Volume 3 – Chico Buarque De Hollanda
NOTA: 10/10
Em 1968, foi lançado o sensacional e já clássico 3º álbum do Chico Buarque, que levou o título de Volume 3. Após o disco anterior, ele já estava se consolidando. Esse período foi particularmente intenso na cultura brasileira. Os festivais televisivos continuavam influentes, o Tropicalismo surgia como movimento disruptivo e o ambiente político do país se tornava cada vez mais tenso, culminando no endurecimento do regime militar no final daquele ano. Para esse trabalho, ele seguiu por um caminho mais complexo musicalmente e mais profundo emocionalmente. A produção, feita por Roberto Colossi e Julio Nagib, apresenta uma paleta sonora mais rica, com orquestrações discretas, porém mais presentes, além de mudanças de dinâmica que ajudam a enfatizar as narrativas das canções, promovendo a junção de Samba-canção e MPB. O repertório é incrível, e as canções são todas cheias de profundidade e sentimento. No fim, é um baita disco e certamente uma obra-prima.
Melhores Faixas: Roda Viva, Januária, Ela Desatinou, Até Pensei, O Velho
Vale a Pena Ouvir: Funeral De Um Lavrador, Retrato Em Branco E Preto
Nº 4 – Chico Buarque De Hollanda
NOTA: 8,6/10
Entrando nos anos 70, Chico Buarque lançava seu 4º álbum, que marcaria o fim da sua fase inicial. Após o clássico Volume 3, o compositor começou a enfrentar diretamente o clima político cada vez mais repressivo do Brasil após o endurecimento da ditadura militar, especialmente depois do AI-5 em 1968. Chico havia passado um período fora do Brasil, vivendo na Itália, e retornava ao país com uma visão ainda mais crítica e madura sobre a realidade política e social. A produção, feita por Manuel Barenboim, seguiu o mesmo caminho, só que apresentando uma atmosfera mais densa e, em alguns momentos, mais dramática. Os arranjos ampliam o uso de orquestrações sutis, seções rítmicas mais marcadas e contrastes entre momentos intimistas e passagens mais expansivas. Agora a voz do Chico ficou mais segura e expressiva, funcionando tanto em Samba quanto em MPB. O repertório é ótimo, e as canções ficaram bem mais melódicas. Enfim, é um ótimo projeto e é essencial.
Melhores Faixas: Essa Moça Tá Diferente, Gente Humilde, Samba E Amor, Rosa Dos Ventos, Cara A Cara
Vale a Pena Ouvir: Agora Falando Sério, Nicanor, Pois É
Construção – Chico Buarque
NOTA: 10/10
Então chegamos a 1971, quando foi lançado o atemporal Construção, o 5º álbum do Chico Buarque. Após o Nº 4, ele havia vivido um período fora do Brasil, na Itália, e retornou ao país em um momento de grande tensão política devido à perseguição da ditadura aos artistas brasileiros. Chico já não era apenas um compositor de grande talento narrativo: ele começava a experimentar estruturas poéticas complexas, arranjos mais ousados e letras que funcionavam em múltiplos níveis de interpretação. A produção, feita por Roberto Menescal, apresenta arranjos mais ambiciosos, com forte presença orquestral e um cuidado enorme na construção rítmica e harmônica das músicas. Com estruturas rítmicas, repetições e mudanças de acordes foram pensadas para acompanhar a narrativa e a poesia das canções, algo que moldou a MPB. O repertório é sensacional, é praticamente uma coletânea. No fim, é um belíssimo disco e um dos melhores de todos os tempos.
