terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Review: COLAPSO GLOBAL do Teto & WIU

                   

COLAPSO GLOBAL – Teto & WIU






















NOTA: 2,5/10


Recentemente, foi lançado o tão aguardado álbum colaborativo do Teto & WIU, COLAPSO GLOBAL. Após o lançamento de seus respectivos projetos em 2025, os dois já cogitavam, há bastante tempo, um trabalho juntos que seria bem diferente do Trap tradicional, explorando mais texturas, ritmos e perspectivas. A produção é diversificada, contando com o próprio WIU, Deekapz, Neckklace, entre outros, que seguiram por um caminho mais variado, indo além das batidas de 808 e hi-hats acelerados; há influências de House, Funk carioca e samples ousados, articulando um universo híbrido que até tenta expandir as possibilidades do Trap, mas que dialoga muito mais com o Pop, claramente voltado para viralizar no TikTok, o que torna o resultado bastante genérico. O repertório é muito ruim, e as canções são insuportáveis, para não dizer medíocres, com pouquíssimas se salvando. No final de tudo, é um álbum horroroso e uma mancha podre na trajetória de ambos. 

Melhores Faixas: À BEIRA (Don L salvou), MEDICINA 
Piores Faixas: ISSO AQUI É BRASIL, REF, O CARA, FACECARD (dois Funks que não tocaria nem no auge do Kondzilla)
 

                                                                    É isso, então flw!!!          

Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 3

                 

The Sun Is Out – Flora Purim & Airto





















NOTA: 2,6/10


Aí, mais um ano se passou, e foi lançado mais um trabalho deles, dessa vez o fraquíssimo The Sun Is Out. Após o The Magicians, este novo projeto quis voltar o olhar para a vida cotidiana, a alegria, o amor, a amizade e a imaginação, sem perder a sofisticação harmônica e rítmica que sempre marcou a obra da dupla. Há aqui uma sensação clara de maturidade tranquila: Flora e Airto soam como artistas que já compreenderam profundamente suas próprias linguagens e que agora querem fazer música por prazer. A produção é aquela mesma de sempre, só que deliberadamente mais clara e aberta. Aqui vemos a voz da Flora mais próxima, preservando nuances tímbricas, respirações e inflexões suaves, enquanto a percussão do Airto mostra grooves mais simples. Só que, no geral, os arranjos são previsíveis e tudo soa muito arrastado. O repertório é muito ruim, e as canções, em sua maioria, são chatíssimas. No fim, é um disco péssimo e o mais esquecível da trajetória deles. 

Melhores Faixas: Lua Flora, Forever Friends 
Piores Faixas: Midday Sun, Viver De Amor, The Hope, Asas Da Imaginação

Three-Way Mirror – Airto Moreira, Flora Purim & Joe Farrell





















NOTA: 8/10


Ainda naquele mesmo ano, foi lançado um álbum colaborativo do casal junto com Joe Farrell, o Three-Way Mirror. Após o The Sun Is Out, esse trabalho surgiu por volta de 1985 (já que, no seu lançamento, Farrell já havia falecido). O que eles fizeram foi um trabalho que remete ao período do Jazz Fusion, que já não predominava mais, mas sem funcionar como uma tentativa de atualização estética; trata-se, antes, de uma reflexão madura sobre trajetórias cruzadas. A produção, feita por Airto Moreira junto com J. Tamblyn Henderson Jr., é marcada por sobriedade e clareza. Cada instrumento ocupa seu espaço com nitidez, permitindo que as interações sutis sejam plenamente percebidas. A percussão do Airto é tratada menos como espetáculo rítmico e mais como elemento estruturante, os sopros do Joe Farrell são o eixo melódico, e os vocais da Flora assumem um caráter mais narrativo. O repertório é muito bom, e as canções são bem suaves. Enfim, é um disco bacana e coeso. 

