Buarque, que levou o título de Volume 3. Após o disco anterior, ele já estava se consolidando. Esse período foi particularmente intenso na cultura brasileira. Os festivais televisivos continuavam influentes, o Tropicalismo surgia como movimento disruptivo e o ambiente político do país se tornava cada vez mais tenso, culminando no endurecimento do regime militar no final daquele ano. Para esse trabalho, ele seguiu por um caminho mais complexo musicalmente e mais profundo emocionalmente. A produção, feita por Roberto Colossi e Julio Nagib, apresenta uma paleta sonora mais rica, com orquestrações discretas, porém mais presentes, além de mudanças de dinâmica que ajudam a enfatizar as narrativas das canções, promovendo a junção de Samba-canção e MPB. O repertório é incrível, e as canções são todas cheias de profundidade e sentimento. No fim, é um baita disco e certamente uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Roda Viva, Januária, Ela Desatinou, Até Pensei, O Velho 
Vale a Pena Ouvir: Funeral De Um Lavrador, Retrato Em Branco E Preto

Nº 4 – Chico Buarque De Hollanda





















NOTA: 8,6/10


Entrando nos anos 70, Chico Buarque lançava seu 4º álbum, que marcaria o fim da sua fase inicial. Após o clássico Volume 3, o compositor começou a enfrentar diretamente o clima político cada vez mais repressivo do Brasil após o endurecimento da ditadura militar, especialmente depois do AI-5 em 1968. Chico havia passado um período fora do Brasil, vivendo na Itália, e retornava ao país com uma visão ainda mais crítica e madura sobre a realidade política e social. A produção, feita por Manuel Barenboim, seguiu o mesmo caminho, só que apresentando uma atmosfera mais densa e, em alguns momentos, mais dramática. Os arranjos ampliam o uso de orquestrações sutis, seções rítmicas mais marcadas e contrastes entre momentos intimistas e passagens mais expansivas. Agora a voz do Chico ficou mais segura e expressiva, funcionando tanto em Samba quanto em MPB. O repertório é ótimo, e as canções ficaram bem mais melódicas. Enfim, é um ótimo projeto e é essencial. 

Melhores Faixas: Essa Moça Tá Diferente, Gente Humilde, Samba E Amor, Rosa Dos Ventos, Cara A Cara 
Vale a Pena Ouvir: Agora Falando Sério, Nicanor, Pois É

Construção – Chico Buarque





















NOTA: 10/10


Então chegamos a 1971, quando foi lançado o atemporal Construção, o 5º álbum do Chico Buarque. Após o Nº 4, ele havia vivido um período fora do Brasil, na Itália, e retornou ao país em um momento de grande tensão política devido à perseguição da ditadura aos artistas brasileiros. Chico já não era apenas um compositor de grande talento narrativo: ele começava a experimentar estruturas poéticas complexas, arranjos mais ousados e letras que funcionavam em múltiplos níveis de interpretação. A produção, feita por Roberto Menescal, apresenta arranjos mais ambiciosos, com forte presença orquestral e um cuidado enorme na construção rítmica e harmônica das músicas. Com estruturas rítmicas, repetições e mudanças de acordes foram pensadas para acompanhar a narrativa e a poesia das canções, algo que moldou a MPB. O repertório é sensacional, é praticamente uma coletânea. No fim, é um belíssimo disco e um dos melhores de todos os tempos. 

