segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 2

                 

Nothing Will Be As It Was...Tomorrow – Flora Purim





















NOTA: 8/10


No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho novo da Flora Purim, o Nothing Will Be As It Was… Tomorrow. Após o Open Your Eyes You Can Fly, vendo que o Jazz Fusion se tornava mais grooveado, mais próximo do Funk e do R&B, ao mesmo tempo em que grandes gravadoras buscavam artistas capazes de dialogar com um público mais amplo, Flora entra nesse novo momento já consagrada artisticamente, mas curiosa em explorar outras possibilidades de circulação e linguagem. Com produção feita pelo baterista Leon “Ndugu” Chancler, o disco é deliberadamente mais polido, denso e orientado ao groove. O som se afasta da atmosfera etérea e quase “cósmica” dos álbuns anteriores para se aproximar de uma estética que valoriza o pulso, o baixo elétrico bem definido, baterias secas e arranjos mais fechados. O repertório é muito bom, e as canções são todas bastante intimistas e até divertidas. No fim, é um trabalho bacana e subestimado. 

Melhores Faixas: Nothing Will Be As It Was (Nada Sera Como Antes), Fairy Tale Song 
Vale a Pena Ouvir: Angels, You Love Me Only

Encounter – Flora Purim





















NOTA: 8,2/10


Alguns meses depois, foi lançado outro disco da cantora intitulado Encounter, que é mais tradicional. Após o Nothing Will Be As It Was… Tomorrow, depois de uma tentativa que seguiu muitos contemporâneos que se voltaram para o Funk ou o R&B de maneira mais explícita, Flora escolhe outro caminho: o da intimidade, da escuta e do encontro musical propriamente dito. Fazendo, assim, um álbum contemplativo, às vezes até introspectivo, em que Flora parece interessada em explorar o espaço interno da música, e não sua projeção externa. Produção feita mais uma vez por Orrin Keepnews, colocou um som econômico e transparente. Em vez de camadas densas de teclados ou arranjos grandiosos, o álbum aposta em uma instrumentação que valoriza o espaço, a respiração e a interação entre os músicos, que não sobrecarregam os vocais melódicos e suaves da Flora. O repertório é muito bom, e as canções passam aquele clima de leveza. Enfim, é um disco bom e que foi mais intimista. 

Melhores Faixas: Black Narcissus, Above The Rainbow 
Vale a Pena Ouvir: Windows, Encounter

That's What She Said – Flora Purim





















NOTA: 8/10


E então outro ano se passou, e foi lançado mais um disco da Flora Purim, o That’s What She Said. Após o Encounter, Flora já era uma artista plenamente madura, mas inserida em um mercado musical em transformação. O final da década marca um período em que o Jazz Fusion, enquanto movimento de vanguarda, começa a perder centralidade cultural. As grandes gravadoras pressionam artistas a dialogar com formatos mais comerciais; com isso, este trabalho não é um retorno ao experimentalismo radical, nem uma rendição total ao Pop, mas um disco que tenta negociar identidade. A produção é aquela de sempre, mais direta, compacta e orientada à canção. A sonoridade é marcada por arranjos bem definidos, estruturas claras e uma preocupação evidente com acessibilidade, sem abandonar completamente o refinamento harmônico e rítmico do Jazz. O repertório é até legal, e as canções são bem imersivas. Enfim, é um álbum bacana e subestimado. 

Melhores Faixas: What Can I Say?, You On My Mind 
Vale a Pena Ouvir: Juicy, You Are My Heart

Humble People – Flora Purim & Airto Moreira





















NOTA: 8,3/10


Foi apenas em 1985 que Flora Purim retorna com um álbum que faria parte de uma série de trabalhos colaborativos com Airto Moreira, o Humble People. Após o That’s What She Said, como o Jazz Fusion já havia sido amplamente assimilado, o mercado estava dominado por produções digitais e uma estética mais limpa e menos aventureira. Ainda assim, o casal buscava um espaço de afirmação identitária, especialmente ligado às raízes brasileiras, à religiosidade difusa e a uma ideia de música como serviço e comunhão. Com produção feita inteiramente por Airto, o disco traz uma sonoridade variada; o som geral é mais suave, contemplativo e uniforme do que nos trabalhos anteriores. As dinâmicas são menos contrastantes, os arranjos evitam excessos e a música flui de forma contínua, quase meditativa, mostrando influências latinas e também do R&B e do Reggae. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas. No fim, é um ótimo disco que mostrou algo interessante. 

