segunda-feira, 11 de maio de 2026

Analisando Discografias - Marcelo D2

                   

Eu Tiro É Onda – Marcelo D2





















NOTA: 9,4/10


Voltando para 1998, Marcelo D2 lançava seu 1º álbum solo intitulado Eu Tiro É Onda. Após o lançamento de Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára com o Planet Hemp, e depois da prisão dos integrantes da banda em Brasília sob acusação de apologia às drogas, o grupo entrou em um momento de desgaste institucional e comercial. Muitos shows foram cancelados, e a pressão em torno do Planet Hemp acabou impulsionando D2 a experimentar uma identidade artística própria. A produção, feita pelo rapper junto de Rodrigo Nut's e Zé Gonzales, é crua e sofisticada ao mesmo tempo. Há um equilíbrio muito forte entre o peso do Boom Bap e os muitos samples do Samba, Jazz, Funk setentista e MPB. Em vez de simplesmente encaixar um pandeiro sobre um beat tradicional do Rap, eles integraram os elementos brasileiros à estrutura rítmica do Hip-Hop. O repertório é incrível, e as canções são carregadas de profundidade e até leveza. Enfim, é um baita disco, e ainda nem era o ápice. 

Melhores Faixas: Sessão, 1967, Samba De Primeira, Eu Tive Um Sonho, Baseado Em Fatos Reais, O Império Contra Ataca 
Vale a Pena Ouvir: Eu Tiro É Onda, Batucada

À Procura Da Batida Perfeita – D2





















NOTA: 10/10


Foi apenas em 2003 que Marcelo D2 lançou seu clássico 2º álbum solo, À Procura da Batida Perfeita. Após o Eu Tiro É Onda ter introduzido a fusão entre Rap e Samba, aqui essa proposta finalmente alcança sua maturidade total. O início dos anos 2000 marcou um período em que a música brasileira passava por profundas transformações. O Rap nacional crescia rapidamente, mas ainda existia resistência por parte da grande mídia. Marcelo D2 conseguiu algo raro: transformar um disco de Rap em um fenômeno popular sem abandonar sua autenticidade artística. A produção, conduzida por David Corcos, Mario Caldato Jr. e pelo próprio rapper, criou um som encorpado, quente e orgânico. As batidas têm o peso típico do Boom Bap, mas também dão espaço para os instrumentos acústicos, os silêncios e as camadas percussivas. O repertório é sensacional, chegando a parecer uma coletânea, tamanha a quantidade de canções incríveis. No fim, é um belíssimo álbum e certamente uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Qual É?, A Procura Da Batida Perfeita, Profissão M.C., Vai Vendo 
Vale a Pena Ouvir: Batidas E Levadas, Lodeando, A Maldição Do Samba

Meu Samba É Assim – D2





















NOTA: 8,3/10


Três anos se passaram, e Marcelo D2 lançou mais um álbum, o Meu Samba É Assim. Após o clássico À Procura da Batida Perfeita, que havia estabelecido a fusão entre Samba e Rap como linguagem central de sua obra, este disco aprofunda ainda mais essa proposta e transforma o Samba em elemento dominante da narrativa musical. O álbum mostra um D2 mais seguro artisticamente, mais confortável com sua posição dentro da música brasileira e menos preocupado em provar legitimidade para a cena do Rap nacional. A produção, feita por Leandro Sapucahy e Nave Beatz, traz arranjos mais abertos, percussões que ocupam mais espaço e instrumentos acústicos com enorme protagonismo. O Samba não aparece apenas sampleado: ele se mistura diretamente à construção dos beats. O repertório é muito bom, e as canções conseguem ser divertidas e profundas ao mesmo tempo. No fim, é um ótimo disco, bastante variado. 