Melhores Faixas: Construção, Cotidiano, Deus Lhe Pague, Valsinha, Minha História 
Vale a Pena Ouvir: Samba De Orly, Desalento, Cordão

Calabar, O Elogio Da Traição – Chico Buarque





















NOTA: 8/10


Dois anos se passaram, e foi lançado mais um novo trabalho do Chico Buarque, o Calabar: O Elogio da Traição. Após o clássico Construção, esse novo projeto surgiu como trilha sonora da peça escrita por Chico em parceria com o cineasta e poeta Ruy Guerra. A peça revisava a história de Domingos Fernandes Calabar, personagem do período colonial brasileiro que ficou conhecido como “traidor” por ter lutado ao lado dos holandeses contra Portugal. Só que houve um problema: quando lançado, esse projeto sofreu censura, com trechos cortados e com o título trocado. A produção foi feita novamente por Roberto Menescal, que colocou um som mais amplo e moderno, e os arranjos foram feitos por Edu Lobo, incluindo até o uso de sintetizadores, guitarra elétrica e arranjos de cordas mais expressivos. O único ponto fraco foi a escolha da abordagem de cada música. O repertório é até bom, e as canções são bem consistentes. Em suma, é um trabalho legal, apesar de alguns erros. 

Melhores Faixas: Tatuagem, Fado Tropical, Cala A Boca Barbara 
Vale a Pena Ouvir: Bárbara, Tira As Mãos De Mim

Sinal Fechado – Chico Buarque





















NOTA: 9,4/10


Mais um ano se passou, e Chico Buarque retorna com o álbum Sinal Fechado, que foi muito ousado. Após o censurado Calabar: O Elogio da Traição, vendo que a censura estava em cima dele, o cantor decidiu gravar um disco interpretando composições de outros autores importantes da música brasileira, como Caetano Veloso, Tom Jobim, Gilberto Gil e Noel Rosa. Essa escolha não foi apenas uma solução prática, mas também um gesto artístico que evidenciava a riqueza da MPB e, ao mesmo tempo, denunciava, de forma indireta, a situação de repressão cultural do período. A produção foi feita por Sérgio de Carvalho, com arranjos elegantes e forte presença de elementos do Samba e da Bossa Nova. O foco principal está na interpretação de Chico, que assume o papel de narrador e intérprete das obras de seus contemporâneos e predecessores. O repertório é muito bom, e as canções são todas muito bem interpretadas. No fim, é um belo disco e bem consistente. 

Melhores Faixas: Acorda Amor, Festa Imodesta, Lígia, Sem Compromisso, Copo Vazio, Você Não Sabe Amar 
Vale a Pena Ouvir: Lágrima, Filosofia, Não Me Deixe Mudo

Meus Caros Amigos – Chico Buarque





















NOTA: 10/10


Mais dois anos se passaram, e foi lançado outro álbum sensacional do Chico Buarque, o Meus Caros Amigos. Após o Sinal Fechado, depois de anos em que várias composições foram proibidas ou atrasadas, começou a ocorrer uma liberação gradual de músicas que antes não tinham sido autorizadas. Com isso, grande parte do repertório do disco vinha de canções compostas anteriormente para peças de teatro, filmes e projetos que tinham ficado represados pela censura. A produção, feita por Sérgio de Carvalho, apresenta arranjos bem sofisticados e fortemente ligados à tradição do Samba-canção e do Choro, mas também influenciados por técnicas de música de concerto, criando uma sonoridade refinada e muito característica da MPB dos anos 70, e aqui os vocais do Chico são bem animados, embora também tenham muitos momentos suaves. O repertório é maravilhoso e também parece uma coletânea. No geral, é um baita disco e outro clássico da música brasileira. 

Melhores Faixas: Meu Caro Amigo, O Que Será (A Flor Da Terra) (dueto com Milton Nascimento), Mulheres De Atenas, Passaredo, Vai Trabalhar Vagabundo 
Vale a Pena Ouvir: Olhos Nos Olhos, Corrente

Chico Buarque (1978) – Chico Buarque





















NOTA: 10/10


E aí chegamos a 1978, quando foi lançado o seu 9º álbum, intitulado apenas com seu nome. Após o Meus Caros Amigos, Chico Buarque estava profundamente envolvido com teatro, cinema e projetos musicais paralelos, como trilhas e peças que refletiam o clima político e social do período. Com isso, ele decidiu pegar composições escritas anos antes, algumas inclusive proibidas ou parcialmente censuradas, para fazer parte desse trabalho, que foi uma verdadeira salada de frutas que deu super certo. Produção feita por Sérgio de Carvalho, foi bem orgânica, sendo uma mistura de Samba, MPB tradicional e influências eruditas. Os arranjos frequentemente valorizam instrumentos típicos da música brasileira, além de incluir formações instrumentais elaboradas que casam com os vocais expressivos do Chico. O repertório é simplesmente espetacular e obviamente parece uma coletânea. No final de tudo, é outra obra-prima e um dos melhores álbuns da música brasileira. 

