domingo, 5 de julho de 2026

Analisando Discografias - Zé Ramalho: Parte 1

                   

Paêbirú – Lula Côrtes e Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


No ano de 1975, Lula Côrtes e Zé Ramalho lançavam um álbum colaborativo, o clássico Paêbirú. Os dois jovens músicos nordestinos ainda estavam no começo da carreira. Esse disco surgiu a partir do fascínio de ambos pelas lendas indígenas relacionadas ao Caminho do Peabiru, antiga rota pré-colombiana que cruzava parte da América do Sul, pelas inscrições rupestres da Pedra do Ingá e pelo misticismo envolvendo a figura de Sumé, estruturando o álbum de acordo com os quatro elementos fundamentais da natureza. A produção foi feita por Hélio Rozenblit e lançada pelo selo de sua família. O resultado é um som extremamente experimental, misturando Folk psicodélico, Baião, Jazz, Jongo e, principalmente, Udigrudi. A instrumentação é baseada em violões, guitarras elétricas, percussões nordestinas, berimbau e instrumentos pouco convencionais. O repertório é sensacional, e as canções são todas bem tematizadas. Enfim, é um baita disco e uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Nas Paredes Da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados Por Sumé, Não Existe Molhado Igual Ao Pranto, Trilha De Sumé, Sumé, Regato Da Montanha, Bailado Das Muscarias 
Vale a Pena Ouvir: Pedra Templo Animal, Raga Dos Raios, Culto À Terra

Zé Ramalho – Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


Três anos se passaram, e Zé Ramalho retornou lançando seu álbum de estreia autointitulado. Após o Paêbirú, com Lula Côrtes, que acabou tendo pouca vendagem, já que grande parte dos exemplares foi perdida numa enchente, o paraibano voltou a cursar Medicina, mas largou o curso em 1976, mudando-se para o RJ para conseguir, enfim, lançar seus trabalhos. Após muita luta, assinou com a CBS. A produção contou com Carlos Alberto Sion, que trouxe uma sonoridade extremamente sofisticada e cinematográfica. Aqui há uma junção do Udigrudi, Folk, Cantoria e MPB, com os violões de doze cordas convivendo com guitarras elétricas, sintetizadores, sanfona, flautas e baixos elaborados. Os vocais graves e roucos do Zé Ramalho funcionam muito bem dentro dessa proposta. O repertório é sensacional, parecendo uma coletânea, já que praticamente todas as canções são belíssimas. Enfim, é um disco fantástico e um dos melhores álbuns da música brasileira. 

Melhores Faixas: Avôhai, Chão De Giz, A Dança Das Borboletas, Voa, Voa 
Vale a Pena Ouvir: Vila do Sossego, A Noite Preta

A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu – Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


No ano seguinte, o Zé Ramalho lançou seu 2º álbum, o clássico A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. Após o seu álbum de estreia, que na época acabou sendo injustamente criticado pela crítica, o cantor não se abalou e decidiu fazer um disco que remete à tradição dos folhetos de cordel nordestinos, transformando o embate entre o Diabo e o Dono do Céu em uma metáfora para os conflitos entre o bem e o mal, a opressão e a liberdade, a fé e o poder. A produção foi relativamente a mesma, só que agora estava mais refinada e com estruturas mais definidas, facilitando sua assimilação sem sacrificar a riqueza musical. Ela junta ainda mais Folk e Cantoria com elementos da MPB, Baião, Forró e influências barrocas, com os vocais graves do Zé, que passaram a ter um controle maior das nuances. O repertório é maravilhoso, também parecendo uma coletânea, com canções bem tematizadas. No fim, é outro disco fantástico e um dos melhores de todos os tempos. 

Melhores Faixas: Admirável Gado Novo, A Peleja Do Diabo Com O Dono Do, Beira-Mar, Falas Do Povo 
Vale a Pena Ouvir: Jardim Das Acácias, Mote Das Amplidões

A Terceira Lâmina – Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


Indo para 1981, o Zé Ramalho lançava seu sensacional 3º álbum, A Terceira Lâmina. Após o A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, este novo disco amplia esse universo ao abordar questões existenciais, políticas e sociais de maneira ainda mais simbólica. O título, nas palavras do cantor, faz referência à sua terceira fase artística, ao seu terceiro filho e também à ideia de uma "terceira guerra", funcionando como metáfora para um momento decisivo da humanidade. A produção, feita pelo próprio cantor junto com Mauro Motta, foi bastante sofisticada, com um som pensado para tocar nas rádios, mas, claro, contendo os elementos do Folk e da Cantoria característicos da obra do Zé. A instrumentação continua extremamente rica. Violões de doze cordas convivem com guitarras elétricas, piano, percussões nordestinas e corais. O repertório é incrível, novamente contendo canções profundas. No geral, é outro álbum fenomenal e um clássico da música brasileira. 