Melhores Faixas: Plane To The Trane, Three-Way Mirror 
Vale a Pena Ouvir: Lilia, Treme Terra, São Francisco River

The Colours Of Life – Airto Moreira / Flora Purim





















NOTA: 8/10


Aí chegamos a 1988, quando foi lançado o álbum que finalizou essa fase, o The Colours Of Life. Após o Three-Way Mirror, este novo disco pode ser entendido como uma síntese estética da trajetória do casal. Aqui, não há mais a urgência de afirmar identidades ou de expandir linguagens. A fusão entre jazz, música brasileira, elementos latinos e um vocabulário pop sofisticado já está completamente assimilada. A produção, feita como sempre pelo próprio Airto, apresenta um som limpo e equilibrado, com uma clara preocupação em preservar a naturalidade das performances, com sua percussão dialogando constantemente com os demais elementos, alternando entre grooves suaves, comentários rítmicos sutis e texturas quase ambientais. Já os vocais da Flora aparecem em poucos momentos e privilegiam nuances, articulações suaves e uma expressividade que lembra o Spoken Word. O repertório é legal, e as canções são bem dinâmicas. No fim, é um álbum interessante e assertivo. 

Melhores Faixas: Anatelio, Bingo 
Vale a Pena Ouvir: Partido Alto, Mistérios, Treme Terra

Flora Purim Sings Milton Nascimento – Flora Purim





















NOTA: 8,4/10


Foi apenas em 2000 que Flora Purim retorna com o álbum Sings Milton Nascimento. Após o The Colours Of Life, Flora focou em outros projetos nesse meio-tempo e volta com um trabalho revisitando o repertório de Milton Nascimento, que sempre representou algo além de um compositor admirado: ele é uma referência ética, estética e emocional dentro da música brasileira, alguém que, assim como ela, construiu uma linguagem profundamente pessoal, na qual é impossível separar técnica, espiritualidade e humanidade. A produção é deliberadamente sóbria, elegante e respeitosa. Os arranjos, feitos por sua filha Diana, são enxutos, mas harmonicamente ricos, permitindo que as melodias de Milton respirem com naturalidade, seguindo a estética da MPB com influências do Jazz-Funk e do Trip Hop, com os vocais da Flora funcionando muito bem. O repertório, não preciso dizer, é ótimo, e as canções são muito bem interpretadas. No fim, é um disco bacana e subestimado. 

Melhores Faixas: Nuvem Cigana, Tudo Que Você Podia Ser, Cais 
Vale a Pena Ouvir: Canta Latino, Nós Dois

Perpetual Emotion – Flora Purim





















NOTA: 8,5/10


Entrando nos anos 80, foi lançado o 10º álbum do Wishbone Ash, intitulado Just Testing. Após o No Smoke Without Fire, disco que havia representado uma tentativa relativamente bem-sucedida de recuperar peso e identidade após a fase mais orientada ao AOR, no entanto, em vez de consolidar essa retomada, a banda opta por um caminho completamente diferente. Esse trabalho é deliberadamente fragmentado, já que traz várias influências adquiridas ao longo de seus 10 anos de carreira. A produção foi feita pela própria banda junto com John Sherry, optando por uma sonoridade clara e orgânica, em que as guitarras aparecem ora com timbres limpos e delicados, ora com distorções secas e pouco trabalhadas. A bateria e o baixo muitas vezes soam contidos, quase discretos, compondo essa junção de Hard Rock, Blues Rock e AOR. O repertório é muito bom, e as canções são todas bem divertidas. Em suma, é um trabalho legal e que marcou o fim de uma fase. 

Melhores Faixas: Living Proof, Lifeline, Master Of Disguise 
Vale a Pena Ouvir: New Rising Star, Haunting Me


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 2

                 

Nothing Will Be As It Was...Tomorrow – Flora Purim





















NOTA: 8/10


No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho novo da Flora Purim, o Nothing Will Be As It Was… Tomorrow. Após o Open Your Eyes You Can Fly, vendo que o Jazz Fusion se tornava mais grooveado, mais próximo do Funk e do R&B, ao mesmo tempo em que grandes gravadoras buscavam artistas capazes de dialogar com um público mais amplo, Flora entra nesse novo momento já consagrada artisticamente, mas curiosa em explorar outras possibilidades de circulação e linguagem. Com produção feita pelo baterista Leon “Ndugu” Chancler, o disco é deliberadamente mais polido, denso e orientado ao groove. O som se afasta da atmosfera etérea e quase “cósmica” dos álbuns anteriores para se aproximar de uma estética que valoriza o pulso, o baixo elétrico bem definido, baterias secas e arranjos mais fechados. O repertório é muito bom, e as canções são todas bastante intimistas e até divertidas. No fim, é um trabalho bacana e subestimado. 