Melhores Faixas: Cálice (outra aparição sensacional do Milton Nascimento), Apesar De Você, Feijoada Completa, Homenagem Ao Malandro, O Meu Amor (cantado pela Elba Ramalho e a esposa do Chico: Marieta Severo), Trocando Em Miúdos 
Vale a Pena Ouvir: Tanto Mar, Pedaço De Mim (participação da Zizzi Possi), Até O Fim

Vida – Chico Buarque





















NOTA: 9,8/10


Entrando nos anos 80, Chico Buarque lançava mais um disco intitulado Vida, que foi bem mais melancólico. Após o álbum de 1978, com o país vivendo os anos finais da ditadura militar e com a promulgação da Lei da Anistia, Chico passou a explorar uma escrita mais introspectiva e subjetiva, com letras refletindo sentimentos pessoais, histórias de amor, reflexões sobre o tempo e retratos sociais mais sutis, mantendo a profundidade literária característica do compositor. A produção, feita novamente por Sérgio de Carvalho, apresenta uma sonoridade elegante que mistura MPB tradicional, Samba, elementos orquestrais e momentos mais minimalistas. Com isso, temos melodias sofisticadas e os vocais do Chico, que são bem mais intimistas, trazendo um lado melancólico. O repertório é incrível, e as canções são todas belíssimas e suaves. No geral, é um disco sensacional e bem sentimental. 

Melhores Faixas: Fantasia, Vida, Eu Te Amo, Bye Bye Brasil, Morena De Angola 
Vale a Pena Ouvir: Mar E Lua, Bastidores, De Todas As Maneiras

Almanaque – Chico Buarque





















NOTA: 9,5/10


No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho novo do Chico Buarque, o Almanaque. Após o Vida, aquele período musical no Brasil passava por transformações no próprio ambiente da indústria musical em que Chico atuava, já que naquele período muitos de seus contemporâneos estavam sendo padronizados para poder tocar nas rádios, e Chico não quis se adequar a isso, além de estar envolvido em disputas contratuais entre gravadoras, especialmente entre a Philips e a Ariola. A produção, feita por Marco Mazzola, apresenta uma sonoridade bastante refinada e madura. Os arranjos mesclam elementos de Samba, MPB e ritmos orquestrados, com seções de cordas extensas e o uso de instrumentos como violão, baixo elétrico, percussão e piano, criando uma sonoridade calorosa. O repertório é ótimo, e as canções são todas carregadas de profundidade. No fim, é um belo disco e, de certo modo, bem subestimado. 

Melhores Faixas: O Meu Guri, As Vitrines, Almanaque, Amor Barato 
Vale a Pena Ouvir: Tanto Amar, Angélica

Chico Buarque (1984) – Chico Buarque





















NOTA: 9/10


Três anos se passaram, e Chico Buarque lançava mais um disco que ficou conhecido como ‘‘disco vermelho’’. Após o Almanaque, esse trabalho surge em um período das mobilizações pelas Diretas Já e da transição final do regime militar para a redemocratização. Esse contexto histórico influenciou diretamente o espírito do disco, que mistura observação social, crítica política e retratos humanos bastante intensos. A produção, conduzida por Homero Ferreira e Chico Batera, apresenta uma sonoridade bastante sofisticada, típica da MPB daquele período, com arranjos que combinam Samba, Smooth Jazz e até Son Cubano, tudo bem integrado à interpretação vocal expressiva do Chico e a uma paleta riquíssima de arranjos que cria um clima de grande elegância nas harmonias. O repertório novamente é ótimo, e as canções seguiram por um caminho bem mais intimista. No final de tudo, é outro álbum incrível e que também merecia ser redescoberto. 