Melhores Faixas: Construção, Cotidiano, Deus Lhe Pague, Valsinha, Minha História Vale a Pena Ouvir: Samba De Orly, Desalento, Cordão
Calabar, O Elogio Da Traição – Chico Buarque
NOTA: 8/10
Dois anos se passaram, e foi lançado mais um novo trabalho do Chico Buarque, o Calabar: O Elogio da Traição. Após o clássico Construção, esse novo projeto surgiu como trilha sonora da peça escrita por Chico em parceria com o cineasta e poeta Ruy Guerra. A peça revisava a história de Domingos Fernandes Calabar, personagem do período colonial brasileiro que ficou conhecido como “traidor” por ter lutado ao lado dos holandeses contra Portugal. Só que houve um problema: quando lançado, esse projeto sofreu censura, com trechos cortados e com o título trocado. A produção foi feita novamente por Roberto Menescal, que colocou um som mais amplo e moderno, e os arranjos foram feitos por Edu Lobo, incluindo até o uso de sintetizadores, guitarra elétrica e arranjos de cordas mais expressivos. O único ponto fraco foi a escolha da abordagem de cada música. O repertório é até bom, e as canções são bem consistentes. Em suma, é um trabalho legal, apesar de alguns erros.
Melhores Faixas: Tatuagem, Fado Tropical, Cala A Boca Barbara
Vale a Pena Ouvir: Bárbara, Tira As Mãos De Mim
Sinal Fechado – Chico Buarque
NOTA: 9,4/10
Mais um ano se passou, e Chico Buarque retorna com o álbum Sinal Fechado, que foi muito ousado. Após o censurado Calabar: O Elogio da Traição, vendo que a censura estava em cima dele, o cantor decidiu gravar um disco interpretando composições de outros autores importantes da música brasileira, como Caetano Veloso, Tom Jobim, Gilberto Gil e Noel Rosa. Essa escolha não foi apenas uma solução prática, mas também um gesto artístico que evidenciava a riqueza da MPB e, ao mesmo tempo, denunciava, de forma indireta, a situação de repressão cultural do período. A produção foi feita por Sérgio de Carvalho, com arranjos elegantes e forte presença de elementos do Samba e da Bossa Nova. O foco principal está na interpretação de Chico, que assume o papel de narrador e intérprete das obras de seus contemporâneos e predecessores. O repertório é muito bom, e as canções são todas muito bem interpretadas. No fim, é um belo disco e bem consistente.
Melhores Faixas: Acorda Amor, Festa Imodesta, Lígia, Sem Compromisso, Copo Vazio, Você Não Sabe Amar
Vale a Pena Ouvir: Lágrima, Filosofia, Não Me Deixe Mudo
Meus Caros Amigos – Chico Buarque
NOTA: 10/10
Mais dois anos se passaram, e foi lançado outro álbum sensacional do Chico Buarque, o Meus Caros Amigos. Após o Sinal Fechado, depois de anos em que várias composições foram proibidas ou atrasadas, começou a ocorrer uma liberação gradual de músicas que antes não tinham sido autorizadas. Com isso, grande parte do repertório do disco vinha de canções compostas anteriormente para peças de teatro, filmes e projetos que tinham ficado represados pela censura. A produção, feita por Sérgio de Carvalho, apresenta arranjos bem sofisticados e fortemente ligados à tradição do Samba-canção e do Choro, mas também influenciados por técnicas de música de concerto, criando uma sonoridade refinada e muito característica da MPB dos anos 70, e aqui os vocais do Chico são bem animados, embora também tenham muitos momentos suaves. O repertório é maravilhoso e também parece uma coletânea. No geral, é um baita disco e outro clássico da música brasileira.
Melhores Faixas: Meu Caro Amigo, O Que Será (A Flor Da Terra) (dueto com Milton Nascimento), Mulheres De Atenas, Passaredo, Vai Trabalhar Vagabundo
Vale a Pena Ouvir: Olhos Nos Olhos, Corrente
Chico Buarque (1978) – Chico Buarque
NOTA: 10/10
E aí chegamos a 1978, quando foi lançado o seu 9º álbum, intitulado apenas com seu nome. Após o Meus Caros Amigos, Chico Buarque estava profundamente envolvido com teatro, cinema e projetos musicais paralelos, como trilhas e peças que refletiam o clima político e social do período. Com isso, ele decidiu pegar composições escritas anos antes, algumas inclusive proibidas ou parcialmente censuradas, para fazer parte desse trabalho, que foi uma verdadeira salada de frutas que deu super certo. Produção feita por Sérgio de Carvalho, foi bem orgânica, sendo uma mistura de Samba, MPB tradicional e influências eruditas. Os arranjos frequentemente valorizam instrumentos típicos da música brasileira, além de incluir formações instrumentais elaboradas que casam com os vocais expressivos do Chico. O repertório é simplesmente espetacular e obviamente parece uma coletânea. No final de tudo, é outra obra-prima e um dos melhores álbuns da música brasileira.
