quarta-feira, 13 de maio de 2026

Analisando Discografias - The Last Shadow Puppets

                  

The Age Of The Understatement – The Last Shadow Puppets





















NOTA: 9/10


Voltando para o ano de 2008, foi lançado o álbum de estreia do The Last Shadow Puppets, o The Age of the Understatement. Esse projeto foi formado em 2007 por Alex Turner e Miles Kane após o The Rascals abrir shows para os Arctic Monkeys. A química criativa ficou evidente rapidamente, principalmente pelo interesse mútuo em composições mais cinematográficas e influenciadas pelo Pop orquestral dos anos 60. A produção, feita por James Ford, trouxe um som bastante cinematográfico, com os arranjos orquestrais feitos por Owen Pallett, que criam uma sensação constante de grandiosidade dramática. Existe uma estética de espionagem, Western europeu e romance decadente atravessando o álbum inteiro. As cordas frequentemente entram de forma agressiva, dramática e expansiva, junto daquela instrumentação típica do Indie Rock cruzando com Chamber Pop. O repertório é muito bom, e as canções são bem profundas e sentimentais. No fim, é um belo disco e bastante imersivo. 

Melhores Faixas: My Mistakes Were Made For You, Standing Next To Me, Separate And Ever Deadly, The Meeting Place, Calm Like You, Black Plant 
Vale a Pena Ouvir: I Don't Like You Anymore, Only The Truth

Everything You've Come To Expect – The Last Shadow Puppets





















NOTA: 8/10


No ano de 2016, foi lançado o 2º e possivelmente último álbum do The Last Shadow Puppets, o Everything You've Come to Expect. Após o The Age of the Understatement, Alex Turner se consolidou ainda mais com os Arctic Monkeys, principalmente na fase AM, na qual se tornou uma figura mais confiante. Enquanto isso, Miles Kane desenvolveu uma carreira solo marcada por forte influência Mod, Glam e Britpop. Para esse álbum, decidiram seguir por um lado mais caloroso, com sensualidade decadente e um certo glamour californiano melancólico. A produção, feita como sempre por James Ford, aposta em uma abordagem luxuosa, com o baixo ganhando protagonismo em várias faixas, as guitarras utilizando bastante reverb e efeitos suaves, e a bateria frequentemente mantendo ritmos lentos e hipnóticos, juntando Indie Rock, Chamber Pop e Pop psicodélico. O repertório é muito bom, e as canções são bem variadas. No fim, é um disco bacana, apesar da pouca inovação. 

Melhores Faixas: Miracle Aligner, Sweet Dreams, TN, Used To Be My Girl 
Vale a Pena Ouvir: Aviation, The Dream Synopsis, Bad Habits

                                                                                   Então é isso e flw!!!             

Analisando Discografias - Miles Kane

                 

Colour Of The Trap – Miles Kane





















NOTA: 9/10


Em 2011, Miles Kane lançava seu 1º trabalho solo, intitulado Colour of the Trap. O cantor, nascido em Birkenhead, em Merseyside, na Inglaterra, começou sua trajetória por volta de 2004, quando participou de algumas bandas locais, sendo a de maior destaque o The Rascals, que não durou muito tempo, mas foi importante para Alex Turner conhecê-lo e, assim, formar o The Last Shadow Puppets. Com isso, ele decidiu preparar um projeto que mergulhasse ainda mais fundo em referências vintage do que em seus trabalhos com Turner. A produção, feita por Dan Carey, Dan the Automator, Craig Silvey e Gruff Rhys, aposta em uma estética extremamente analógica, valorizando timbres quentes, guitarras vintage, reverbs clássicos e uma instrumentação que remete diretamente aos anos 60 e 70, juntando, assim, Mod, Rock de garagem e Chamber Pop. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas. Enfim, é um ótimo disco de estreia e bem coeso. 