Melhores Faixas: Jogral, New Flora 
Vale a Pena Ouvir: Move It On Up, Bad Jive

The Magicians – Flora Purim & Airto





















NOTA: 8/10


No ano seguinte, foi lançado o 2º álbum colaborativo deles, intitulado The Magicians. Após o Humble People, que partia da humildade, da coletividade e de uma ética quase devocional, essa continuação desloca o olhar para a dimensão simbólica e ritual da criação musical. O título sugere não truques ou espetáculo, mas a ideia do músico como mediador entre forças invisíveis: ritmo, memória cultural e imaginação. Produção feita mais uma vez inteiramente por Airto Moreira, o disco apresenta uma presença clara de sintetizadores digitais, timbres processados e texturas eletrônicas; porém, esses elementos não são usados para criar impacto comercial. Eles funcionam como camadas atmosféricas, quase como névoa sonora, já que a presença de instrumentos tradicionais mantém o clima contemplativo, sobretudo na percussão e nos vocais contidos da Flora. O repertório é muito bom, e as canções são funcionais. Enfim, é um disco interessante e consistente. 

Melhores Faixas: Bird Of Paradise, Jump 
Vale a Pena Ouvir: The Magicians, Love Reborn, Jennifer
  

                                                                                   Então é isso e flw!!!              

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 1

                 

Flora É M.P.M. – Flora Purim





















NOTA: 8/10


Voltando para 1964, foi lançado o álbum de estreia de Flora Purim, o Flora É M.P.M.. A cantora carioca começou sua trajetória no início daquela década; vinda de um berço de pais músicos eruditos, ao entrar na fase adulta assinou com a RCA sob a sigla M.P.M. (Música Popular Moderna), que na época indicava um repertório inovador dentro da música popular brasileira, aproximando Bossa Nova, Samba e arranjos com nuances de Jazz. A produção, feita por Paulo Rocco e Roberto Jorge, é bastante representativa do cenário musical brasileiro do início dos anos 60, misturando arranjos sofisticados com elementos típicos da Bossa Nova, além de contar com um time de músicos extremamente requisitados, entre eles o baterista Dom Um Romão, que trouxe uma abordagem rítmica robusta ao projeto. O repertório é muito bom, e as canções são bem profundas. No fim, é um ótimo disco, apesar de não ser exatamente o caminho que ela seguiria posteriormente. 

Melhores Faixas: Samba Do Carioca, A Morte De Um Deus De Sal, Se Fosse Com Você, Reza 
Vale a Pena Ouvir: Maria Moita, Borandá, Definitivamente

Butterfly Dreams – Flora Purim





















NOTA: 9/10


Pulando para 1974, foi lançado seu 2º álbum de estúdio, intitulado Butterfly Dreams. Após Flora É M.P.M., ela deixou o Brasil em 1967 e foi morar nos Estados Unidos junto com seu marido, Airto Moreira, onde se inseriram na cena jazzística norte-americana e passaram pela primeira formação do Return to Forever. Com isso, este trabalho, lançado pela Milestone Records, apresenta uma cantora com bagagem musical já consolidada, seguindo referências que a acompanhavam desde a infância. A produção, feita por Orrin Keepnews, é refinada, cuidadosa e extremamente sensível às nuances sonoras. O álbum conta com um núcleo de músicos de altíssimo nível, muitos deles ligados ao Return to Forever e à vanguarda do Jazz da época, que fornecem uma base orgânica e permitem que os vocais variados de Flora brilhem, estabelecendo um equilíbrio entre Jazz Fusion e Vocal Jazz. O repertório é belíssimo, e as canções são bem imersivas. No fim, é um baita disco e bem tematizado. 