Melhores Faixas: É Preciso Lutar, Lapa (Aori e Marechal amassando), Pra Que Amor?, Dor De Verdade (participação do Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz) 
Vale a Pena Ouvir: Meu Samba É Assim, Gueto (Mr. Catra mandou bem), Nega

A Arte Do Barulho – Marcelo D2





















NOTA: 8,2/10


Dois anos depois, Marcelo D2 lançava seu 4º álbum, intitulado A Arte do Barulho. Após o Meu Samba É Assim, esse novo trabalho funciona quase como uma tentativa de expansão estética. O Samba continua presente, mas perde protagonismo em comparação aos discos anteriores. Em seu lugar, entram influências maiores do Rock, da música eletrônica, beats mais secos e até ecos da energia do Planet Hemp. A produção contou com Mário Caldato Jr. e DJ Nuts, indo para uma direção de beats secos, eletrônicos e fragmentados. O Samba ainda existe, mas muitas vezes aparece apenas como textura ou influência rítmica indireta. O disco mergulha muito mais em colagens urbanas, ruídos, linhas de baixo pesadas e programações eletrônicas, trazendo também traços de Jazz Rap e Dub, mesmo que em alguns momentos falte maior dinâmica. O repertório é legalzinho, com canções divertidas e algumas mais fracas. No geral, é um disco bom, mas que apresenta alguns erros. 

Melhores Faixas: Desabafo, A Arte Do Barulho, Pode Acreditar (Meu Laiá Laiá) (as duas com participação do Seu Jorge), Atividade Na Laje (nessa época, Stephan Peixoto já tava virando Sain), Vem Comigo Que Eu Te Levo Pro Céu 
Piores Faixas: Minha Missão, Ela Disse, Kush

Canta Bezerra Da Silva – Marcelo D2





















NOTA: 8/10


Entrando em 2010, Marcelo D2 lançava o álbum Canta Bezerra da Silva, que já é bem explicativo pelo próprio título. Após A Arte do Barulho, esse trabalho já vinha sendo pensado desde 2005, ano da morte de Bezerra da Silva, mas só ganhou forma definitiva alguns anos depois. Isso é importante porque o álbum não soa como uma homenagem oportunista ou imediata; existe uma sensação genuína de respeito histórico e continuidade cultural. A produção, feita por Leandro Sapucahy, aposta em instrumentos orgânicos, percussão tradicional, cavaquinho, violão de sete cordas, metais discretos e linhas rítmicas muito mais ligadas ao Samba e ao Partido Alto. O vocal de D2 se encaixa muito bem nesse contexto, proporcionando uma sonoridade extremamente quente e coletiva. Em muitos momentos, parece realmente uma roda de Samba acontecendo em um quintal carioca. O repertório é obviamente muito bom, e a interpretação é bem-feita. No geral, é um disco bacana e bastante honroso. 

Melhores Faixas: Malandragem Dá Um Tempo, Bicho Feroz 
Vale a Pena Ouvir: Meu Bom Juiz, A Semente, Saudação Às Favelas, Na Aba

Nada Pode Me Parar – Marcelo D2





















NOTA: 8,8/10


Em 2013, Marcelo D2 lançou seu 6º álbum de estúdio, intitulado Nada Pode Me Parar. Após o Canta Bezerra da Silva, o rapper parecia interessado em recuperar agressividade, velocidade e peso rítmico. Parte disso veio da reunião do Planet Hemp em turnês que aconteceram pouco antes do lançamento do disco. Inclusive, o álbum originalmente sairia em 2012, mas acabou sendo adiado por causa desses compromissos. A produção, feita mais uma vez por Mario Caldato Jr., aposta em beats mais secos, pesados e sintéticos do que nos trabalhos anteriores. Ainda existem samples brasileiros e referências à MPB, mas eles aparecem muito mais integrados dentro de estruturas modernas do Rap, passando pelo Boom Bap, Jazz Rap e até pelo Chipmunk Soul. O repertório é muito bom, e as canções são profundas, com temáticas envolventes. Enfim, é um disco bacana e muito consistente. 