Melhores Faixas: Come Closer, Rearrange, Colour Of The Trap, Inhaler 
Vale a Pena Ouvir: Counting Down The Days, Better Left Invisible, Kingcrawler

Don't Forget Who You Are – Miles Kane





















NOTA: 8/10


Dois anos se passaram, e foi lançado o 2º álbum dele, o Don't Forget Who You Are. Após o Colour of the Trap, esse novo trabalho do Miles Kane transmite a sensação de alguém que já encontrou sua estética e agora quer ampliá-la. O álbum é mais confiante, mais barulhento e mais voltado para refrões gigantescos. Se o primeiro trabalho equilibrava Indie e romantismo sessentista, aqui Kane mergulha com mais intensidade no Britpop e no Rock clássico britânico dos anos 70. A produção, feita inteiramente por Ian Broudie, trouxe uma abordagem mais expansiva, ainda seguindo a temática do Mod Revival, com guitarras bem dominantes e riffs amplos, uma seção rítmica que consegue ser elegante e, claro, o vocal do Miles, que ainda faz lembrar Liam Gallagher, só que agora de forma mais emocional. O repertório é legalzinho, e as canções vão de um lado energético a um mais melódico. No fim, é um disco bacana e mais ousado. 

Melhores Faixas: Don't Forget Who You Are, Fire In My Heart 
Vale a Pena Ouvir: Give Up, Tonight, Taking Over

Coup De Grace – Miles Kane





















NOTA: 6/10


Cinco anos se passaram, e ele voltou com mais um álbum novo, o Coup de Grace. Após o Don't Forget Who You Are, Miles Kane parecia cansado de repetir exatamente a fórmula Britpop e Mod dos dois primeiros discos solo. Então, ele quis se renovar, decidindo preservar seu amor pelo Rock britânico clássico, mas agora misturando isso com Post-Punk, Rock garageiro contemporâneo e até elementos mais dançantes. Fora isso, ele saiu da Columbia Records e entrou na Virgin EMI Records. A produção, feita por John Congleton, trouxe uma abordagem mais expansiva, com as guitarras extremamente importantes, mas agora aparecendo de maneira mais nervosa, distorcida e fragmentada. A cozinha rítmica é mais explosiva, além da presença de sintetizadores que colocam certa tensão, mas tudo soa bastante arrastado e repetitivo. O repertório é irregular: tem canções boas e outras fraquíssimas. No geral, é um álbum mediano, e faltou maior direcionamento. 

Melhores Faixas: Killing The Joke, Loaded, Wrong Side Of Life 
Piores Faixas: Coup De Grace, Too Little Too Late, Cry On Me Guitar

Change The Show – Miles Kane





















NOTA: 8,3/10


Em 2022, foi lançado mais um trabalho de Miles Kane, o Change the Show, que seguiu uma proposta mais retrô. Após o Coup de Grace, o cantor acabou saindo da Virgin EMI Records e foi para a BMG, decidindo construir algo mais caloroso, dançante e positivo. Se os trabalhos anteriores frequentemente mergulhavam em guitarras agressivas e no glamour do Rock clássico, agora ele aposta muito mais em Pop Soul, grooves suaves, Indie dançante e arranjos vintage extremamente polidos. A produção, conduzida por Oscar Robertson e David Bardon, segue uma sonoridade extremamente calorosa. Os arranjos são fortemente influenciados pelo Northern Soul e pelo Pop britânico vintage. As guitarras agora aparecem de maneira mais elegante. Em vez de riffs explosivos, muitas músicas priorizam grooves, linhas de baixo dançantes e uma instrumentação sofisticada. O repertório é muito legal, e as canções são bastante aconchegantes. No fim, é um ótimo disco e bem tematizado. 

Melhores Faixas: Tell Me What You're Feeling, See Ya When I See Ya, Adios Ta-Ra Ta-Ra
Vale a Pena Ouvir: Don't Let It Get You Down, Change The Show

One Man Band – Miles Kane





















NOTA: 5/10


No ano seguinte, foi lançado mais um álbum novo dele, o One Man Band, que voltou para abordagem de antes. Após o Change the Show, Miles Kane passou a lançar seus trabalhos de forma independente, além de refletir sobre envelhecimento artístico e sobre a dificuldade de equilibrar vida pessoal e persona pública. Apesar disso, o álbum evita mergulhar em uma melancolia pesada. Em vez disso, transforma esses temas em músicas vibrantes, cheias de groove e melodias acessíveis. Produzido por James Skelly, o disco adiciona guitarras mais presentes, refrões mais expansivos e uma atmosfera emocional um pouco mais intensa. Os arranjos continuam extremamente influenciados pelo Pop britânico setentista, Mod Revival e, claro, Indie Rock e Britpop, mas o maior problema é que muitos dos grooves soam comprimidos e parecem faltar mais detalhes. O repertório começa até bem, mas depois dá uma caída forte, com canções mais chatinhas. Enfim, é um álbum irregular e soa genérico. 