Melhores Faixas: Canção Agalopada, A Terceira Lâmina, Cavalos Do Cão, Kamikaze, Galope Rasante 
Vale a Pena Ouvir: Filhos De Ícaro, Um Pequeno Xote, Atrás Do Balcão

Força Verde – Zé Ramalho





















NOTA: 9,8/10


Mais um ano se passou, e o Zé Ramalho lançou outro álbum, intitulado Força Verde. Após A Terceira Lâmina, esse novo disco marca uma mudança de foco em sua escrita. O tom apocalíptico e político continua presente, mas agora dividido com uma preocupação maior com a natureza, a preservação ambiental, a espiritualidade e a relação entre o homem e o planeta. Fora que o Zé tentou seguir um caminho mais moderno, dialogando com o rumo que a MPB tomou para conseguir tocar nas rádios. A produção foi ainda mais refinada, juntando muito mais elementos da MPB com o Folk contemporâneo, enquanto os arranjos se tornam mais atmosféricos, valorizando sintetizadores, cordas e texturas eletrônicas que ampliam o caráter contemplativo do álbum. Os vocais do Zé complementam esse trabalho com sua voz grave e carregada de sotaque nordestino. O repertório é ótimo, e as canções são belíssimas e carregadas de referências. Enfim, é outro disco incrível e bem coeso. 

Melhores Faixas: Visões De Zé Limeira Sobre O Final Do Século XX, Força Verde, Banquete De Signos, Pepitas de Fogo, Os Segredos De Sumé 
Vale a Pena Ouvir: O Monte Olímpia, Cristais Do Tempo

Orquídea Negra – Zé Ramalho





















NOTA: 8,7/10


Outro ano se passa, e o Zé Ramalho lança mais trabalho novo, a Orquídea Negra. Após o Força Verde, o cantor passou por algumas dificuldades, como uma acusação de plágio envolvendo o gibi do Incrível Hulk, além de seu casamento com Amelinha ter chegado ao fim. Assim, decidiu fazer um projeto que alterna entre composições introspectivas e outras bastante expansivas. A produção foi bem mais diversificada, contando com MPB, Folk, Baião, Xote e algumas influências do Rock. Os violões continuam presentes, mas agora dividem espaço com sintetizadores, guitarras elétricas, metais e arranjos orquestrais. A interpretação vocal do Zé continua transmitindo autoridade, mistério e emoção, adaptando-se muito bem a cada canção. Falando nisso, o repertório é muito bom, e as faixas são divertidas, enquanto outras são mais imersivas. Enfim, é um disco bacana e, assim como o antecessor, acabou não vendendo muito. 

Melhores Faixas: Taxi Lunar, Kryptônia, Xote Dos Poetas (participação do Fagner), Napalm
Vale a Pena Ouvir: Dominó, Orquídea Negra, Para Chegar Mais Perto De Deus

Por Aquelas Que Foram Bem Amadas Ou Pra Não Dizer Que Não Falei De Rock – Zé Ramalho





















NOTA: 8/10


Novamente se passou mais um ano, e o cantor lançou Por Aquelas Que Foram Bem Amadas ou pra Não Dizer Que Não Falei de Rock. Após a Orquídea Negra, o Zé Ramalho decidiu revisitar um repertório composto ainda no início da década de 70, quando atuava como guitarrista em bandas de baile. O próprio Zé Ramalho afirmou posteriormente que desejava registrar esse material porque fazia parte de sua formação musical. A produção foi mais direta, privilegiando guitarras elétricas, teclados, sintetizadores, bateria mais pesada e linhas de baixo bastante marcantes, aproximando diversas faixas do Rock clássico, além de apresentar pequenos traços da MPB. Aqui, os vocais do Zé conseguem ser bem variados, e há momentos em que ele adota uma abordagem mais urgente. O repertório é muito bom, e as canções são bem melódicas e envolventes. Enfim, é um disco bacana e bastante subestimado. 