Melhores Faixas: Nothing Will Be As It Was (Nada Sera Como Antes), Fairy Tale Song 
Vale a Pena Ouvir: Angels, You Love Me Only

Encounter – Flora Purim





















NOTA: 8,2/10


Alguns meses depois, foi lançado outro disco da cantora intitulado Encounter, que é mais tradicional. Após o Nothing Will Be As It Was… Tomorrow, depois de uma tentativa que seguiu muitos contemporâneos que se voltaram para o Funk ou o R&B de maneira mais explícita, Flora escolhe outro caminho: o da intimidade, da escuta e do encontro musical propriamente dito. Fazendo, assim, um álbum contemplativo, às vezes até introspectivo, em que Flora parece interessada em explorar o espaço interno da música, e não sua projeção externa. Produção feita mais uma vez por Orrin Keepnews, colocou um som econômico e transparente. Em vez de camadas densas de teclados ou arranjos grandiosos, o álbum aposta em uma instrumentação que valoriza o espaço, a respiração e a interação entre os músicos, que não sobrecarregam os vocais melódicos e suaves da Flora. O repertório é muito bom, e as canções passam aquele clima de leveza. Enfim, é um disco bom e que foi mais intimista. 

Melhores Faixas: Black Narcissus, Above The Rainbow 
Vale a Pena Ouvir: Windows, Encounter

That's What She Said – Flora Purim





















NOTA: 8/10


E então outro ano se passou, e foi lançado mais um disco da Flora Purim, o That’s What She Said. Após o Encounter, Flora já era uma artista plenamente madura, mas inserida em um mercado musical em transformação. O final da década marca um período em que o Jazz Fusion, enquanto movimento de vanguarda, começa a perder centralidade cultural. As grandes gravadoras pressionam artistas a dialogar com formatos mais comerciais; com isso, este trabalho não é um retorno ao experimentalismo radical, nem uma rendição total ao Pop, mas um disco que tenta negociar identidade. A produção é aquela de sempre, mais direta, compacta e orientada à canção. A sonoridade é marcada por arranjos bem definidos, estruturas claras e uma preocupação evidente com acessibilidade, sem abandonar completamente o refinamento harmônico e rítmico do Jazz. O repertório é até legal, e as canções são bem imersivas. Enfim, é um álbum bacana e subestimado. 

Melhores Faixas: What Can I Say?, You On My Mind 
Vale a Pena Ouvir: Juicy, You Are My Heart

Humble People – Flora Purim & Airto Moreira





















NOTA: 8,3/10


Foi apenas em 1985 que Flora Purim retorna com um álbum que faria parte de uma série de trabalhos colaborativos com Airto Moreira, o Humble People. Após o That’s What She Said, como o Jazz Fusion já havia sido amplamente assimilado, o mercado estava dominado por produções digitais e uma estética mais limpa e menos aventureira. Ainda assim, o casal buscava um espaço de afirmação identitária, especialmente ligado às raízes brasileiras, à religiosidade difusa e a uma ideia de música como serviço e comunhão. Com produção feita inteiramente por Airto, o disco traz uma sonoridade variada; o som geral é mais suave, contemplativo e uniforme do que nos trabalhos anteriores. As dinâmicas são menos contrastantes, os arranjos evitam excessos e a música flui de forma contínua, quase meditativa, mostrando influências latinas e também do R&B e do Reggae. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas. No fim, é um ótimo disco que mostrou algo interessante. 