Melhores Faixas: Dindi, Love Reborn, Butterfly Dreams 
Vale a Pena Ouvir: Light As A Feather, Moon Dreams

Stories To Tell – Flora Purim





















NOTA: 9,4/10


No fim daquele mesmo ano, foi lançado outro trabalho fenomenal dela, o Stories to Tell. Após o Butterfly Dreams, que explorava a voz como um instrumento abstrato, frequentemente sem palavras, aqui Flora começa a organizar essa liberdade em “histórias”, como o próprio título sugere. É um disco que nasce do amadurecimento artístico e pessoal, quando ela já estava plenamente integrada à cena do Jazz Fusion internacional, mas começava a refletir sobre como estruturar essa linguagem sem perder profundidade. A produção, feita novamente por Orrin Keepnews, é mais polida e estruturada, mas ainda preserva uma sensação orgânica e respirada. O som é limpo, equilibrado e cuidadosamente espaçado, permitindo que cada instrumento tenha função clara dentro do arranjo, trazendo aquele clima intimista. O repertório é incrível, e as canções são suaves e aconchegantes. No geral, é um baita disco e um clássico. 

Melhores Faixas: Insensatez, Search For Peace, Casa Forte, Vera Cruz 
Vale a Pena Ouvir: To Say Goodbye, Stories To Tell

Open Your Eyes You Can Fly – Flora Purim





















NOTA: 8,3/10


Dois anos depois, foi lançado mais um trabalho da Flora Purim, o Open Your Eyes You Can Fly. Após o Stories to Tell, que buscava uma organização narrativa mais clara, este projeto representa a consolidação definitiva de sua identidade dentro do Jazz Fusion. Aqui, Flora não está mais explorando possibilidades ou testando limites: ela já domina completamente a linguagem que ajudou a criar, fazendo um álbum tecnicamente sofisticado, mas profundamente musical, que coloca a expressividade, o lirismo e o groove acima da demonstração pura de habilidade. A produção é relativamente a mesma, mas agora com um som mais polido, definido e, ao mesmo tempo, quente, permitindo que cada elemento do arranjo seja ouvido com clareza. Os arranjos são mais rítmicos e estruturados, mas ainda preservam espaços para respiração e improvisação. O repertório é muito bom, e as canções são mais sofisticadas. Em suma, é um ótimo álbum e mais amplo. 

Melhores Faixas: Open Your Eyes You Can Fly, Ina's Song (Trip To Bahia) / Transition 
Vale a Pena Ouvir: Medley: White Wing / Black Wing, Sometime Ago

                                                                               É isso, então flw!!!         

Analisando Discografias - Airto Moreira: Parte 2

                   

Fingers – Airto



















NOTA: 9/10


Outro ano se passou, e mais um trabalho foi lançado por Airto Moreira, intitulado Fingers. Após o Free, ele já não era apenas “o percussionista brasileiro que passou por Miles Davis, Weather Report e Return to Forever”, mas um artista plenamente consciente de sua identidade e do espaço que ocupava no Jazz contemporâneo. E a gravadora onde estava, a CTI, funcionava como uma espécie de ponte entre a sofisticação do Jazz, a força do groove elétrico e uma sonoridade refinada. A produção, feita por Creed Taylor, segue aquele lado luxuoso característico da gravadora, com um som amplo cristalino e extremamente detalhado, valorizando tanto a complexidade rítmica quanto a riqueza harmônica dos arranjos. O que impressiona é como a percussão assume um papel estrutural, e com isso se percebe uma fusão de Jazz Fusion com Baião e Samba-jazz. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas. No fim, é um ótimo disco e bem tematizado. 

Melhores Faixas: Merry-Go-Round, Parana, Fingers (El Rada) 
Vale a Pena Ouvir: Tombo In 7/4, Wind Chant

Virgin Land – Airto





















NOTA: 9,2/10


No ano de 1974, foi lançado outro disco magnífico de Airto Moreira, o Virgin Land. Após o Fingers, no qual havia alcançado um equilíbrio quase ideal entre sofisticação, groove e identidade brasileira, Airto decide ampliar ainda mais o escopo de sua música. O contexto era de total abertura criativa: o Jazz Fusion já havia rompido fronteiras formais, a CTI incentivava produções grandiosas, e Airto se encontrava plenamente integrado ao circuito internacional. A produção, feita pelo baterista Billy Cobham, apresenta um refinamento técnico impecável, com arranjos amplos, camadas densas e uma sonoridade majestosa. A presença de uma orquestra de cordas confere ao álbum um caráter épico, muitas vezes cinematográfico, sem apagar o papel central da percussão. Com isso, vemos uma junção do Jazz Fusion com Jazz-Funk e elementos latinos. O repertório é incrível, e as canções são todas bem dinâmicas. No fim, é um belo disco e ainda mais expressivo. 