Melhores Faixas: Made In PB, Dupla Fantasia 
Vale a Pena Ouvir: Dança Das Luzes, O Tolo Na Colina (The Fool On The Hill) (participação do Erasmo Carlos), Paisagem Da Flor Desesperada

De Gosto, De Água E De Amigos – Zé Ramalho





















NOTA: 8,5/10


Em 1985, o Zé Ramalho lançava mais um trabalho, intitulado De Gosto, de Água e de Amigos. Após o Por Aquelas Que Foram Bem Amadas ou pra Não Dizer Que Não Falei de Rock, o cantor decidiu fazer um disco que trata da amizade, da passagem do tempo, das origens, da identidade cultural e das relações humanas. O próprio título resume esse espírito: a água representa renovação, enquanto os amigos simbolizam acolhimento, memória e permanência. A produção, feita por Renato Corrêa e Mariozinho Rocha, seguiu uma abordagem mais limpa e moderna. Os arranjos continuam baseados no violão, instrumento inseparável do compositor, mas ganham forte presença de sintetizadores, guitarras elétricas, cordas, acordeão e uma seção rítmica bastante refinada, resultando em um álbum mais puxado para o Pop Rock e a MPB. O repertório é muito bom, e as canções são bem suaves e reflexivas. No geral, é um ótimo disco e merece ser redescoberto. 

Melhores Faixas: Mestiça, Chuva Pesada, Martelo Dos 30 Anos, Paralelas 
Vale a Pena Ouvir: Forrobodó, De Gosto, De Água E De Amigos

Opus Visionário – Zé Ramalho





















NOTA: 9/10


Se passou mais um ano, e o Zé Ramalho lançou um trabalho bem mais tradicional, o Opus Visionário. Após o De Gosto, de Água e de Amigos, o cantor optou por não repetir a fórmula mais acessível de seu álbum anterior. Em vez disso, voltou a privilegiar um repertório marcado pelo simbolismo, pela espiritualidade, pela ficção científica, pela filosofia e pelo surrealismo, retomando características que aproximavam sua produção de seus discos clássicos. A produção do Mauro Motta equilibrou instrumentos acústicos e arranjos tradicionais nordestinos. Aqui há um investimento muito maior em sintetizadores, programação eletrônica, efeitos digitais e texturas sonoras da música Pop daquele período. Os arranjos, feitos por Lincoln Olivetti e Robson Jorge, colocam essa sonoridade moderna em diálogo com os violões e as percussões nordestinas. O repertório é muito bom, e as canções são bem melódicas. No fim, é um ótimo álbum e bem consistente. 

Melhores Faixas: Quasar Do Sertão, Olhares Sem Destino, Pedras E Moças, Zyliana, Visionária 
Vale a Pena Ouvir: Um Índio, Tamarineira Village

Décimas De Um Cantador – Zé Ramalho





















NOTA: 8/10


E aí mais um ano se passou, e, de novo, o Zé Ramalho lançou mais um álbum, o Décimas de um Cantador. Após o Opus Visionário, o cantor volta a concentrar sua atenção nas raízes nordestinas, especialmente na tradição dos cantadores, repentistas e poetas populares, sem abandonar completamente as influências que havia adquirido nos trabalhos anteriores. A produção, feita mais uma vez por Mauro Motta, tem a presença de violões de doze cordas, guitarras elétricas, sintetizadores, programação eletrônica, baixos bastante elaborados e percussões discretas. Lincoln Olivetti permanece responsável por parte da programação eletrônica, enquanto Robson Jorge exerce papel fundamental nos teclados, guitarras e arranjos. Juntos, eles constroem uma sonoridade que dialoga muito mais com a MPB daquela época, com pequenas influências da música nordestina. O repertório é legalzinho, e as canções são bem interessantes. No geral, é um ótimo disco e foi mais ousado. 