Melhores Faixas: Você Diz Que O Amor Não Dói, Eu Já Sabia (Sain mandou bem), A Cara Do Povo, 4:20, Vou Por Aí, Eu Tenho O Poder 
Vale a Pena Ouvir: Na Veia, Fella (ótima feat do Akira Presidente), Danger Zone

Amar É Para Os Fortes – Marcelo D2





















NOTA: 8,5/10


Cinco anos se passaram, e Marcelo D2 retorna com mais um álbum novo, o Amar É Para Os Fortes. Após o Nada Pode Me Parar, o trabalho nasceu como uma experiência transmídia que unia música, cinema, narrativa visual e comentário social. O disco veio acompanhado de um média-metragem homônimo escrito, dirigido e produzido pelo próprio D2. O conceito central do álbum gira em torno do amor como forma de resistência em um ambiente marcado por violência, desigualdade, racismo estrutural e brutalidade urbana. Produção feita pelo rapper junto com Mario Caldato Jr., Nave Beatz e Sacha Rudy, que colocaram beats variados, aqui os instrumentos respiram muito mais. Há percussões afro-brasileiras, guitarras atmosféricas, linhas de baixo profundas e arranjos vocais muito ricos, fazendo uma fusão do Rap com Samba, Afoxé, MPB e até Baião. O repertório é bem legal, e as canções são imersivas. No fim, é um ótimo disco e carregado de musicalidade. 

Melhores Faixas: Febre Do Rato, Filho De Obá (Juntaram Danilo e Alice Caymmi com Rincon Sapiência, e ficou foda!), Resistência Cultural (participação do Gilberto Gil) 
Vale a Pena Ouvir: Alto Da Colina, AEPOF

Assim Tocam Os Meus Tambores – Marcelo D2





















NOTA: 9,6/10


No ano de 2020, Marcelo D2 lançou seu 8º álbum solo, o Assim Tocam os Meus Tambores. Após o Amar É para os Fortes, esse projeto foi idealizado no período inicial da pandemia de COVID-19. O isolamento, a instabilidade política, o aumento das tensões sociais e a sensação coletiva de insegurança influenciaram profundamente a atmosfera do disco, levando D2 a criar um trabalho mais intimista e musicalmente orgânico. Produzido pelo rapper junto de Barba Negra, DJ Nuts, Dr. Drumah, Kamau, Nave e Tropkillaz, o álbum segue uma abordagem orgânica e calorosa, com presença de percussões orgânicas, cavaquinho, violão, metais suaves, linhas de baixo quentes e arranjos coletivos extremamente vivos, mostrando bases do Rap consciente dentro do Jazz Rap, Drill, Afoxé e Batucada. O repertório é incrível, e as canções são carregadas de profundidade e metáforas. No geral, é um baita disco e um dos melhores de sua carreira. 

Melhores Faixas: 4ª As 20h, É Manhã (Vem) (Don L mandou bem), Pelo Que Eu Acredito (Sain e Djonga mandaram bem), Rompeu O Couro (ótima feat do BK’ e Baco), Pela Sombra (Jorge du Peixe mandando bronca), As Sementes 
Vale a Pena Ouvir: Magrela87, Mangueforte (participação do Russo Passapusso do BaianaSystem), Tambor, O Senhor Da Alegria (Criolo ficou só na poesia)

Iboru – Marcelo D2





















NOTA: 8,4/10


Depois de três anos, Marcelo D2 lançou seu álbum mais recente, intitulado Iboru. Após o Assim Tocam os Meus Tambores, o rapper decidiu fazer um trabalho completamente absorvido por uma estética centrada no samba de terreiro, na ancestralidade afro-brasileira e na ideia de continuidade cultural. O título do álbum vem do iorubá e pode ser traduzido como “que sejam ouvidas as nossas súplicas”. Essa escolha não é apenas simbólica; ela define toda a atmosfera espiritual do disco. A produção, feita por D2 junto de Barba Negra, Julio Fejuca, Kiko Dinucci, Mario Caldato Jr., Nave e Tropkillaz, segue a temática do Samba de terreiro. Ao mesmo tempo, incorpora técnicas modernas de mixagem, colagens sonoras, graves profundos e ambientações cinematográficas, mas sempre com forte presença de tambores, pandeiros e percussões afro-brasileiras. O repertório é ótimo, e as canções são variadas e cheias de espiritualidade. No fim, é um ótimo disco e bastante coeso. 