Melhores Faixas: Cálice (outra aparição sensacional do Milton Nascimento), Apesar De Você, Feijoada Completa, Homenagem Ao Malandro, O Meu Amor (cantado pela Elba Ramalho e a esposa do Chico: Marieta Severo), Trocando Em Miúdos
Vale a Pena Ouvir: Tanto Mar, Pedaço De Mim (participação da Zizzi Possi), Até O Fim
Vida – Chico Buarque
NOTA: 9,8/10
Entrando nos anos 80, Chico Buarque lançava mais um disco intitulado Vida, que foi bem mais melancólico. Após o álbum de 1978, com o país vivendo os anos finais da ditadura militar e com a promulgação da Lei da Anistia, Chico passou a explorar uma escrita mais introspectiva e subjetiva, com letras refletindo sentimentos pessoais, histórias de amor, reflexões sobre o tempo e retratos sociais mais sutis, mantendo a profundidade literária característica do compositor. A produção, feita novamente por Sérgio de Carvalho, apresenta uma sonoridade elegante que mistura MPB tradicional, Samba, elementos orquestrais e momentos mais minimalistas. Com isso, temos melodias sofisticadas e os vocais do Chico, que são bem mais intimistas, trazendo um lado melancólico. O repertório é incrível, e as canções são todas belíssimas e suaves. No geral, é um disco sensacional e bem sentimental.
Melhores Faixas: Fantasia, Vida, Eu Te Amo, Bye Bye Brasil, Morena De Angola Vale a Pena Ouvir: Mar E Lua, Bastidores, De Todas As Maneiras
Almanaque – Chico Buarque
NOTA: 9,5/10
No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho novo do Chico Buarque, o Almanaque. Após o Vida, aquele período musical no Brasil passava por transformações no próprio ambiente da indústria musical em que Chico atuava, já que naquele período muitos de seus contemporâneos estavam sendo padronizados para poder tocar nas rádios, e Chico não quis se adequar a isso, além de estar envolvido em disputas contratuais entre gravadoras, especialmente entre a Philips e a Ariola. A produção, feita por Marco Mazzola, apresenta uma sonoridade bastante refinada e madura. Os arranjos mesclam elementos de Samba, MPB e ritmos orquestrados, com seções de cordas extensas e o uso de instrumentos como violão, baixo elétrico, percussão e piano, criando uma sonoridade calorosa. O repertório é ótimo, e as canções são todas carregadas de profundidade. No fim, é um belo disco e, de certo modo, bem subestimado.
Melhores Faixas: O Meu Guri, As Vitrines, Almanaque, Amor Barato
Vale a Pena Ouvir: Tanto Amar, Angélica
Chico Buarque (1984) – Chico Buarque
NOTA: 9/10
Três anos se passaram, e Chico Buarque lançava mais um disco que ficou conhecido como ‘‘disco vermelho’’. Após o Almanaque, esse trabalho surge em um período das mobilizações pelas Diretas Já e da transição final do regime militar para a redemocratização. Esse contexto histórico influenciou diretamente o espírito do disco, que mistura observação social, crítica política e retratos humanos bastante intensos. A produção, conduzida por Homero Ferreira e Chico Batera, apresenta uma sonoridade bastante sofisticada, típica da MPB daquele período, com arranjos que combinam Samba, Smooth Jazz e até Son Cubano, tudo bem integrado à interpretação vocal expressiva do Chico e a uma paleta riquíssima de arranjos que cria um clima de grande elegância nas harmonias. O repertório novamente é ótimo, e as canções seguiram por um caminho bem mais intimista. No final de tudo, é outro álbum incrível e que também merecia ser redescoberto.
Melhores Faixas: Samba Do Grande Amor, Pelas Tabelas, Vai Passar, Brejo da Cruz Vale a Pena Ouvir: Tantas Palavras, Mil Perdões, Mano A Mano
Então é isso, um abraço e flw!!!
