Melhores Faixas: Troubled Son, The Wonder, Ransom 
Piores Faixas: Baggio, Heartbreaks The New Sensation, Never Taking Me Alive

Sunlight In The Shadows – Miles Kane





















NOTA: 8/10


Então chegamos ao ano de 2025, quando foi lançado seu 6º e último álbum até o momento, o Sunlight in the Shadows. Após o One Man Band, Miles Kane planejava voltar a trabalhar com seus primos James Skelly e Ian Skelly, mas acabou aceitando o convite de Dan Auerbach para gravar em Nashville, no estúdio Easy Eye Sound. Decidindo mergulhar profundamente em uma estética de Rock setentista cheio de poeira, psicodelia leve, guitarras saturadas e grooves analógicos. A produção, feita por Dan Auerbach, é bastante orgânica e sofisticada, com guitarras constantemente saturadas, cheias de tremolo, fuzz e reverbs naturais. A bateria tem uma textura bem seca, o baixo é profundo, e os teclados são mais discretos, deixando o vocal intimista do Miles no centro, transitando entre Mod, Blue-Eyed Soul e Rock de garagem. O repertório é muito legal, e as canções são bem envolventes. No fim, é um disco interessante e mais variado. 

Melhores Faixas: Coming Down The Road, I Pray 
Vale a Pena Ouvir: Blue Skies, Electric Flower, Sing A Song To Love

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Analisando Discografias - Black Alien

                  

Babylon By Gus - Volume 1 - O Ano Do Macaco – Black Alien





















NOTA: 10/10


Voltando ao ano de 2004, o Black Alien lançava seu 1º trabalho solo, o Babylon By Gus - Volume 1 - O Ano Do Macaco. Após o fim do Planet Hemp, o rapper de São Gonçalo já era reconhecido como um dos MCs tecnicamente mais impressionantes do país, dono de um vocabulário incomum, flows elásticos e uma escrita que misturava filosofia de rua, humor ácido, referências espirituais, crônicas urbanas e observações sociais extremamente sofisticadas. Esse trabalho também é carregado de crítica social, além de trazer uma referência a Bob Marley no título. A produção, conduzida por Alexandre Basa, cria um som que mistura o peso do Boom Bap com a fluidez do Reggae jamaicano. Há linhas de baixo extremamente profundas, guitarras dubadas, percussões orgânicas, scratches discretos e baterias que alternam entre agressividade e swing. O repertório é sensacional e parece uma coletânea, já que só tem canções excepcionais. No fim, é um baita disco e um clássico do Rap nacional. 

Melhores Faixas: Babylon By Gus, Como Eu Te Quero, Estilo Do Gueto, Mister Niteroi, From Hell Do Céu, Caminhos Do Destino, Na Segunda Vinda 
Vale a Pena Ouvir: América 21, U-Informe

Babylon By Gus, Vol. II: No Princípio Era O Verbo – Black Alien





















NOTA: 7/10


Foi apenas em 2015 que foi lançado o tão aguardado Babylon By Gus, Vol. II: No Princípio Era O Verbo. Após o Babylon By Gus - Volume 1, o Black Alien atravessou um período extremamente turbulento, marcado por dependência química, internações, isolamento e uma longa reconstrução pessoal. O próprio artista já declarou que o disco representa uma nova fase de vida, quase como um recomeço espiritual. A produção, feita pelo rapper junto com Alexandre Basa, segue por um caminho mais emocional e amplo. As influências do Rap e do Ragga continuam presentes, mas agora aparecem com enorme destaque elementos de Soul, R&B e Rock. As beats são mais orgânicas e permitem que baixos, guitarras, metais, scratches e percussões convivam sem excesso de informação, mesmo que esses elementos não se encaixem. O repertório é até legal, com canções divertidas, só que com algumas fraquinhas. Enfim, é um disco bom, mas que possui muitas falhas. 

Melhores Faixas: Skate No Pé (ótima feat do Parteum e Kamau), Somos O Mundo, Rock 'N' Roll (Edi Rock mandou bem), Identidade, O Estranho Vizinho Da Frente 
Piores Faixas: 1972 (Intro), Rolo Compressor, Quem É Você?
  