Melhores Faixas: Medley: Pelos Telefones / Lay, Lady, Lay , Mulher Nova, Bonita E Carinhosa Faz O Homem Gemer Sem Sentir Dor 
Vale a Pena Ouvir: Mary Mar, Décimas De Um Cantador, Aldeias Da Borborema

Frevoador – Zé Ramalho





















NOTA: 8,5/10


Pulando para 1992, o Zé Ramalho lançou seu 10º álbum de estúdio, o Frevoador. Após o Décimas de um Cantador, o cantor lançou alguns trabalhos esporádicos e retornou nos anos 90 em um momento de profundas mudanças na indústria musical brasileira, já dominada pelo sertanejo romântico e pela música pop. Quando retornou, atualizou sua sonoridade sem abandonar completamente a identidade construída ao longo dos anos. A produção, feita pelo cantor junto com Luís Fernando Borges, privilegiou violões, guitarras limpas e teclados discretos, deixando o som mais orgânico. Ao mesmo tempo, permanecem presentes elementos nordestinos como a viola, o acordeão, o bandolim e ritmos derivados do Baião, do Frevo e do Xote. O repertório é ótimo, e as canções são bem divertidas e carregadas de reflexão. No final de tudo, é um ótimo disco e, dessa vez, o sucesso veio. 

Melhores Faixas: Entre A Serpente E A Estrela, Cidadão, A História Do Jeca Que Virou Elvis Presley 
Vale a Pena Ouvir: Porta Secreta, Do Terceiro Milênio Para Frente, Serpentária

Cidades & Lendas – Zé Ramalho





















NOTA: 6/10


Cinco anos depois, o Zé Ramalho lançou mais um trabalho, o Cidades & Lendas. Após o Frevoador, Zé foi chutado da gravadora CBS. Esse novo disco ficou temporariamente interrompido, e o próprio artista assumiu praticamente toda a coordenação do trabalho, cuidando da produção, da escolha dos músicos e da finalização das gravações até conseguir um novo contrato com a BMG. Vale lembrar que ele aproveitou o hype de sua canção Admirável Gado Novo, que estava fazendo parte da trilha sonora da novela Rei do Gado. A produção é bastante refinada, equilibrando instrumentos acústicos e elementos contemporâneos. O violão volta a ocupar posição central, acompanhado pela viola de doze cordas de Manassés, instrumento que confere forte identidade nordestina ao disco. Mas o problema é que tudo soa arrastado e parece faltar algo mais imersivo. O repertório é fraquinho: há canções boas e outras mais do mesmo. Em suma, é um trabalho mediano e muito monótono. 

Melhores Faixas: Cidades & Lendas, Os Últimos Dias, Não Existe Molhado Igual Ao Pranto
Piores Faixas: Leva Eu Sodade, Rap-Xote Esotérico, Profetas

                                                                                 É isso, um abraço e flw!!!                      

sábado, 4 de julho de 2026

Review: Um Corpo Preto do Rincon Sapiência

                     

Um Corpo Preto – Rincon Sapiência





















NOTA: 9,2/10


Recentemente, o Rincon Sapiência lançou seu tão aguardado 3º álbum, o Um Corpo Preto. Após o Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps, o rapper seguiu fazendo turnês e amadurecendo o conceito de um trabalho que fosse além da celebração da identidade negra, abordando também as diferentes dimensões da experiência de viver em um corpo negro no Brasil. A produção foi feita por ele próprio, que trouxe uma abordagem variada e direta, com beats bastante orgânicos, presença de percussões orgânicas, linhas de baixo marcantes, sintetizadores discretos e arranjos bastante rítmicos. Aqui, os flows do Rincon conseguem ser precisos, além de haver momentos de canto melódico, dialogando com Dancehall, Afrobeats, Funk, Jazz Rap e até um pouquinho de Samba. O repertório é incrível, e as canções são bem tematizadas e carregadas de mensagem. No geral, é uma obra incrível, bem estruturado e carregado de identidade. 

Melhores Faixas: Eu Vim de Baixo, Cuidar de Mim, Homem Gol (ótima feat do Péricles), Todo Nego, De Onde Cê Vem, Pt. 2, Cassino, Dum Dum, Alarme, Faz a Vibe 
Vale a Pena Ouvir: Diáspora, Porque Eu te Amo, Ke$h

                                                                                   Então é isso e flw!!!              