Melhores Faixas: Samba Do Grande Amor, Pelas Tabelas, Vai Passar, Brejo da Cruz 
Vale a Pena Ouvir: Tantas Palavras, Mil Perdões, Mano A Mano

                                                                       Então é isso, um abraço e flw!!!          

quinta-feira, 5 de março de 2026

Analisando Discografias - Chico Buarque: Parte 1

                  

Chico Buarque De Hollanda – Chico Buarque De Hollanda





















NOTA: 9/10


Em 1966, foi lançado o álbum de estreia de Chico Buarque, então conhecido como Chico Buarque de Hollanda (sim, eu sei que você associou a capa a um meme). A trajetória do cantor carioca, que era filho do renomado historiador Sérgio Buarque de Holanda, começou de vez por volta de 1964, quando conheceu o autor Roberto Freire, que o levou para a TV Record, onde gravou a canção A Banda que venceu o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, e aí ele ganhou sua chance de gravar um disco. A produção foi feita por Manuel Barenbein e o álbum foi lançado pelo selo da RGE, que ajudou a moldar o som do disco com arranjos discretos e elegantes, valorizando principalmente a voz suave e a dicção característica do Chico. A estética sonora do álbum mistura elementos do Samba urbano com influências da MPB nascente. O repertório é ótimo, e as canções são bem divertidas e mostram um lado imersivo. No fim, é um belo álbum de estreia e bem coeso. 

Melhores Faixas: A Banda, Pedro Pedreiro, A Rita, Sonho De Um Carnaval, Olê Olá 
Vale a Pena Ouvir: Meu Refrão, Você Não Ouviu

Volume 2 – Chico Buarque De Hollanda





















NOTA: 8,2/10


No ano seguinte, foi lançado o 2º álbum do Chico Buarque, que foi intitulado de Volume 2. Após o seu álbum de estreia, o compositor já era visto como alguém capaz de unir a tradição do Samba, sofisticação harmônica e observação social. O período entre os dois discos foi curto, mas intenso. Chico estava se apresentando bastante, participando de programas de televisão e consolidando parcerias dentro do meio musical e teatral. A produção foi feita novamente por Manuel Barenbein e manteve a linha estética elegante e relativamente econômica que havia funcionado no disco anterior. Os arranjos procuram valorizar o violão, a voz suave de Chico e pequenos conjuntos instrumentais que transitam entre o Samba-canção e arranjos orquestrais discretos. Com isso, a sonoridade ficou bem mais dramática e melancólica, o que se encaixou muito bem. O repertório é muito bom, e as canções são todas bem suaves. No fim, é um disco bacana, só que é o mais fraco dessa fase inicial. 

Melhores Faixas: Quem Te Viu, Quem Te Vê, Noite Dos Mascarados, A Televisão, Fica 
Vale a Pena Ouvir: Realejo, Com Açucar, Com Afeto, Morena Dos Olhos D'Água
  

                                                                                Então um abraço e flw!!!                  

Analisando Discografias - Bob Dylan: Parte 5

                 

Tempest – Bob Dylan





















NOTA: 8,2/10


Três anos se passam, e foi lançado mais um álbum do Bob Dylan, o Shadows in the Night. Após o Tempest, o cantor entrou em um período em que sua atenção artística começou a se voltar ainda mais explicitamente para o repertório clássico da música popular americana do século XX. Embora Dylan sempre tivesse dialogado com a tradição musical, como Blues antigo, Folk, Country e standards, ele decidiu dar um passo diferente: gravar um álbum inteiro dedicado a canções associadas ao chamado Great American Songbook. A produção foi bem intimista, quase como se as músicas estivessem sendo interpretadas em um pequeno clube noturno. A banda toca de maneira extremamente contida, com arranjos discretos que permitem que a voz do Dylan fique no centro, só que, no geral, é tudo bem repetitivo e os vocais dele não se encaixam bem. O repertório é até bom, mas são as interpretações que deixam a desejar. Enfim, é um projeto fraco e que ainda teria continuidade. 