Abaixo De Zero: Hello Hell – Black Alien





















NOTA: 10/10


Então chegamos a 2019, ano em que foi lançado seu excepcional 3º e último álbum até então, o Abaixo De Zero: Hello Hell. Após o Babylon By Gus, Vol. II: No Princípio Era O Verbo, esse novo trabalho se tornou praticamente um retrato da sobrevivência psicológica do Black Alien. Se o segundo Babylon By Gus já era um álbum introspectivo e espiritual, aqui tudo fica ainda mais direto, vulnerável e autobiográfico. A produção, feita inteiramente por Papatinho, é extremamente detalhada, cheia de texturas, graves profundos, baterias pesadas e atmosferas espaciais, sem abandonar a musicalidade orgânica que sempre acompanhou o rapper. O álbum mistura Boom Bap, Trap, Dub, Jazz Rap, Chipmunk Soul e psicodelia de maneira extremamente natural, com os flows técnicos e suaves do Black se encaixando perfeitamente. O repertório é simplesmente sensacional, parecendo uma coletânea. Em suma, é um disco sensacional e uma obra-prima contemporânea da música brasileira. 

Melhores Faixas: Aniversário De Sobriedade, Vai Baby, Que Nem Meu Cachorro, Carta Pra Amy, Take Ten 
Vale a Pena Ouvir: Área 51, Jamais Serão


                                                                         Então é isso, um abraço e flw!!!          

Analisando Discografias - Sain

                  

Dose de Adrenalina – Sain





















NOTA: 8,5/10


No nosso querido ano de 2017, o Sain lançava seu 1º trabalho solo, o Dose de Adrenalina. Sua trajetória no Rap começou desde pequeno, já que ele era filho da lenda Marcelo D2, e desde cedo participou de alguns projetos do pai, sendo a participação no Acústico MTV a mais notória. Lá por volta do fim dos anos 2000, ele formou o grupo Start, que teve um certo reconhecimento, mas não durou muito tempo. A virada de chave veio quando ele passou a fazer parte do coletivo Pirâmide Perdida, começando a ganhar mais visibilidade naquele período que viria a ser o ano lírico. A produção, feita por ele, contou também com nomes como Coyote Beatz, El Lif Beatz e WC no Beat, entre outros, seguindo uma estética extremamente atmosférica, baseada no Boom Bap, com samples quentes e beats secas. Há uma influência clara do Jazz Rap, mas filtrada por uma estética Lo-fi. O repertório é muito bom, e as canções são carregadas de leveza. Enfim, é um ótimo álbum de estreia e bastante coeso. 

Melhores Faixas: Doses de Adrenalina (Luccas Carlos mandando bem), Quem é da Área (ótima feat do BK’), Pronto, Eu Sei Bem (Felp Cacife mandando bem) 
Vale a Pena Ouvir: Prato do Dia, Prato do Dia

Slow Flow – Sain





















NOTA: 8/10


Dois anos se passaram, e o Sain lançou seu 2º álbum solo, intitulado Slow Flow, que foi bem mais amplo. Após o Dose de Adrenalina, esse trabalho soa como um retrato pessoal, fechado e extremamente concentrado na atmosfera. O título do álbum também ajuda a entender sua proposta: veio de uma música do rapper americano Evidence, além de refletir o jeito arrastado e relaxado de rimar que seus amigos já associavam a ele. A produção, feita pelo rapper junto com El Lif Beatz, partiu para uma abordagem mais crua e direta, com beats econômicas, muitas vezes construídas com poucos elementos: bateria seca, samples de Jazz e Soul, baixos profundos e loops hipnóticos, refletindo a estética do Boom Bap, o que faz encaixar perfeitamente seu flow cadenciado. O repertório é legalzinho, e as canções são bem imersivas, mesmo com algumas faixas fracas. No fim, é um álbum bacana, que trouxe um lado bem cinematográfico. 