Melhores Faixas: Jogral, New Flora 
Vale a Pena Ouvir: Move It On Up, Bad Jive

The Magicians – Flora Purim & Airto





















NOTA: 8/10


No ano seguinte, foi lançado o 2º álbum colaborativo deles, intitulado The Magicians. Após o Humble People, que partia da humildade, da coletividade e de uma ética quase devocional, essa continuação desloca o olhar para a dimensão simbólica e ritual da criação musical. O título sugere não truques ou espetáculo, mas a ideia do músico como mediador entre forças invisíveis: ritmo, memória cultural e imaginação. Produção feita mais uma vez inteiramente por Airto Moreira, o disco apresenta uma presença clara de sintetizadores digitais, timbres processados e texturas eletrônicas; porém, esses elementos não são usados para criar impacto comercial. Eles funcionam como camadas atmosféricas, quase como névoa sonora, já que a presença de instrumentos tradicionais mantém o clima contemplativo, sobretudo na percussão e nos vocais contidos da Flora. O repertório é muito bom, e as canções são funcionais. Enfim, é um disco interessante e consistente. 

Melhores Faixas: Bird Of Paradise, Jump 
Vale a Pena Ouvir: The Magicians, Love Reborn, Jennifer
  

                                                                                   Então é isso e flw!!!              

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 1

                 

Flora É M.P.M. – Flora Purim





















NOTA: 8/10


Voltando para 1964, foi lançado o álbum de estreia de Flora Purim, o Flora É M.P.M.. A cantora carioca começou sua trajetória no início daquela década; vinda de um berço de pais músicos eruditos, ao entrar na fase adulta assinou com a RCA sob a sigla M.P.M. (Música Popular Moderna), que na época indicava um repertório inovador dentro da música popular brasileira, aproximando Bossa Nova, Samba e arranjos com nuances de Jazz. A produção, feita por Paulo Rocco e Roberto Jorge, é bastante representativa do cenário musical brasileiro do início dos anos 60, misturando arranjos sofisticados com elementos típicos da Bossa Nova, além de contar com um time de músicos extremamente requisitados, entre eles o baterista Dom Um Romão, que trouxe uma abordagem rítmica robusta ao projeto. O repertório é muito bom, e as canções são bem profundas. No fim, é um ótimo disco, apesar de não ser exatamente o caminho que ela seguiria posteriormente. 

Melhores Faixas: Samba Do Carioca, A Morte De Um Deus De Sal, Se Fosse Com Você, Reza 
Vale a Pena Ouvir: Maria Moita, Borandá, Definitivamente

Butterfly Dreams – Flora Purim





















NOTA: 9/10


Pulando para 1974, foi lançado seu 2º álbum de estúdio, intitulado Butterfly Dreams. Após Flora É M.P.M., ela deixou o Brasil em 1967 e foi morar nos Estados Unidos junto com seu marido, Airto Moreira, onde se inseriram na cena jazzística norte-americana e passaram pela primeira formação do Return to Forever. Com isso, este trabalho, lançado pela Milestone Records, apresenta uma cantora com bagagem musical já consolidada, seguindo referências que a acompanhavam desde a infância. A produção, feita por Orrin Keepnews, é refinada, cuidadosa e extremamente sensível às nuances sonoras. O álbum conta com um núcleo de músicos de altíssimo nível, muitos deles ligados ao Return to Forever e à vanguarda do Jazz da época, que fornecem uma base orgânica e permitem que os vocais variados de Flora brilhem, estabelecendo um equilíbrio entre Jazz Fusion e Vocal Jazz. O repertório é belíssimo, e as canções são bem imersivas. No fim, é um baita disco e bem tematizado. 

Melhores Faixas: Dindi, Love Reborn, Butterfly Dreams 
Vale a Pena Ouvir: Light As A Feather, Moon Dreams

Stories To Tell – Flora Purim





















NOTA: 9,4/10


No fim daquele mesmo ano, foi lançado outro trabalho fenomenal dela, o Stories to Tell. Após o Butterfly Dreams, que explorava a voz como um instrumento abstrato, frequentemente sem palavras, aqui Flora começa a organizar essa liberdade em “histórias”, como o próprio título sugere. É um disco que nasce do amadurecimento artístico e pessoal, quando ela já estava plenamente integrada à cena do Jazz Fusion internacional, mas começava a refletir sobre como estruturar essa linguagem sem perder profundidade. A produção, feita novamente por Orrin Keepnews, é mais polida e estruturada, mas ainda preserva uma sensação orgânica e respirada. O som é limpo, equilibrado e cuidadosamente espaçado, permitindo que cada instrumento tenha função clara dentro do arranjo, trazendo aquele clima intimista. O repertório é incrível, e as canções são suaves e aconchegantes. No geral, é um baita disco e um clássico. 