Melhores Faixas: Autumn Leaves, Stay With Me, That Lucky Old Sun 
Piores Faixas: Full Moon And Empty Arms, The Night We Called It A Day, What'll I Do, I'm A Fool To Want You

Shadows In The Night – Bob Dylan





















NOTA: 3/10


Três anos se passam, e foi lançado mais um álbum do Bob Dylan, o Shadows in the Night. Após o Tempest, o cantor entrou em um período em que sua atenção artística começou a se voltar ainda mais explicitamente para o repertório clássico da música popular americana do século XX. Embora Dylan sempre tivesse dialogado com a tradição musical, como Blues antigo, Folk, Country e standards, ele decidiu dar um passo diferente: gravar um álbum inteiro dedicado a canções associadas ao chamado Great American Songbook. A produção foi bem intimista, quase como se as músicas estivessem sendo interpretadas em um pequeno clube noturno. A banda toca de maneira extremamente contida, com arranjos discretos que permitem que a voz do Dylan fique no centro, só que, no geral, é tudo bem repetitivo e os vocais dele não se encaixam bem. O repertório é até bom, mas são as interpretações que deixam a desejar. Enfim, é um projeto fraco e que ainda teria continuidade. 

Melhores Faixas: Autumn Leaves, Stay With Me, That Lucky Old Sun 
Piores Faixas: Full Moon And Empty Arms, The Night We Called It A Day, What'll I Do, I'm A Fool To Want You

Fallen Angels – Bob Dylan





















NOTA: 3/10


No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho do que viria a ser uma trilogia, o Fallen Angels. Após o Shadows in the Night, que tinha uma atmosfera mais contemplativa e noturna, esta continuação apresenta momentos ligeiramente mais leves e românticos, ainda mantendo o tom nostálgico característico dessas composições. Vale lembrar que muitas dessas canções haviam sido interpretadas por grandes cantores da era dos standards, incluindo Frank Sinatra. A produção foi relativamente a mesma, apresentando uma instrumentação bastante delicada e minimalista. A banda toca de maneira suave, com arranjos que lembram pequenas apresentações ao vivo em clubes ou ambientes intimistas. Só que, de novo, tudo é bastante arrastado e as escolhas vocais do Bob Dylan não conseguem ser boas. O repertório sofreu novamente com o mesmo problema, faltando maior encaixe nas interpretações. No fim, foi outro trabalho fraco e que não estava indo a lugar nenhum. 

Melhores Faixas: It Had To Be You, All The Way, All Or Nothing At All 
Piores Faixas: Polka Dots And Moonbeams, Skylark, Maybe You'll Be There, On A Little Street In Singapore

Triplicate – Bob Dylan





















NOTA: 2,5/10


E aí, em 2017, Bob Dylan finaliza essa trilogia com um álbum triplo cujo título é basicamente Triplicate. Após o Fallen Angels, o cantor quis finalizar essa fase lançando um trabalho dividido em três discos, cada um com um clima levemente distinto, mas todos conectados pela mesma estética. O projeto funciona quase como uma grande imersão na tradição da canção americana, vista através da voz envelhecida, áspera e profundamente expressiva do Dylan. A produção foi voltada para arranjos ainda mais discretos, com guitarras suaves, pedal steel, contrabaixo, bateria delicada e alguns toques de instrumentos adicionais que criam um ambiente elegante. A sonoridade é limpa e clara, permitindo que a interpretação vocal seja o foco principal, só que toda essa proposta ficou excessivamente arrastada, e, se já não tinha dado certo antes, não seria agora que daria. O repertório é muito mal interpretado e só duas canções se salvam. No geral, é um trabalho péssimo e bem esquecível. 