Melhores Faixas: Rosas e Rimas, Hoodfellas, Faixa 7 
Piores Faixas: Lobbies de Hotéis, Skit KM
  

KTT ZOO – Sain





















NOTA: 9,4/10


Então chegamos a 2023, ano em que foi lançado o maravilhoso 3º álbum do Sain, o KTT ZOO. Após o Slow Flow, o rapper decidiu fazer um álbum mais expansivo, visual e conceitual, mantendo a identidade do Jazz Rap e do Boom Bap, que naquele período passavam por um revival graças ao sucesso do Febre90s, mesmo com o Trap ainda estando no topo. Esse título é uma referência clara ao Catete, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde Sain cresceu e desenvolveu boa parte da sua vivência artística, enquanto “Zoo” simboliza justamente a diversidade humana. A produção, feita inteiramente pelo rapper, traz beats cruas, com samples jazzísticos, baixos profundos, baterias secas e loops hipnóticos, refletindo a vibe do Boom Bap nova-iorquino dos anos 90 com textura Lo-fi e Drumless, encaixando perfeitamente com o seu flow cadenciado. O repertório é sensacional, e as canções são carregadas de profundidade. No fim, é um belo álbum e um verdadeiro clássico. 

Melhores Faixas: Aquelas Coisas Mais Pra Frente, Demanda, Lucro (Felp mandou bem demais), Momentos, Iori Incorporado 
Vale a Pena Ouvir: Relíquia Do Boom Bap, Ebi no Tempura (Febem mandou bem)


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Analisando Discografias - Marcelo D2

                   

Eu Tiro É Onda – Marcelo D2





















NOTA: 9,4/10


Voltando para 1998, Marcelo D2 lançava seu 1º álbum solo intitulado Eu Tiro É Onda. Após o lançamento de Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára com o Planet Hemp, e depois da prisão dos integrantes da banda em Brasília sob acusação de apologia às drogas, o grupo entrou em um momento de desgaste institucional e comercial. Muitos shows foram cancelados, e a pressão em torno do Planet Hemp acabou impulsionando D2 a experimentar uma identidade artística própria. A produção, feita pelo rapper junto de Rodrigo Nut's e Zé Gonzales, é crua e sofisticada ao mesmo tempo. Há um equilíbrio muito forte entre o peso do Boom Bap e os muitos samples do Samba, Jazz, Funk setentista e MPB. Em vez de simplesmente encaixar um pandeiro sobre um beat tradicional do Rap, eles integraram os elementos brasileiros à estrutura rítmica do Hip-Hop. O repertório é incrível, e as canções são carregadas de profundidade e até leveza. Enfim, é um baita disco, e ainda nem era o ápice. 

Melhores Faixas: Sessão, 1967, Samba De Primeira, Eu Tive Um Sonho, Baseado Em Fatos Reais, O Império Contra Ataca 
Vale a Pena Ouvir: Eu Tiro É Onda, Batucada

À Procura Da Batida Perfeita – D2





















NOTA: 10/10


Foi apenas em 2003 que Marcelo D2 lançou seu clássico 2º álbum solo, À Procura da Batida Perfeita. Após o Eu Tiro É Onda ter introduzido a fusão entre Rap e Samba, aqui essa proposta finalmente alcança sua maturidade total. O início dos anos 2000 marcou um período em que a música brasileira passava por profundas transformações. O Rap nacional crescia rapidamente, mas ainda existia resistência por parte da grande mídia. Marcelo D2 conseguiu algo raro: transformar um disco de Rap em um fenômeno popular sem abandonar sua autenticidade artística. A produção, conduzida por David Corcos, Mario Caldato Jr. e pelo próprio rapper, criou um som encorpado, quente e orgânico. As batidas têm o peso típico do Boom Bap, mas também dão espaço para os instrumentos acústicos, os silêncios e as camadas percussivas. O repertório é sensacional, chegando a parecer uma coletânea, tamanha a quantidade de canções incríveis. No fim, é um belíssimo álbum e certamente uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Qual É?, A Procura Da Batida Perfeita, Profissão M.C., Vai Vendo 
Vale a Pena Ouvir: Batidas E Levadas, Lodeando, A Maldição Do Samba

Meu Samba É Assim – D2





















NOTA: 8,3/10


Três anos se passaram, e Marcelo D2 lançou mais um álbum, o Meu Samba É Assim. Após o clássico À Procura da Batida Perfeita, que havia estabelecido a fusão entre Samba e Rap como linguagem central de sua obra, este disco aprofunda ainda mais essa proposta e transforma o Samba em elemento dominante da narrativa musical. O álbum mostra um D2 mais seguro artisticamente, mais confortável com sua posição dentro da música brasileira e menos preocupado em provar legitimidade para a cena do Rap nacional. A produção, feita por Leandro Sapucahy e Nave Beatz, traz arranjos mais abertos, percussões que ocupam mais espaço e instrumentos acústicos com enorme protagonismo. O Samba não aparece apenas sampleado: ele se mistura diretamente à construção dos beats. O repertório é muito bom, e as canções conseguem ser divertidas e profundas ao mesmo tempo. No fim, é um ótimo disco, bastante variado. 