Review: Nomads do No Wyld

                     

Nomads – No Wyld





















NOTA: 6/10


No ano de 2016, o trio No Wyld lançava seu único álbum de estúdio, intitulado Nomads. Formado em 2010, em Auckland, na Nova Zelândia, pelo rapper Mohamed "Mo" Kheir, Brandon Black e o guitarrista Joseph Pascoe, o grupo já havia chamado atenção com alguns singles e EPs que demonstravam uma identidade bastante particular, baseada na combinação de instrumentação orgânica e uma abordagem cinematográfica, o que despertou o interesse da Columbia Records, que assinou com eles. A produção foi feita pelo próprio trio, que adotou uma abordagem acessível, com beats limpos e presença de sintetizadores que criam paisagens sonoras bastante amplas. As baterias misturam programação eletrônica com percussões orgânicas, e as guitarras são discretas, só que o resultado fica bem monótono, fazendo deste um álbum de Rap com Indie Pop arrastado. O repertório é mediano, com canções legais e outras genéricas. Enfim, é um disco irregular e, após isso, o grupo acabou. 

Melhores Faixas: Let Me Know, Tomorrow, Different 
Piores Faixas: Paranoid, Analogue, Air


Review: Snacks do Jax Jones

                     

Snacks – Jax Jones





















NOTA: 3/10


Em 2019, o Jax Jones lançou seu único álbum até então, o ambicioso Snacks (Supersize). O DJ britânico começou sua trajetória em 2010, produzindo beats e publicando-os no finado MySpace, até que, em 2014, passou a fazer House music. Naquele mesmo ano, participou da música I Got U, do Duke Dumont, além de várias outras faixas. Foi ali que começou a ficar conhecido, embora seu 1º sucesso solo tenha sido Yeah Yeah Yeah. Nesse meio-tempo, passou a preparar esse trabalho, que foi lançado pela Polydor. A produção segue uma abordagem polida e extremamente comercial, com sintetizadores brilhantes, grooves, linhas de baixo marcantes e pequenas melodias eletrônicas que mantêm a pista em movimento. Só que tudo é bem bagunçado, porque, uma hora, é Future House, depois, passa para Electropop ou Dancehall, ficando bastante desconexo. O repertório é ruinzinho: há canções boas, mas a maioria soa esquecível. No fim, é um trabalho péssimo e sem coesão. 

Melhores Faixas: You Don't Know Me, Instruction (Demi Lovato levou o som para ela), Breathe 
Piores Faixas: Jacques, All 4 U, Harder, 100 Times, Cruel


Review: EP do MC Kevinho

                     

MC Kevinho – MC Kevinho





















NOTA: 7/10


No comecinho de 2017, o MC Kevinho lançava um dos vários EPs que levavam seu nome. O funkeiro começou sua carreira em 2012, mas começou a ganhar relativo destaque dois anos depois, ainda adolescente, naquele mesmo período em que surgiam Kevin, Hariel, Pedrinho, Brinquedo, entre outros. No ano anterior, ele assinou com a KondZilla, e foi ali que lançou um certo single, que, na época do lançamento deste EP, havia sido lançado há pouco tempo e ainda não tinha virado hit. A produção segue a estética do Funk ostentação paulista da época, com beats utilizando bases eletrônicas simples e graves constantes. Já os vocais do Kevinho, mesmo imperfeitos, conseguem funcionar. O repertório contém 5 faixas, em sua maioria boas, embora algumas sejam genéricas. No fim, é um EP legalzinho e, após isso, Olha a Explosão virou hit. Além disso, ele emplacou vários outros sucessos e, nunca demonstrou interesse em lançar um álbum, contentando-se apenas com seus sucessos. 

Melhores Faixas: Ela veio se abrindo, Vai sentar 
Piores Faixas: Ficou contente, Trava no pau, Psicóloga

 

Review: MAGIC SHOW do Nagalli

                     

MAGIC SHOW – Nagalli





















NOTA: 8/10


No ano de 2024, o Nagalli lançou seu único álbum até então, intitulado MAGIC SHOW. A carreira do produtor começou por volta de 2016. Filho de um pai multi-instrumentista, ele aprendeu o básico de música com ele e, ainda na adolescência, começou a produzir beats. A partir daí, nunca mais parou, tornando-se um dos principais produtores do Trap nacional. Esse álbum traz a representação de um "mágico", figura que acompanha o artista desde trabalhos anteriores. A produção foi realizada em conjunto com Toledo, Bvga Beatz, Neckklace, entre outros, que construíram beats limpos, utilizando graves profundos, 808s secas, sintetizadores atmosféricos e uma enorme quantidade de pequenas texturas espalhadas pelas músicas, dialogando com Trap, Cloud Rap e Jersey Club de acordo com o estilo de cada rapper participante. O repertório é bem interessante, com canções divertidas. Enfim, é um álbum bacana que cumpre bem a proposta que apresenta. 