Melhores Faixas: Insensatez, Search For Peace, Casa Forte, Vera Cruz 
Vale a Pena Ouvir: To Say Goodbye, Stories To Tell

Open Your Eyes You Can Fly – Flora Purim





















NOTA: 8,3/10


Dois anos depois, foi lançado mais um trabalho da Flora Purim, o Open Your Eyes You Can Fly. Após o Stories to Tell, que buscava uma organização narrativa mais clara, este projeto representa a consolidação definitiva de sua identidade dentro do Jazz Fusion. Aqui, Flora não está mais explorando possibilidades ou testando limites: ela já domina completamente a linguagem que ajudou a criar, fazendo um álbum tecnicamente sofisticado, mas profundamente musical, que coloca a expressividade, o lirismo e o groove acima da demonstração pura de habilidade. A produção é relativamente a mesma, mas agora com um som mais polido, definido e, ao mesmo tempo, quente, permitindo que cada elemento do arranjo seja ouvido com clareza. Os arranjos são mais rítmicos e estruturados, mas ainda preservam espaços para respiração e improvisação. O repertório é muito bom, e as canções são mais sofisticadas. Em suma, é um ótimo álbum e mais amplo. 

Melhores Faixas: Open Your Eyes You Can Fly, Ina's Song (Trip To Bahia) / Transition 
Vale a Pena Ouvir: Medley: White Wing / Black Wing, Sometime Ago

                                                                               É isso, então flw!!!         

Analisando Discografias - Airto Moreira: Parte 2

                   

Fingers – Airto



















NOTA: 9/10


Outro ano se passou, e mais um trabalho foi lançado por Airto Moreira, intitulado Fingers. Após o Free, ele já não era apenas “o percussionista brasileiro que passou por Miles Davis, Weather Report e Return to Forever”, mas um artista plenamente consciente de sua identidade e do espaço que ocupava no Jazz contemporâneo. E a gravadora onde estava, a CTI, funcionava como uma espécie de ponte entre a sofisticação do Jazz, a força do groove elétrico e uma sonoridade refinada. A produção, feita por Creed Taylor, segue aquele lado luxuoso característico da gravadora, com um som amplo cristalino e extremamente detalhado, valorizando tanto a complexidade rítmica quanto a riqueza harmônica dos arranjos. O que impressiona é como a percussão assume um papel estrutural, e com isso se percebe uma fusão de Jazz Fusion com Baião e Samba-jazz. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas. No fim, é um ótimo disco e bem tematizado. 

Melhores Faixas: Merry-Go-Round, Parana, Fingers (El Rada) 
Vale a Pena Ouvir: Tombo In 7/4, Wind Chant

Virgin Land – Airto





















NOTA: 9,2/10


No ano de 1974, foi lançado outro disco magnífico de Airto Moreira, o Virgin Land. Após o Fingers, no qual havia alcançado um equilíbrio quase ideal entre sofisticação, groove e identidade brasileira, Airto decide ampliar ainda mais o escopo de sua música. O contexto era de total abertura criativa: o Jazz Fusion já havia rompido fronteiras formais, a CTI incentivava produções grandiosas, e Airto se encontrava plenamente integrado ao circuito internacional. A produção, feita pelo baterista Billy Cobham, apresenta um refinamento técnico impecável, com arranjos amplos, camadas densas e uma sonoridade majestosa. A presença de uma orquestra de cordas confere ao álbum um caráter épico, muitas vezes cinematográfico, sem apagar o papel central da percussão. Com isso, vemos uma junção do Jazz Fusion com Jazz-Funk e elementos latinos. O repertório é incrível, e as canções são todas bem dinâmicas. No fim, é um belo disco e ainda mais expressivo. 