Melhores Faixas: É Preciso Lutar, Lapa (Aori e Marechal amassando), Pra Que Amor?, Dor De Verdade (participação do Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz) 
Vale a Pena Ouvir: Meu Samba É Assim, Gueto (Mr. Catra mandou bem), Nega

A Arte Do Barulho – Marcelo D2





















NOTA: 8,2/10


Dois anos depois, Marcelo D2 lançava seu 4º álbum, intitulado A Arte do Barulho. Após o Meu Samba É Assim, esse novo trabalho funciona quase como uma tentativa de expansão estética. O Samba continua presente, mas perde protagonismo em comparação aos discos anteriores. Em seu lugar, entram influências maiores do Rock, da música eletrônica, beats mais secos e até ecos da energia do Planet Hemp. A produção contou com Mário Caldato Jr. e DJ Nuts, indo para uma direção de beats secos, eletrônicos e fragmentados. O Samba ainda existe, mas muitas vezes aparece apenas como textura ou influência rítmica indireta. O disco mergulha muito mais em colagens urbanas, ruídos, linhas de baixo pesadas e programações eletrônicas, trazendo também traços de Jazz Rap e Dub, mesmo que em alguns momentos falte maior dinâmica. O repertório é legalzinho, com canções divertidas e algumas mais fracas. No geral, é um disco bom, mas que apresenta alguns erros. 

Melhores Faixas: Desabafo, A Arte Do Barulho, Pode Acreditar (Meu Laiá Laiá) (as duas com participação do Seu Jorge), Atividade Na Laje (nessa época, Stephan Peixoto já tava virando Sain), Vem Comigo Que Eu Te Levo Pro Céu 
Piores Faixas: Minha Missão, Ela Disse, Kush

Canta Bezerra Da Silva – Marcelo D2





















NOTA: 8/10


Entrando em 2010, Marcelo D2 lançava o álbum Canta Bezerra da Silva, que já é bem explicativo pelo próprio título. Após A Arte do Barulho, esse trabalho já vinha sendo pensado desde 2005, ano da morte de Bezerra da Silva, mas só ganhou forma definitiva alguns anos depois. Isso é importante porque o álbum não soa como uma homenagem oportunista ou imediata; existe uma sensação genuína de respeito histórico e continuidade cultural. A produção, feita por Leandro Sapucahy, aposta em instrumentos orgânicos, percussão tradicional, cavaquinho, violão de sete cordas, metais discretos e linhas rítmicas muito mais ligadas ao Samba e ao Partido Alto. O vocal de D2 se encaixa muito bem nesse contexto, proporcionando uma sonoridade extremamente quente e coletiva. Em muitos momentos, parece realmente uma roda de Samba acontecendo em um quintal carioca. O repertório é obviamente muito bom, e a interpretação é bem-feita. No geral, é um disco bacana e bastante honroso. 

Melhores Faixas: Malandragem Dá Um Tempo, Bicho Feroz 
Vale a Pena Ouvir: Meu Bom Juiz, A Semente, Saudação Às Favelas, Na Aba

Nada Pode Me Parar – Marcelo D2





















NOTA: 8,8/10


Em 2013, Marcelo D2 lançou seu 6º álbum de estúdio, intitulado Nada Pode Me Parar. Após o Canta Bezerra da Silva, o rapper parecia interessado em recuperar agressividade, velocidade e peso rítmico. Parte disso veio da reunião do Planet Hemp em turnês que aconteceram pouco antes do lançamento do disco. Inclusive, o álbum originalmente sairia em 2012, mas acabou sendo adiado por causa desses compromissos. A produção, feita mais uma vez por Mario Caldato Jr., aposta em beats mais secos, pesados e sintéticos do que nos trabalhos anteriores. Ainda existem samples brasileiros e referências à MPB, mas eles aparecem muito mais integrados dentro de estruturas modernas do Rap, passando pelo Boom Bap, Jazz Rap e até pelo Chipmunk Soul. O repertório é muito bom, e as canções são profundas, com temáticas envolventes. Enfim, é um disco bacana e muito consistente. 