Melhores Faixas: CONFISSÕES PT2 (KayBlack e Veigh amassaram), BOUTIQUE (LEALL amassando também), SE ENVOLVE (Veigh bem de novo) 
Vale a Pena Ouvir: DO ZERO (Vino e TZ encaixaram bem), MAL INTENCIONADA (JÁ FOI, JÁ ERA) (até que foram bem esse time: Veigh, BG, Kyan e FK), CÂMERA LENTA (Luccas Carlos e Ryu, The Runner mandaram bem)


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Analisando Discografias - Baco Exu do Blues

                 

Esú – Baco Exu do Blues





















NOTA: 9,8/10


No ano de 2017, Baco Exu do Blues lança seu sensacional álbum de estreia, o Esú. O rapper baiano começou sua trajetória por volta de 2015, quando fazia parte do grupo Direto do Hospício. Só que a virada de chave aconteceu em 2016, quando lançou a diss Sulicídio com Diomedes Chinaski, na qual faziam críticas à cena do Rap, que estava concentrada apenas em SP e RJ. Isso foi importante para o que ficou conhecido como "ano lírico", tanto que foi o próprio Baco quem criou essa expressão em sua participação no Poetas no Topo 2. Esse trabalho seria bastante carregado de espiritualidade. Produção, feita por Nansy Silvvs, traz beats pesados, com percussões orgânicas, guitarras discretas, pianos melancólicos e graves constantes, incorporando bastante influência do Trap, o que faz com que Baco adote um flow mais agressivo e técnico. O repertório é sensacional, e as canções são bem reflexivas e cheias de mensagem. No fim, é um baita disco e um clássico. 

Melhores Faixas: Esú, En Tu Mira, Te Amo Disgraça, Senhor Do Bonfim, En Tu Mira 
Vale a Pena Ouvir: Imortais E Fatais, Capitães De Areia

Bluesman – Baco Exu do Blues





















NOTA: 10/10


No ano seguinte, Baco Exu do Blues lançou o atemporal e fantástico Bluesman. Após o Esú, que era profundamente influenciado pela literatura, pela filosofia e pelas religiões de matriz africana, esse novo álbum mostra um músico mais seguro de sua identidade artística e disposto a ampliar ainda mais seu alcance. O conceito do álbum parte da ideia de que tudo aquilo que nasceu da cultura negra e que inicialmente foi rejeitado pela sociedade dominante pode ser entendido como "blues". A produção foi feita por Deekapz, JLZ, Portugal no Beat, CESRV e até Tim Bernardes, que seguiram uma abordagem sofisticada e híbrida. Os beats são bem variados, com baixos orgânicos, 808s pesados, corais, sintetizadores discretos e guitarras limpas, dialogando com Trap, R&B alternativo e elementos de Soul. Os flows do Baco são cadenciados e agressivos. O repertório é simplesmente sensacional, parecendo uma coletânea. No fim, é um baita disco e uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Flamingos, Me Desculpa Jay Z, Girassóis De Van Gogh, Kanye West Da Bahia, Minotauro De Borges 
Vale a Pena Ouvir: Bluesman, Queima Minha Pele (ótima feat do Tim Bernardes)

Não Tem Bacanal na Quarentena – Baco Exu do Blues





















NOTA: 7/10


Dois anos se passaram, e o Baco lança o curioso EP Não Tem Bacanal na Quarentena. Após o Bluesman, ele se tornou um dos principais nomes da nova geração do Rap nacional. Incialmente, esse EP teria o titulo apenas de Bacanal Com a chegada da quarentena, Baco transformou a ideia em uma brincadeira irônica: se não havia possibilidade de festas, encontros ou excessos, então "não tem bacanal na quarentena". Produção feita por Dactes, Deekapz, JLZ, Nansy Silvvz e Pgiscoming, colocaram uma abordagem mais leve e acessível sendo gravado em três dias com os beats sendo mais amplos, hi-hats constantes, sintetizadores suaves e baterias secas dialogando assim com Trap, R&B e Rap acústico com isso o Baco alterna entre momentos de canto e flows melódicos. O repertório é legalzinho, tem canções divertidas e que foi feita para chocar. Enfim, é um EP bacana e que é muito injustiçado. 