Melhores Faixas: Sentimental Journey, As Time Goes By 
Piores Faixas: My One And Only Love, This Nearly Was Mine, You Go To My Head, Here's That Rainy Day, The Old Feeling, Why Was I Born

Rough And Rowdy Ways – Bob Dylan





















NOTA: 8,8/10


Foi so em 2020, que o Bob Dylan decidiu lançar um disco novo, o Rough And Rowdy Ways, e aqui foi para um caminho certo. Após aquela trilogia esquecível de standards, Dylan continuou ativo na estrada com sua turnê constante e manteve uma postura artística bastante reservada. Entretanto, em 2020, de forma quase inesperada, começaram a surgir sinais de um novo projeto. Primeiro veio o lançamento da longa e enigmática canção que aborda o assassinato de John F. Kennedy e que surpreendeu tanto pela duração quanto pela densidade lírica, e tava na cara que ia vim album. Produção foi para arranjos discretos, mas extremamente bem construídos. Há presença constante de guitarras limpas e bateria tocada com sutileza, e com influencias claras do Folk de câmara e da musica Americana, e com a voz de Dylan sendo quase narrativa. O repertório ficou muito bom, e as canções são bastante imersivas. Enfim, é um ótimo projeto e que é bem consistente. 

Melhores Faixas: Key West (Philosopher Pirate), I've Made Up My Mind To Give Myself To You, Crossing The Rubicon 
Vale a Pena Ouvir: Murder Most Foul (a canção que foi lançada antes), False Prophet, My Own Version Of You

Shadow Kingdom – Bob Dylan





















NOTA: 8/10


Então chegamos em 2023, onde foi lançado o 40º e último álbum até então do Bob Dylan, o Shadow Kingdom. Após o Rough And Rowdy Ways, havia sido amplamente elogiado e reforçado a ideia de que, mesmo após décadas de atividade, ele ainda conseguia produzir obras profundas e relevantes. E com aquele período de pandemia isso lá em 2021, ele decidiu gravar um projeto que seria de reinterpretações de suas canções só que serviu como escada para o filme de mesmo nome. Produção se distancia bastante de um disco ao vivo convencional. A apresentação original foi filmada em um ambiente que lembrava um clube antigo, com iluminação dramática, atmosfera noir e uma sensação quase atemporal. Musicalmente, a banda que acompanha Dylan é enxuta, mas extremamente eficiente. O repertório foi muito bem escolhido e todas as reinterpretações acabam funcionando bem na voz envelhecida do cantor. No fim, é um ótimo trabalho e que cumpre sua proposta. 

Melhores Faixas: What Was It You Wanted, Forever Young 
Vale a Pena Ouvir: Watching The River Flow, Tombstone Blues, It’s All Over Now, Baby Blue, When I Paint My Masterpiece


quarta-feira, 4 de março de 2026

Analisando Discografias - Bob Dylan: Parte 4

                 

Good As I Been To You – Bob Dylan





















NOTA: 8/10


Dois anos se passaram, e foi lançado mais um trabalho do Bob Dylan, o Good As I Been to You. Após o Under the Red Sky, o cantor tomou uma decisão surpreendente: em vez de lançar um disco com composições inéditas próprias, ele optou por gravar um álbum inteiramente dedicado a canções tradicionais da música Folk americana e britânica. Essa escolha representava, de certa forma, um retorno às origens de sua carreira. A produção, feita por Debbie Gold, adotou uma abordagem crua e direta, já que tudo foi gravado basicamente com voz e violão acústico, criando um ambiente íntimo e quase doméstico. Essa decisão estética aproxima o álbum da tradição Folk mais pura, onde a força da música reside na narrativa, na melodia e na interpretação do cantor. O repertório é muito bom, e as canções são todas bem interpretadas nesse caráter acústico. No fim, é um ótimo álbum e que mostrou Bob Dylan voltando às suas raízes. 