Melhores Faixas: Você Diz Que O Amor Não Dói, Eu Já Sabia (Sain mandou bem), A Cara Do Povo, 4:20, Vou Por Aí, Eu Tenho O Poder 
Vale a Pena Ouvir: Na Veia, Fella (ótima feat do Akira Presidente), Danger Zone

Amar É Para Os Fortes – Marcelo D2





















NOTA: 8,5/10


Cinco anos se passaram, e Marcelo D2 retorna com mais um álbum novo, o Amar É Para Os Fortes. Após o Nada Pode Me Parar, o trabalho nasceu como uma experiência transmídia que unia música, cinema, narrativa visual e comentário social. O disco veio acompanhado de um média-metragem homônimo escrito, dirigido e produzido pelo próprio D2. O conceito central do álbum gira em torno do amor como forma de resistência em um ambiente marcado por violência, desigualdade, racismo estrutural e brutalidade urbana. Produção feita pelo rapper junto com Mario Caldato Jr., Nave Beatz e Sacha Rudy, que colocaram beats variados, aqui os instrumentos respiram muito mais. Há percussões afro-brasileiras, guitarras atmosféricas, linhas de baixo profundas e arranjos vocais muito ricos, fazendo uma fusão do Rap com Samba, Afoxé, MPB e até Baião. O repertório é bem legal, e as canções são imersivas. No fim, é um ótimo disco e carregado de musicalidade. 

Melhores Faixas: Febre Do Rato, Filho De Obá (Juntaram Danilo e Alice Caymmi com Rincon Sapiência, e ficou foda!), Resistência Cultural (participação do Gilberto Gil) 
Vale a Pena Ouvir: Alto Da Colina, AEPOF

Assim Tocam Os Meus Tambores – Marcelo D2





















NOTA: 9,6/10


No ano de 2020, Marcelo D2 lançou seu 8º álbum solo, o Assim Tocam os Meus Tambores. Após o Amar É para os Fortes, esse projeto foi idealizado no período inicial da pandemia de COVID-19. O isolamento, a instabilidade política, o aumento das tensões sociais e a sensação coletiva de insegurança influenciaram profundamente a atmosfera do disco, levando D2 a criar um trabalho mais intimista e musicalmente orgânico. Produzido pelo rapper junto de Barba Negra, DJ Nuts, Dr. Drumah, Kamau, Nave e Tropkillaz, o álbum segue uma abordagem orgânica e calorosa, com presença de percussões orgânicas, cavaquinho, violão, metais suaves, linhas de baixo quentes e arranjos coletivos extremamente vivos, mostrando bases do Rap consciente dentro do Jazz Rap, Drill, Afoxé e Batucada. O repertório é incrível, e as canções são carregadas de profundidade e metáforas. No geral, é um baita disco e um dos melhores de sua carreira. 

Melhores Faixas: 4ª As 20h, É Manhã (Vem) (Don L mandou bem), Pelo Que Eu Acredito (Sain e Djonga mandaram bem), Rompeu O Couro (ótima feat do BK’ e Baco), Pela Sombra (Jorge du Peixe mandando bronca), As Sementes 
Vale a Pena Ouvir: Magrela87, Mangueforte (participação do Russo Passapusso do BaianaSystem), Tambor, O Senhor Da Alegria (Criolo ficou só na poesia)

Iboru – Marcelo D2





















NOTA: 8,4/10


Depois de três anos, Marcelo D2 lançou seu álbum mais recente, intitulado Iboru. Após o Assim Tocam os Meus Tambores, o rapper decidiu fazer um trabalho completamente absorvido por uma estética centrada no samba de terreiro, na ancestralidade afro-brasileira e na ideia de continuidade cultural. O título do álbum vem do iorubá e pode ser traduzido como “que sejam ouvidas as nossas súplicas”. Essa escolha não é apenas simbólica; ela define toda a atmosfera espiritual do disco. A produção, feita por D2 junto de Barba Negra, Julio Fejuca, Kiko Dinucci, Mario Caldato Jr., Nave e Tropkillaz, segue a temática do Samba de terreiro. Ao mesmo tempo, incorpora técnicas modernas de mixagem, colagens sonoras, graves profundos e ambientações cinematográficas, mas sempre com forte presença de tambores, pandeiros e percussões afro-brasileiras. O repertório é ótimo, e as canções são variadas e cheias de espiritualidade. No fim, é um ótimo disco e bastante coeso. 