Melhores Faixas: Humanos Não Matam Deuses, Amo Cardi B e Odeio Bozo, Jovem Preto Rico 
Vale a Pena Ouvir: O Sol Mais Quente, Tropa do Babu

QVVJFA? – Baco Exu do Blues





















NOTA: 6/10


Dois anos se passaram, e Baco Exu do Blues lançou seu 3º álbum, Quantas Vezes Você Já Foi Amado? (QVVJFA?). Após o EP Não Tem Bacanal na Quarentena, ele preparava um trabalho mais intimista, construído durante o período de isolamento social. O álbum nasceu de um momento em que Baco refletia não apenas sobre a carreira, mas principalmente sobre seus relacionamentos, suas inseguranças e a dificuldade de demonstrar afeto. Produzido por Dactes, JLZ, Marcelo de Lamare, Nansy Silvvz e Paz, que seguiram uma abordagem mais acessível e suave. Os beats são mais minimalistas, com pianos suaves, guitarras limpas, sintetizadores discretos, linhas de baixo orgânicas e baterias minimalistas. Com isso, Baco adota vocais mais intimistas e próximos, dialogando com R&B e Trap Soul. O repertório começa bem, mas depois decai, com canções genéricas e sem graça. No geral, é um trabalho mediano que beira o cansativo. 

Melhores Faixas: 20 Ligações, Lágrimas, Imortais e Fatais 2 
Piores Faixas: Inimigos, Samba in Paris (Glooria Grove não entregou nada), Sei Partir

FETICHE – Baco Exu Do Blues





















NOTA: 1/10


Em 2024, Baco Exu do Blues lança o infame EP FETICHE, e aqui as coisas ficam bem piores. Após o QVVJFA?, o rapper decidiu lançar um trabalho que investiga o prazer, os jogos de poder, a fantasia e a hipersexualização dos corpos negros. O projeto foi lançado acompanhado por um curta-metragem que apresenta uma narrativa em que fantasia e realidade se confundem, utilizando imagens de sadomasoquismo e desejo como metáforas para discutir projeções e fetiches. A produção, feita mais uma vez por Dactes, JLZ, Marcelo de Lamare e Marcos Maurício, aposta em instrumentais minimalistas inspirados no R&B contemporâneo, Trap Soul e Afrobeats. Com pianos discretos, guitarras limpas, sintetizadores atmosféricos e baterias econômicas, a sonoridade acaba soando bastante reciclada e voltada para viralizar no TikTok. O repertório é terrível, e as canções beiram a vergonha alheia. Enfim, é um EP péssimo que se tornou uma mancha podre na carreira do Baco. 

Melhores Faixas: (........................................) 
Piores Faixas: piscina vazia, você foi a melhor, fetiche

HASOS – Baco Exu Do Blues





















NOTA: 5/10


Então chegamos ao ano passado, quando Baco lançou seu 4º e, até então, último álbum, o HASOS. Após o EP FETICHE, esse trabalho é estruturado como uma longa sessão de terapia, utilizando interlúdios que simulam conversas entre paciente e terapeuta para conduzir a narrativa emocional do disco. O título faz referência à inscrição "H-AS OS", escondida por Caravaggio na pintura Davi com a Cabeça de Golias, uma abreviação em latim para Humilitas occidit superbiam ("a humildade mata o orgulho"). A produção contou com os mesmos nomes, que seguiram uma abordagem mais variada, com beats orgânicos, presença de pianos, contrabaixos orgânicos, guitarras discretas, sopros ocasionais e baterias secas. A sonoridade dialoga bastante com Neo-Soul e Jazz Rap, mas acaba ficando muito arrastada e com variações de ritmo imprecisas. O repertório é irregular, com canções boas e outras bem sem graça. Em suma, é um álbum mediano que, infelizmente, não funcionou. 

Melhores Faixas: Mar de Guerra, Gladiadores de Areia, Assassinos de Saudade, Caravaggio Com Colar de Gandhy 
Piores Faixas: Que Eu Sofra, Fugindo do Espelho, Um Pouco, Romance Latino (Teto decepcionou)
 

                                                                                    Então é só e flw!!!    

Analisando Discografias - Zé Ramalho: Parte 1

                    Paêbirú – Lula Côrtes e Zé Ramalho NOTA: 10/10 No ano de 1975, Lula Côrtes e Zé Ramalho lançavam um álbum colaborativo, ...