Melhores Faixas: Hard Times, Sittin' On Top Of The World 
Vale a Pena Ouvir: Jim Jones, Froggie Went A Courtin', Tomorrow Night, Little Maggie

World Gone Wrong – Bob Dylan





















NOTA: 8/10


No ano seguinte, foi lançado outro disco do Bob Dylan, intitulado World Gone Wrong. Após o Good As I Been to You, esse novo álbum funciona quase como uma continuação direta do projeto anterior, mas com um clima mais sombrio e introspectivo. Dylan mergulha ainda mais profundamente no repertório do Blues rural, muitas delas associadas a figuras como Blind Willie McTell, Mississippi Sheiks e outros nomes do Blues pré-guerra. A produção, conduzida pelo próprio cantor, segue a mesma filosofia minimalista adotada anteriormente. As gravações ocorreram de maneira simples e direta, com ele praticamente sozinho em estúdio, utilizando apenas violão e harmônica em algumas faixas. O foco está na interpretação vocal e na forma como Dylan manipula o tempo e a dinâmica das canções tradicionais. O repertório é muito bom, é extremamente bem interpretado e traz aquele clima do Blues antigo. Enfim, é um ótimo álbum e vale a pena ir atrás. 

Melhores Faixas: Delia, Stack A Lee 
Vale a Pena Ouvir: Love Henry, Jack-A-Roe, Blood In My Eyes

Time Out Of Mind – Bob Dylan





















NOTA: 9,8/10


Aí em 1997, foi lançado o 30º álbum de estúdio do Bob Dylan, o Time Out of Mind. Após o World Gone Wrong, o cantor passou por um período de reflexão profunda sobre sua carreira. Outro fator importante foi o estado de saúde do artista na metade dos anos 90. Em 1997, pouco antes do lançamento do novo álbum, Dylan enfrentou uma infecção cardíaca grave (histoplasmose), o que gerou grande preocupação pública e colocou sua mortalidade em evidência. Isso foi muito importante, pois fez o público ter mais atenção com as composições desse trabalho. A produção, feita por Daniel Lanois, trouxe uma abordagem que misturava tradição e experimentação, colocando um som carregado de atmosfera: ecos, reverberações e camadas de instrumentos que criam uma sensação quase fantasmagórica, seguindo um pouco de Blues Rock e Country. O repertório é sensacional, e as canções são todas bem reflexivas e até sombrias. No geral, é um belo disco e é um clássico. 

Melhores Faixas: Love Sick, Not Dark Yet, Make You Feel My Love, Standing In The Doorway, Tryin' To Get To Heaven 
Vale a Pena Ouvir: Highlands, Dirt Road Blues, Can't Wait

"Love And Theft" – Bob Dylan





















NOTA: 8,8/10


Em 2001, mais precisamente no dia 11 de setembro (isso mesmo!), foi lançado o álbum Love and Theft. Após o Time Out of Mind, Bob Dylan entrou em uma fase particularmente criativa de sua carreira tardia. O sucesso do disco de 1997 não apenas restaurou sua reputação como compositor essencial da música americana, mas também abriu caminho para uma nova abordagem em seus trabalhos seguintes. Decidindo fazer um trabalho que explora ainda mais profundamente as raízes da música tradicional dos Estados Unidos. A produção, feita por ele mesmo (sob o nome de Jack Frost), foi para um som mais direto, orgânico e baseado na dinâmica da banda tocando junta. O som do álbum enfatiza instrumentos tradicionais e arranjos que remetem a estilos clássicos da música americana. Há elementos do Blues Rock, Folk, Country antigo e até influências de Jazz tradicional. O repertório é muito bom, e as canções são todas bem divertidas. No fim, é um ótimo disco e é bem coeso. 