Melhores Faixas: Fuzuê (participação do Zeca Pagodinho e Xande de Pilares), O Samba Falará + Alto, Povo De Fé, Tempo De Opinião, Só Quando Meu Samba Morrer 
Vale a Pena Ouvir: Pra Curar A Dor Do Mundo, Fonte Que Eu Bebo, Abrindo Os Caminhos

Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete – Marcelo D2





















NOTA: 7/10


No final de 2024, Marcelo D2 iniciou sua quadrilogia de EPs com Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete. Após o Iboru, o objetivo desses EPs passou a ser misturar regravações de clássicos do Samba com releituras de músicas importantes da própria trajetória de D2. O volume 1 funciona como uma homenagem direta à sua mãe, Paulete Maldonado, falecida em 2021. Isso dá ao trabalho um caráter profundamente íntimo e emocional desde o princípio. A produção, conduzida por Julio Fejuca, Nave e Os Fita, trabalha elementos fundamentais do Samba, como cavaquinho, tantã, repique, pandeiro, cuíca e dinâmica coletiva, enquanto incorpora discretamente técnicas modernas de produção, graves contemporâneos e referências ao Funk, Rap e Kizomba. O repertório contém 7 faixas bastante descontraídas. No fim, é um ótimo EP e bastante emocional. 

Melhores Faixas: Castelo De Um Quarto Só, Desabafo 
Vale a Pena Ouvir: Obrigado Samba, Maneiras

Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 2: Tia Darci – Marcelo D2





















NOTA: 7/10


Já no comecinho de 2025, Marcelo D2 lançou rapidamente Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 2: Tia Darci. Após o volume 1, essa continuação amplia ainda mais o conceito do “Novo Samba Tradicional”, mas agora direcionando o foco para o papel das matriarcas, das rodas suburbanas e da transmissão oral dentro da cultura do gênero. O título homenageia Tia Darci do Jongo, figura histórica da cultura popular carioca e símbolo da preservação das tradições afro-brasileiras ligadas ao Samba, ao jongo e às rodas comunitárias. A produção, feita por Julio Fejuca, Márcio Alexandre, Nave e Os Fita, faz o som parecer construído diretamente dentro de uma roda de Samba comunitária e aberta. Os tambores e as percussões ocupam um papel absolutamente central. Tantã, repique, pandeiro, agogô e atabaques aparecem constantemente. O repertório é ótimo, e as canções ficaram cheias de envolvência. Enfim, é um EP legal e mais contemplativo. 

Melhores Faixas: Meu Nome É Favela, Nascente Da Paz (participação do Grupo Fundo De Quintal) 
Vale a Pena Ouvir: Delegado Chico Palha, A Maldição Do Samba

Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 3: Luiza – Marcelo D2





















NOTA: 7/10


Depois de dois meses, foi lançado Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 3: Luiza. Após o volume 2, este trabalho desloca o foco para a relação afetiva entre Marcelo D2 e Luiza Machado, transformando o vínculo do casal no eixo criativo do disco. Se os trabalhos anteriores falavam bastante sobre ancestralidade coletiva, tradição do Samba e memória suburbana, aqui o centro emocional é a convivência doméstica, o amor maduro e a parceria artística construída ao longo dos anos entre os dois. Produzido por Mario Caldato Jr. e Nave, o EP mantém os tambores como elemento fundamental, mas agora eles dividem espaço com harmonias suaves, arranjos melódicos sofisticados e texturas muito mais atmosféricas. O cavaquinho, os violões e os corais criam uma sensação constante de proximidade emocional. O repertório, como de costume, conta com 7 faixas, e todas elas são carregadas de leveza. No final de tudo, é um EP delicado e bastante sensível. 

Melhores Faixas: Lucidez, 1967 
Vale a Pena Ouvir: Nas Águas De Amaralina, Filhos De Jorge

                                                                                    É isso, então flw!!!           