Melhores Faixas: Fuzuê (participação do Zeca Pagodinho e Xande de Pilares), O Samba Falará + Alto, Povo De Fé, Tempo De Opinião, Só Quando Meu Samba Morrer 
Vale a Pena Ouvir: Pra Curar A Dor Do Mundo, Fonte Que Eu Bebo, Abrindo Os Caminhos

Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete – Marcelo D2





















NOTA: 7/10


No final de 2024, Marcelo D2 iniciou sua quadrilogia de EPs com Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete. Após o Iboru, o objetivo desses EPs passou a ser misturar regravações de clássicos do Samba com releituras de músicas importantes da própria trajetória de D2. O volume 1 funciona como uma homenagem direta à sua mãe, Paulete Maldonado, falecida em 2021. Isso dá ao trabalho um caráter profundamente íntimo e emocional desde o princípio. A produção, conduzida por Julio Fejuca, Nave e Os Fita, trabalha elementos fundamentais do Samba, como cavaquinho, tantã, repique, pandeiro, cuíca e dinâmica coletiva, enquanto incorpora discretamente técnicas modernas de produção, graves contemporâneos e referências ao Funk, Rap e Kizomba. O repertório contém 7 faixas bastante descontraídas. No fim, é um ótimo EP e bastante emocional. 

Melhores Faixas: Castelo De Um Quarto Só, Desabafo 
Vale a Pena Ouvir: Obrigado Samba, Maneiras

Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 2: Tia Darci – Marcelo D2





















NOTA: 7/10


Já no comecinho de 2025, Marcelo D2 lançou rapidamente Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 2: Tia Darci. Após o volume 1, essa continuação amplia ainda mais o conceito do “Novo Samba Tradicional”, mas agora direcionando o foco para o papel das matriarcas, das rodas suburbanas e da transmissão oral dentro da cultura do gênero. O título homenageia Tia Darci do Jongo, figura histórica da cultura popular carioca e símbolo da preservação das tradições afro-brasileiras ligadas ao Samba, ao jongo e às rodas comunitárias. A produção, feita por Julio Fejuca, Márcio Alexandre, Nave e Os Fita, faz o som parecer construído diretamente dentro de uma roda de Samba comunitária e aberta. Os tambores e as percussões ocupam um papel absolutamente central. Tantã, repique, pandeiro, agogô e atabaques aparecem constantemente. O repertório é ótimo, e as canções ficaram cheias de envolvência. Enfim, é um EP legal e mais contemplativo. 

Melhores Faixas: Meu Nome É Favela, Nascente Da Paz (participação do Grupo Fundo De Quintal) 
Vale a Pena Ouvir: Delegado Chico Palha, A Maldição Do Samba

Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 3: Luiza – Marcelo D2





















NOTA: 7/10


Depois de dois meses, foi lançado Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 3: Luiza. Após o volume 2, este trabalho desloca o foco para a relação afetiva entre Marcelo D2 e Luiza Machado, transformando o vínculo do casal no eixo criativo do disco. Se os trabalhos anteriores falavam bastante sobre ancestralidade coletiva, tradição do Samba e memória suburbana, aqui o centro emocional é a convivência doméstica, o amor maduro e a parceria artística construída ao longo dos anos entre os dois. Produzido por Mario Caldato Jr. e Nave, o EP mantém os tambores como elemento fundamental, mas agora eles dividem espaço com harmonias suaves, arranjos melódicos sofisticados e texturas muito mais atmosféricas. O cavaquinho, os violões e os corais criam uma sensação constante de proximidade emocional. O repertório, como de costume, conta com 7 faixas, e todas elas são carregadas de leveza. No final de tudo, é um EP delicado e bastante sensível. 

Melhores Faixas: Lucidez, 1967 
Vale a Pena Ouvir: Nas Águas De Amaralina, Filhos De Jorge

                                                                                    É isso, então flw!!!           

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