Melhores Faixas: Mississippi, Moonlight, Lonesome Day Blues 
Vale a Pena Ouvir: Tweedle Dee & Tweedle Dum, Sugar Baby, Honest With Me

Modern Times – Bob Dylan





















NOTA: 8,1/10


Cinco anos depois, foi lançado mais um álbum do Bob Dylan intitulado Modern Times. Após o "Love And Theft", ficou entendido que o Bob Dylan havia encontrado uma nova linguagem musical: uma mistura profunda de Blues tradicional, Country e elementos do Rock clássico, combinada com letras densas, irônicas e cheias de referências históricas e literárias. Apesar desse título o conceito em si era profundamente enraizado em estilos antigos, criando um contraste interessante entre passado e presente. Produção teve um som natural e orgânico, baseado na interação direta da banda e na sensação de ser ao vivo. O resultado é um som que parece antigo e moderno ao mesmo tempo. A instrumentação inclui guitarras limpas, piano marcante, pedal steel e seções rítmicas que evocam Blues e Country clássico. O repertório é muito bom, e as canções passam aquele clima de leveza e aconchego. No geral, é um disco bacana e bem consistente. 

Melhores Faixas: Workingman's Blues #2, Thunder On The Mountain 
Vale a Pena Ouvir: Beyond The Horizon, Ain't Talkin', Rollin' And Tumblin'

Together Through Life – Bob Dylan





















NOTA: 8/10


Em 2009, foi lançado um novo trabalho do Bob Dylan intitulado Together Through Life. Após o Modern Times, esse trabalho surgiu a partir de um pedido para compor uma música para um filme. A partir desse processo inicial, Dylan decidiu expandir a ideia e desenvolver um álbum inteiro com uma abordagem específica: criar um disco que tivesse um clima mais espontâneo, influenciado por ritmos que evocavam música de fronteira, Tex-Mex, Blues e sonoridades do sul dos Estados Unidos. A produção foi bastante distinta dentro dessa fase tardia, principalmente pela presença marcante do acordeão, que dá a muitas músicas um caráter próximo dos estilos já citados. Em vez de uma atmosfera densa ou épica, o álbum aposta em grooves simples, diretos e muitas vezes dançantes. O repertório ficou muito bom, e as canções são todas bem envolventes. Enfim, é um trabalho legal, apesar da falta de coesão. 

Melhores Faixas: This Dream Of You, It's All Good 
Vale a Pena Ouvir: Life Is Hard, Jolene, If You Ever Go To Houston

Christmas In The Heart – Bob Dylan





















NOTA: 5/10


E aí, meses depois, foi lançado um álbum de Natal do Bob Dylan, o Christmas in the Heart. Após o Together Through Life, o artista estava em um período de grande produtividade criativa e poderia ter seguido lançando material autoral. Em vez disso, optou por revisitar músicas clássicas associadas ao Natal, muitas delas profundamente enraizadas na cultura popular do século XX. Além disso, ele decidiu destinar os royalties do álbum para instituições de caridade relacionadas à alimentação de pessoas necessitadas dos Estados Unidos ao resto do mundo. A produção foi bastante orgânica, com arranjos riquíssimos que evocam estilos tradicionais da música popular americana: há influências de Big Band, corais natalinos, pop orquestrado e até elementos de Swing, só que muita coisa fica bem arrastada, e a voz do Bob Dylan não se encaixa. Em suma, é um disco mediano, mas a causa foi bem melhor. 

Melhores Faixas: O' Come All Ye Faithful (Adeste Fideles), The Christmas Song, Winter Wonderland 
Piores Faixas: Little Drummer Boy, The First Noel, Must Be Santa

                                                                                    Então é isso e flw!!!

Analisando Discografias - Chico Buarque: Parte 2

                  Volume 3 – Chico Buarque De Hollanda NOTA: 10/10 Em 1968, foi lançado o sensacional e já clássico 3º álbum do Chico Buarqu...