Analisando Discografias - Planet Hemp: Parte 2

                  

A Invasão Do Sagaz Homem Fumaça – Planet Hemp





















NOTA: 10/10


Em 2000, o Planet Hemp lançou outro álbum fenomenal: A Invasão do Sagaz Homem Fumaça. Após Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára, a banda já havia se consolidado como uma das mais polêmicas e influentes da música brasileira. Ao mesmo tempo, as tensões internas começavam a crescer, a perseguição policial continuava intensa e o grupo carregava o peso de ter se tornado um símbolo de resistência cultural e política. BNegão retornou para a banda e foi bastante importante para este disco. A produção, feita novamente por Mário Caldato Jr., é bastante detalhada e atmosférica; tudo parece mais encorpado: os graves são profundos, os grooves mais lentos e hipnóticos, os samples aparecem mais integrados e os arranjos possuem muito mais espaço. Com isso, o álbum apresenta uma junção do Rap Rock, Hardcore Punk, Dub e Funk Rock. Sobre o repertório, nem preciso dizer: parece uma coletânea de clássicos. No fim, é um baita álbum e um dos melhores da música brasileira. 

Melhores Faixas: Contexto, Ex-Quadrilha Da Fumaça, Raprockandrollpsicodellahardcoregga, O Sagaz Homem Fumaça, 12 Com Dezoito, É Isso Que Eu Tenho No Sangue... 
Vale a Pena Ouvir: HC3, STAB, Quem Tem Seda?

Jardineiros – Planet Hemp





















NOTA: 9,2/10


22 anos depois, Planet Hemp voltou com seu 4º e último álbum de estúdio, o Jardineiros. Após o sensacional A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, a banda acabou e cada integrante seguiu seu caminho, até que realizaram algumas turnês de retorno e se reuniram definitivamente em 2018. A partir disso, decidiram fazer um álbum que dialogasse diretamente com o Brasil contemporâneo. O discurso continua combativo, mas agora acompanhado de maturidade, desencanto e até certa melancolia. A produção, feita pela banda junto de Nave Beatz e Mario Caldato Jr., consegue unir o peso caótico dos discos antigos com uma sofisticação sonora muito maior. Há um enorme cuidado com texturas e ambientação, trazendo guitarras pesadas, uma cozinha rítmica orgânica e samples que ajudam nessa atmosfera cinematográfica. O repertório é incrível, e as canções são bastante pesadas e cheias de urgência. Enfim, é um belo disco de despedida e bastante consciente. 

Melhores Faixas: Ainda, O Ritmo E A Raiva (Black Alien amassando), Distopia (ótima feat do Criolo), Taca Fogo, Onda Forte 
Vale a Pena Ouvir: Jardineiro, Amnésia, Veias Abertas

 

domingo, 10 de maio de 2026

Review: VIRADA DE CHAVE do OGermano

                     

VIRADA DE CHAVE – OGermano





















NOTA: 9,2/10


Recentemente, OGermano lançou seu 2º álbum de estúdio, o VIRADA DE CHAVE. Após Caça e Recompensa, com Matchola, esse trabalho traz uma espécie de contexto: uma conversa íntima entre filho e pai, funcionando meio como uma mudança espiritual e artística. OGermano tenta mostrar ao pai, à família e a si próprio que encontrou um caminho na música sem abandonar suas raízes. Com isso, temos uma junção do Samba que o rapper ouviu na infância com o Rap que o marcou. A produção, feita por ele junto com gabrieldvarte e $amuka, traz beats que frequentemente utilizam percussões secas, linhas de baixo quentes, samples de clássicos da música brasileira, texturas jazzísticas e baterias comuns no Boom Bap, mas bastante suaves. Já os flows do OGermano ficaram bem mais cadenciados e precisos. O repertório é incrível, e as canções vão de um lado mais profundo até momentos mais suaves. No fim, é um belo álbum, que mostrou uma evolução artística. 