Melhores Faixas: Lydian Riff, Musikana, Virgin Land 
Vale a Pena Ouvir: Stanley's Tune, Hot Sand

Identity – Airto





















NOTA: 8,3/10


Se passa mais um ano, e foi lançado mais um álbum do Airto Moreira, o Identity. Após o Virgin Land, ele decidiu buscar uma linguagem mais direta, urbana e fortemente conectada ao Funk, ao Soul e à estética do Jazz Fusion de meados dos anos 70. O contexto já era outro: aquela cena começava a se consolidar como linguagem dominante, o groove ganhava cada vez mais protagonismo e a música negra norte-americana exercia influência decisiva sobre o Jazz contemporâneo. A produção, feita por Herbie Hancock, coloca um som mais compacto e menos expansivo, aproximando-se de uma estética de Jazz Fusion com Funk. Os arranjos priorizam o groove contínuo, linhas de baixo marcantes, guitarras rítmicas e teclados elétricos, enquanto a percussão de Airto se integra ao conjunto de forma menos exibicionista e mais funcional. O repertório é muito bom, e as canções são bem envolventes e imersivas. No fim, é um ótimo trabalho e mais variado. 

Melhores Faixas: Encounter (Encontro No Bar), Tales From Home (Lendas) 
Vale a Pena Ouvir: Identify, Wake Up Song (Baião Do Acordar)/Café

Promises Of The Sun – Airto





















NOTA: 8,7/10


Mais um ano se passou, e foi lançado outro trabalho do Airto Moreira, intitulado Promises of the Sun. Após o Identity, que se aproximava de uma estética mais urbana, funkeada e elétrica, aqui essa linguagem é refinada e ganha maior coesão conceitual. Com o Jazz Fusion já dialogando com um lado mais black e sofisticado, Airto demonstra estar totalmente à vontade nesse ambiente. Ao mesmo tempo, ele não abandona a dimensão espiritual e cultural que sempre permeou sua obra. A produção, feita por ele próprio junto com sua esposa Flora Purim, é elegante e bem resolvida, com uma sonoridade limpa, direta e claramente orientada pelo groove. Os arranjos são mais enxutos, priorizando a interação entre baixo, bateria, teclados e percussão, enquanto os vocais dele e de Flora assumem um papel mais central, além de haver momentos que retomam o Samba. O repertório é muito bom, e as canções ficaram mais atmosféricas. No geral, é um trabalho bem interessante. 

Melhores Faixas: Promises Of The Sun, Ruas Do Recife, Circo Marimbondo 
Vale a Pena Ouvir: Zuei, Batucada

I'm Fine. How Are You? – Airto





















NOTA: 8,5/10


Indo para 1977, foi lançado outro trabalho de Airto Moreira, o I’m Fine. How Are You? (eu sei, capa brega). Após o Promises of the Sun, ele acabou saindo da CTI Records e assinou com a Warner Bros., simbolicamente marcando um novo momento estético. O Jazz Fusion já não era novidade: em meados dos anos 70, estava plenamente integrado à indústria musical, dialogando com o Funk, o Soul, o Pop sofisticado e até com o Soft Rock. Airto, sempre atento ao contexto, decide abraçar essa nova realidade sem abandonar suas raízes rítmicas e culturais. A produção é basicamente a mesma, mas agora mais polida e acessível. Os arranjos são bem definidos, e a percussão passa a atuar muito mais como elemento de integração do que como centro absoluto da narrativa musical, além dos vocais, que aparecem em momentos mais cadenciados. O repertório é ótimo, e as canções ficaram mais suaves e variadas. No fim, é um álbum muito bom e subestimado. 