Melhores Faixas: Lydian Riff, Musikana, Virgin Land 
Vale a Pena Ouvir: Stanley's Tune, Hot Sand

Identity – Airto





















NOTA: 8,3/10


Se passa mais um ano, e foi lançado mais um álbum do Airto Moreira, o Identity. Após o Virgin Land, ele decidiu buscar uma linguagem mais direta, urbana e fortemente conectada ao Funk, ao Soul e à estética do Jazz Fusion de meados dos anos 70. O contexto já era outro: aquela cena começava a se consolidar como linguagem dominante, o groove ganhava cada vez mais protagonismo e a música negra norte-americana exercia influência decisiva sobre o Jazz contemporâneo. A produção, feita por Herbie Hancock, coloca um som mais compacto e menos expansivo, aproximando-se de uma estética de Jazz Fusion com Funk. Os arranjos priorizam o groove contínuo, linhas de baixo marcantes, guitarras rítmicas e teclados elétricos, enquanto a percussão de Airto se integra ao conjunto de forma menos exibicionista e mais funcional. O repertório é muito bom, e as canções são bem envolventes e imersivas. No fim, é um ótimo trabalho e mais variado. 

Melhores Faixas: Encounter (Encontro No Bar), Tales From Home (Lendas) 
Vale a Pena Ouvir: Identify, Wake Up Song (Baião Do Acordar)/Café

Promises Of The Sun – Airto





















NOTA: 8,7/10


Mais um ano se passou, e foi lançado outro trabalho do Airto Moreira, intitulado Promises of the Sun. Após o Identity, que se aproximava de uma estética mais urbana, funkeada e elétrica, aqui essa linguagem é refinada e ganha maior coesão conceitual. Com o Jazz Fusion já dialogando com um lado mais black e sofisticado, Airto demonstra estar totalmente à vontade nesse ambiente. Ao mesmo tempo, ele não abandona a dimensão espiritual e cultural que sempre permeou sua obra. A produção, feita por ele próprio junto com sua esposa Flora Purim, é elegante e bem resolvida, com uma sonoridade limpa, direta e claramente orientada pelo groove. Os arranjos são mais enxutos, priorizando a interação entre baixo, bateria, teclados e percussão, enquanto os vocais dele e de Flora assumem um papel mais central, além de haver momentos que retomam o Samba. O repertório é muito bom, e as canções ficaram mais atmosféricas. No geral, é um trabalho bem interessante. 

Melhores Faixas: Promises Of The Sun, Ruas Do Recife, Circo Marimbondo 
Vale a Pena Ouvir: Zuei, Batucada

I'm Fine. How Are You? – Airto





















NOTA: 8,5/10


Indo para 1977, foi lançado outro trabalho de Airto Moreira, o I’m Fine. How Are You? (eu sei, capa brega). Após o Promises of the Sun, ele acabou saindo da CTI Records e assinou com a Warner Bros., simbolicamente marcando um novo momento estético. O Jazz Fusion já não era novidade: em meados dos anos 70, estava plenamente integrado à indústria musical, dialogando com o Funk, o Soul, o Pop sofisticado e até com o Soft Rock. Airto, sempre atento ao contexto, decide abraçar essa nova realidade sem abandonar suas raízes rítmicas e culturais. A produção é basicamente a mesma, mas agora mais polida e acessível. Os arranjos são bem definidos, e a percussão passa a atuar muito mais como elemento de integração do que como centro absoluto da narrativa musical, além dos vocais, que aparecem em momentos mais cadenciados. O repertório é ótimo, e as canções ficaram mais suaves e variadas. No fim, é um álbum muito bom e subestimado. 

Melhores Faixas: The Happy People, Celebration Suite, La Tumbadora 
Vale a Pena Ouvir: The Road Is Hard (But We're Going To), Meni Devol

Touching You...Touching Me – Airto





















NOTA: 8/10


No fim dos anos 70, foi lançado outro álbum do Airto Moreira, intitulado Touching You… Touching Me. Após o I’m Fine. How Are You?, Airto aprofunda aqui um caminho claramente orientado à canção, ao groove elegante e ao diálogo com o Pop sofisticado e a música adulta contemporânea do fim da década. Isso ocorre em um período no qual o Jazz Fusion já havia perdido parte de seu ímpeto criativo, tornando-se mais previsível. A produção, conduzida por ele ao lado de Bob Monaco, aposta em um som limpo e equilibrado, com grande atenção às texturas e à inteligibilidade das melodias. Os arranjos são cuidadosamente desenhados para favorecer a fluidez, com linhas de baixo bem definidas, teclados aveludados, guitarras discretas e uma seção rítmica que prioriza constância e elegância, além de uma percussão orientada ao groove e ao Funk. O repertório é interessante, e as canções ficaram bem mais envolventes. Enfim, é um disco bacana e mais acessível. 