Melhores Faixas: MINHA NEGA DANÇA, LEGIÃO URBANA, MAR, VIRADA DE CHAVE (ótima feat do LEALL) 
Vale a Pena Ouvir: VAGABUNDO DELA, QUARTAS DE CINZA, O QUE VOCÊ ME FAZ

                                                                         Então é isso, um abraço e flw!!!          

Analisando Discografias - Planet Hemp: Parte 1

                  

Usuário – Planet Hemp´





















NOTA: 10/10


No ano de 1995, o Planet Hemp lançava seu álbum de estreia, o sensacional Usuário. Formado em 1993, lá no nosso querido RJ, por Marcelo D2 e Skunk, que decidiram montar uma banda, mas, como não tocavam instrumentos, acabaram seguindo inicialmente pelo Rap. Depois aconteceram as entradas do Rafael Crespo (guitarra), Formigão (baixo) e Bacalhau (bateria). Entretanto, Skunk acabou falecendo vítima da AIDS, o que quase decretou o fim da banda. Mas BNegão, que já era presença constante nos shows, assumiu os vocais ao lado de D2 e, após isso, o grupo assinou com a Sony Music. A produção, feita pela própria banda junto com Fábio Henriques, possui uma sonoridade extremamente crua e urbana, misturando Rap Rock, Funk e Hardcore Punk. Isso se reflete nas guitarras tensas e numa cozinha rítmica bastante sustentável. O repertório é sensacional, e as canções são todas carregadas de crítica social. No fim, é um baita disco de estreia e um clássico. 

Melhores Faixas: Mantenha O Respeito, Legalize Já, Dig Dig Dig (Hempa), Futuro Do País, Bala Perdida, Não Compre, Plante!, Futuro Do País 
Vale a Pena Ouvir: Skunk, P... Disfarçada, Porcos Fardados, Muthafuckin' Racists

Os Cães Ladram Mas A Caravana Não Pára – Planet Hemp





















NOTA: 8,7/10


Dois anos se passaram, e Planet Hemp retornava com seu 2º álbum, Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára. Após o Usuário, o grupo passou a ser perseguido pela mídia e pelas autoridades. Em muitos shows, a presença policial já fazia parte do ritual do Planet Hemp. Fora isso, BNegão acabou saindo da banda para se dedicar a projetos paralelos e, em seu lugar, entrou um velho conhecido: Black Alien, que trazia seu flow técnico e diretamente influenciado pelo rap americano. Produzido por Mario Caldato Jr., o disco apresenta uma sonoridade mais ampla, encorpada e tecnicamente sofisticada, sem retirar sua agressividade, além de incorporar elementos do Samba e Reggae. As guitarras de Rafael Crespo agora aparecem de forma mais variada. Já a cozinha rítmica ganha forte presença de grooves quebrados e funkeados. O repertório é muito bom, trazendo canções agressivas, mesmo com algumas exceções. No fim, é um disco bacana, mas o mais fraco deles. 

Melhores Faixas: Queimando Tudo, O Bicho Tá Pegando, Nega Do Cabelo Duro, Zerovinteum, Seus Amigos, Adoled (The Ocean) (cover da música do Led Zeppelin), Paga Pau, Mão Na Cabeça 
Piores Faixas: Hemp Family, Bossa


Analisando Discografias - Los Rakas

                 

Panabay Twist – Los Rakas





















NOTA: 3/10


Indo lá para 2006, o grupo Los Rakas lançava seu 1º trabalho no formato da mixtape, o Panabay Twist. Formado naquele ano através do programa comunitário BUMP (Bay Unity Music Project), em Oakland, por Raka Rich e Raka Dun, descendentes do Panamá que passaram a vida na Bay Area, eles tinham uma proposta que chamavam de som “Pana-Bay”: uma fusão do Rap com Reggaetón e Dancehall, alternando inglês e espanhol com naturalidade. A produção, feita por eles mesmos, foi realizada de forma caseira, com beats diretos, muitas vezes minimalistas, e forte presença de ritmos caribenhos mesclados a bases clássicas do Rap da costa oeste. O maior problema é que a mixagem às vezes soa bem malfeita, além de os flows da dupla parecerem bastante imprecisos e sem muita variação. O repertório é ruim, com canções interessantes e outras bem medíocres. Enfim, é uma mixtape fraca, que mostrava que eles ainda precisavam se aperfeiçoar. 