Melhores Faixas: The Happy People, Celebration Suite, La Tumbadora 
Vale a Pena Ouvir: The Road Is Hard (But We're Going To), Meni Devol

Touching You...Touching Me – Airto





















NOTA: 8/10


No fim dos anos 70, foi lançado outro álbum do Airto Moreira, intitulado Touching You… Touching Me. Após o I’m Fine. How Are You?, Airto aprofunda aqui um caminho claramente orientado à canção, ao groove elegante e ao diálogo com o Pop sofisticado e a música adulta contemporânea do fim da década. Isso ocorre em um período no qual o Jazz Fusion já havia perdido parte de seu ímpeto criativo, tornando-se mais previsível. A produção, conduzida por ele ao lado de Bob Monaco, aposta em um som limpo e equilibrado, com grande atenção às texturas e à inteligibilidade das melodias. Os arranjos são cuidadosamente desenhados para favorecer a fluidez, com linhas de baixo bem definidas, teclados aveludados, guitarras discretas e uma seção rítmica que prioriza constância e elegância, além de uma percussão orientada ao groove e ao Funk. O repertório é interessante, e as canções ficaram bem mais envolventes. Enfim, é um disco bacana e mais acessível. 

Melhores Faixas: Move It On Up, Toque De Cuica 
Vale a Pena Ouvir: Tempos Altras (Dreams Are Real), Partido Alto, Tempos Altras (Dreams Are Real)

The Other Side Of This – Airto Moreira





















NOTA: 5/10


Indo agora para 1992, foi lançado um dos trabalhos mais fracos do Airto Moreira, o The Other Side of This. Após o Touching You… Touching Me, ele passou a focar em outros projetos, como, por exemplo, seus álbuns colaborativos com sua esposa Flora Purim (dos quais falaremos depois). Assim, ele entra nos anos 90 com uma postura diferente: menos preocupado com tendências de mercado e mais interessado em reafirmar uma identidade artística profunda, orgânica e espiritual. A produção, feita por Mickey Hart, privilegiou a naturalidade dos instrumentos, a dinâmica real das performances e a sensação de espaço. A percussão de Airto volta a ocupar um papel central, funcionando eixo estrutural e espiritual da música; além disso, há muitos elementos latinos, tribais e de world music, mas em excesso, soando por vezes confusos e arrastados. O repertório é mediano, com canções fracas e algumas interessantes. Enfim, é um trabalho irregular, marcando um tropeço. 

Melhores Faixas: Hey Ya, Dom-Um (A Good Friend), Tumbleweed, When Angels Cry 
Piores Faixas: Endless Cycle, Terra E Mar, Back Streets Of Havana, Old Man's Song

Aluê – Airto Moreira





















NOTA: 8/10


Foi apenas em 2017 que Airto Moreira retornou com um novo disco, intitulado Aluê. Após o The Other Side of This, depois de focar em outros projetos e não lançar material inédito por muitos anos, decidiu fazer um disco que servisse como celebração de mais de 50 anos de carreira do percussionista, integrando releituras de temas marcantes de sua trajetória com algumas composições inéditas. A produção, feita por Carlos Ezequiel, desta vez contou com uma formação inteiramente composta por músicos brasileiros. Aqui, a proposta é acolhedora e orgânica: som acústico e elétrico integrados, arranjos que priorizam o corpo e o sopro dos instrumentos, espaço para improvisos coletivos e diálogo entre gerações. Com isso, temos uma junção de Jazz Fusion, Samba-jazz, Baião e alguns elementos de Funk. O repertório é muito bom, e as canções são todas cheias de variação. No fim, é um disco bacana e honroso. 

Melhores Faixas: Lua Flora, I'm Fine, How Are You? 
Vale a Pena Ouvir: Aluê, Sea Horse

Eu Canto Assim – Airto Moreira





















NOTA: 8,4/10


Então chegamos a 2021, quando foi lançado seu último álbum até o momento, o Eu Canto Assim. Após o Aluê, Airto Moreira se propôs a fazer um trabalho voltado mais ao canto e à interpretação de repertório tradicional brasileiro, especialmente Samba-canção, Bolero e padrões clássicos da MPB, um terreno no qual Airto já havia transitado em seus primeiros anos de carreira. A produção, feita por Flora Purim, adota uma abordagem intimista, orgânica e centrada na voz de Airto, uma escolha estética que privilegia a interpretação e a nuance de cada canção, em vez de uma instrumentação vasta e elaborada. Com isso, temos uma base sólida com piano, contrabaixo e seção rítmica com percussão natural, proporcionando espaço para a voz e a interpretação de Airto, em contraste com a temática mais complexa de seus discos anteriores. O repertório é muito bom, e as canções são bem mais intimistas e profundas. No fim, é um ótimo trabalho e bem consistente. 