Melhores Faixas: Move It On Up, Toque De Cuica 
Vale a Pena Ouvir: Tempos Altras (Dreams Are Real), Partido Alto, Tempos Altras (Dreams Are Real)

The Other Side Of This – Airto Moreira





















NOTA: 5/10


Indo agora para 1992, foi lançado um dos trabalhos mais fracos do Airto Moreira, o The Other Side of This. Após o Touching You… Touching Me, ele passou a focar em outros projetos, como, por exemplo, seus álbuns colaborativos com sua esposa Flora Purim (dos quais falaremos depois). Assim, ele entra nos anos 90 com uma postura diferente: menos preocupado com tendências de mercado e mais interessado em reafirmar uma identidade artística profunda, orgânica e espiritual. A produção, feita por Mickey Hart, privilegiou a naturalidade dos instrumentos, a dinâmica real das performances e a sensação de espaço. A percussão de Airto volta a ocupar um papel central, funcionando eixo estrutural e espiritual da música; além disso, há muitos elementos latinos, tribais e de world music, mas em excesso, soando por vezes confusos e arrastados. O repertório é mediano, com canções fracas e algumas interessantes. Enfim, é um trabalho irregular, marcando um tropeço. 

Melhores Faixas: Hey Ya, Dom-Um (A Good Friend), Tumbleweed, When Angels Cry 
Piores Faixas: Endless Cycle, Terra E Mar, Back Streets Of Havana, Old Man's Song

Aluê – Airto Moreira





















NOTA: 8/10


Foi apenas em 2017 que Airto Moreira retornou com um novo disco, intitulado Aluê. Após o The Other Side of This, depois de focar em outros projetos e não lançar material inédito por muitos anos, decidiu fazer um disco que servisse como celebração de mais de 50 anos de carreira do percussionista, integrando releituras de temas marcantes de sua trajetória com algumas composições inéditas. A produção, feita por Carlos Ezequiel, desta vez contou com uma formação inteiramente composta por músicos brasileiros. Aqui, a proposta é acolhedora e orgânica: som acústico e elétrico integrados, arranjos que priorizam o corpo e o sopro dos instrumentos, espaço para improvisos coletivos e diálogo entre gerações. Com isso, temos uma junção de Jazz Fusion, Samba-jazz, Baião e alguns elementos de Funk. O repertório é muito bom, e as canções são todas cheias de variação. No fim, é um disco bacana e honroso. 

Melhores Faixas: Lua Flora, I'm Fine, How Are You? 
Vale a Pena Ouvir: Aluê, Sea Horse

Eu Canto Assim – Airto Moreira





















NOTA: 8,4/10


Então chegamos a 2021, quando foi lançado seu último álbum até o momento, o Eu Canto Assim. Após o Aluê, Airto Moreira se propôs a fazer um trabalho voltado mais ao canto e à interpretação de repertório tradicional brasileiro, especialmente Samba-canção, Bolero e padrões clássicos da MPB, um terreno no qual Airto já havia transitado em seus primeiros anos de carreira. A produção, feita por Flora Purim, adota uma abordagem intimista, orgânica e centrada na voz de Airto, uma escolha estética que privilegia a interpretação e a nuance de cada canção, em vez de uma instrumentação vasta e elaborada. Com isso, temos uma base sólida com piano, contrabaixo e seção rítmica com percussão natural, proporcionando espaço para a voz e a interpretação de Airto, em contraste com a temática mais complexa de seus discos anteriores. O repertório é muito bom, e as canções são bem mais intimistas e profundas. No fim, é um ótimo trabalho e bem consistente. 

Melhores Faixas: As praias desertas, Canção que morre no ar 
Vale a Pena Ouvir: Ilusão à toa, Molambo, Canção dos olhos tristes

 

Review: COLAPSO GLOBAL do Teto & WIU

                    COLAPSO GLOBAL – Teto & WIU NOTA: 2,5/10 Recentemente, foi lançado o tão aguardado álbum colaborativo do Teto & ...