Melhores Faixas: Bounce, Tell Me So(dimelo), Feel You 
Piores Faixas: Para Mi, Mi Barrio, Propaganda Remix, No Problema

P.B.T. 2: La Tanda Del Bus – Los Rakas





















NOTA: 8/10


Três anos se passaram, e Los Rakas retornaram lançando sua 2ª mixtape, o P.B.T. 2: La Tanda Del Bus. Após o Panabay Twist, eles começaram a aperfeiçoar sua estética dentro da cena e passaram a estruturar sua proposta com mais consciência artística. O conceito central dessa tape gira em torno do “Diablo Rojo”, os famosos ônibus coloridos do Panamá, conhecidos por seus sistemas de som potentes e identidade visual vibrante. A produção contou com Iamani, Freddy Stylez, Matt Price, N.O.T.T.Y, Traxamillion e Rob E, que criaram beats mais polidos e diversificados: há bases minimalistas do Rap, riddims clássicos do Dancehall, grooves latinos e até incursões em sonoridades mais eletrônicas. Os vocais também evoluem. A entrega do Rich e Dun está mais confiante, com flows mais definidos e melhor controle de cadência. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas e chegam a ser imersivas. Enfim, é um trabalho bacana e que mostrou uma evolução. 

Melhores Faixas: Lo Mucho Que Te Quiero, Kalle 
Vale a Pena Ouvir: Parkiando, Sociedad, Hierba, Novato

Chancletas y Camisetas Bordada – Los Rakas





















NOTA: 7/10


Indo para 2011, Los Rakas lançava o EP intitulado Chancletas y Camisetas Bordadas, um trabalho bastante tematizado. Após o P.B.T. 2: La Tanda Del Bus, este projeto gira em torno da identidade “Raka”, profundamente ligada às raízes panamenhas e à vivência da Bay Area. O próprio título remete a elementos culturais específicos: as “chancletas” (sandálias) e as “camisetas bordadas”, peças associadas às classes populares do Panamá e à estética de bairro. A produção contou com Chief Boima, Hawk Beatz, Iamani, The Beat Man e Ned & Grizz, que apostaram em uma abordagem mais sofisticada, com influências do Rap e elementos latinos. A base musical continua enraizada em ritmos afro-caribenhos, como Reggae e Dancehall, mas agora combinada com beats eletrônicos e estruturas mais limpas. O repertório é legalzinho, e as canções ficaram bem mais profundas e com um toque envolvente. No geral, é um EP interessante e muito coeso. 

Melhores Faixas: Camisetas Borda, Panty Wanty 
Vale a Pena Ouvir: Borracho, Panty Wanty

Raka Love – Los Rakas





















NOTA: 7/10


No ano seguinte, foi lançado outro EP deles, o Raka Love, composto por love songs. Após o Chancletas y Camisetas Bordadas, o Los Rakas decidiu seguir por um caminho mais romantizado, o que não significa um abandono da identidade cultural, mas sim uma reinterpretação dela. O amor apresentado nesse EP não é idealizado de forma pop tradicional; ele passa pelo filtro da vivência afro-latina, da rua e da diáspora Panamá–Oakland. A produção foi diversificada, contando com Beats by Italy, Grizz Lee, PanaPola, Party Animal, Raka Stylo e Sirealz, que adicionaram texturas mais limpas, com forte influência de R&B e Pop latino. Os beats são mais leves e espaçados, priorizando ambiência e groove em vez de impacto bruto. Sintetizadores suaves, linhas de baixo menos agressivas e batidas mid-tempo criam um clima constante de relaxamento e sensualidade. O repertório é legalzinho, e as canções são bem sentimentais. Enfim, é um EP muito bom e consistente. 

Melhores Faixas: De Alante Alante, Enamorado De Ti 
Vale a Pena Ouvir: Dicelo Ya, Magia

El Negrito Dun Dun & Ricardo – Los Rakas





















NOTA: 8,2/10


E aí chegou 2014, ano em que foi enfim lançado o álbum de estreia do Los Rakas, o El Negrito Dun Dun & Ricardo. Após o EP Raka Love, o grupo acabou assinando com a Universal Records, e esse trabalho é ambicioso e claramente inspirado em Speakerboxxx/The Love Below, do Outkast: o álbum é dividido em duas metades, sendo a primeira mais autobiográfica e ligada às raízes panamenhas e à experiência imigrante, enquanto a segunda incorpora uma identidade mais urbana e cosmopolita da Bay Area. Produzido pela própria dupla junto com Yeti Beats, o disco trabalha com uma paleta sonora ampla, que vai do Reggaetón clássico ao EDM, passando por Rap, Dancehall, Soul e House dos anos 90. A maior diferença certamente está na parte do Raka Rich, que apresenta forte presença de sintetizadores, grooves de R&B e influências eletrônicas. O repertório é muito legal, e as canções são bem profundas e até mais envolventes. No fim, é um ótimo disco de estreia e bem sólido. 

Melhores Faixas: Sueno Americano, Hot, Siente La Musica 
Vale a Pena Ouvir: Chica De Mi Corazon (Josefina), Demencia Y Locura, Malibu Girl

Raka Love 2 – Los Rakas





















NOTA: 2/10


Três anos se passaram, e eles lançaram outro EP dessa vez, o Raka Love 2, em um momento de adaptações. Após o El Negrito Dun Dun & Ricardo, eles tinham ganhando um moderado reconhecimento no cenário underground do Rap latino. E esse trabalho funciona como uma espécie de retorno consciente a um formato mais íntimo e emocional, agora com maior maturidade artística. Produção feita inteiramente por Mars Today, aposta em um som mais limpo, atmosférico e alinhado ao R&B contemporâneo e ao Reggaetón melódico. Os beats são mais minimalistas e sofisticados, com uso frequente de sintetizadores suaves, batidas mid-tempo e texturas ambientais. Raka Rich e Raka Dun utilizam menos flow agressivo e mais linhas melódicas, harmonizações e refrões cantados, mas tudo soa repetitivo e bastante sem graça. O repertório é ruim, tem canções legais e outras bem mais do mesmo. No fim, é um trabalho fraco e sendo uma continuação desnecessária. 

Melhores Faixas: One More Time, Culpa 
Piores Faixas: Have It All, Me Enamoro, Lluvia

Manes De Negocio – Los Rakas





















NOTA: 3,2/10


Então chegamos a 2019, quando foi lançado o 2º e último álbum até então do Los Rakas, o Manes De Negocio. Após o Raka Love 2, esse novo trabalho surge em um cenário já dominado pelo crescimento do Trap latino. Em vez de simplesmente seguir a tendência, o projeto se posiciona como uma adaptação do som “Raka” a esse novo contexto, além de ter sido lançado de forma independente, já que a dupla havia saído da Universal. A produção, conduzida por Adrian L. Miller, tentou combinar o peso do Trap latino com elementos clássicos da sonoridade do duo, como Reggaetón e influências tropicais. A base do disco está ancorada no Trap: hi-hats rápidos, 808s graves e atmosferas mais sombrias. Porém, tudo acaba ficando bem maçante e funcionando como uma combinação de clichês padrões do gênero. O repertório é ruim, com canções chatíssimas e poucas realmente interessantes. No fim, é um disco péssimo e bem esquecível. 

Melhores Faixas: Secreto, Otra Vez, Our Love, Vamanos 
Piores Faixas: Loco, Yo También, Devorame, Yo También, Natural

 

Analisando Discografias - Marcelo D2

                    Eu Tiro É Onda – Marcelo D2 NOTA: 9,4/10 Voltando para 1998, Marcelo D2 lançava seu 1º álbum solo intitulado Eu Tiro É O...