Melhores Faixas: As praias desertas, Canção que morre no ar 
Vale a Pena Ouvir: Ilusão à toa, Molambo, Canção dos olhos tristes

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Airto Moreira: Parte 1

                  

Natural Feelings – Airto





















NOTA: 9,3/10


No fim de 1970, Airto Moreira lançava seu 1º trabalho solo, intitulado Natural Feelings. O percussionista, natural de Itaiópolis, Santa Catarina, já mostrava que tinha muito talento desde os 13 anos e foi só quando se tornou adulto, nos anos 60, que montou vários grupos importantes para o nascimento do Samba-jazz. Quando chegou ao fim dessa década, ele se mudou para os Estados Unidos e passou a integrar a cena de Nova York, e, por ser um músico muito fora da curva, acabou assinando com a Buddah Records. A produção, conduzida por Bob Small e Gary McFarland, é crua, orgânica e profundamente sensorial. O som privilegia textura, ressonância e dinâmica, deixando a música respirar, e as participações de alguns músicos de confiança dão essa sensação de aconchego. As influências do Jazz Fusion estão presentes, só que misturadas com Samba. O repertório é incrível, e as canções são bem envolventes e dinâmicas. No geral, é um belo disco e mostrou algo promissor. 

Melhores Faixas: Alue, Frevo, Mixing, Bebe 
Vale a Pena Ouvir: Terror, The Tunnel

Seeds On The Ground - The Natural Sounds Of Airto – Airto





















NOTA: 9,6/10


No ano seguinte, foi lançado seu 2º álbum de estúdio, o sensacional Seeds On The Ground. Após o Natural Feelings, Airto já estava completamente inserido na vanguarda do Jazz Fusion. Ele havia participado de alguns projetos do Miles Davis, tocava com Chick Corea e Herbie Hancock e absorvia intensamente o clima de liberdade estética do início dos anos 70. Ao mesmo tempo, aprofundava sua conexão com as raízes brasileiras, não como referência estilística direta, mas como cosmovisão rítmica. A produção, feita por ele próprio junto com Tony May, é minimalista, crua e deliberadamente não polida. O som é aberto, com muito espaço para ressonância, silêncio e imperfeição. Aqui, Airto usa uma vasta gama de instrumentos de percussão, além de vocalizações livres, respirações, murmúrios e cantos sem palavras, o mesmo ocorrendo com Flora Purim. O repertório é incrível, e as canções são mais melódicas e atmosféricas. No fim, é um baita disco e um clássico. 

Melhores Faixas: O Sonho (Moon Dreams), O Galho Da Roseira (The Branches Of The Rose Tree), Andei (I Walked) 
Vale a Pena Ouvir: Papo Furado (Jive Talking), Uri (Wind)

Free – Airto





















NOTA: 8,5/10


Outro ano se passou, e foi lançado mais um álbum seu, intitulado Free, que buscou ser mais variado. Após o Seeds On The Ground, Airto já era um músico absolutamente central na cena do Jazz contemporâneo. Ele havia tocado com Miles Davis, integrava o universo do Return to Forever e já tinha passado pelo Weather Report. Ao mesmo tempo, o Jazz Fusion avançava rapidamente, e a CTI Records se consolidava como um selo que conciliava liberdade criativa com uma produção mais acessível. Nesse sentido, a produção, feita por Creed Taylor, é mais definida e encorpada do que nos trabalhos anteriores. O som continua orgânico, mas agora há um cuidado maior com balanço, presença e clareza dos instrumentos. A percussão segue central, porém integrada de forma mais explícita ao conjunto, desempenhando um papel duplo, textural e rítmico-funcional. O repertório contém cinco faixas mais cadenciadas. Em suma, é um ótimo disco, com uma proposta interessante. 

Melhores Faixas: Free, Return To Forever 
Vale a Pena Ouvir: Lucky Southern, Flora’s Song, Creek (Arroio)
  

                                                                             Então um abraço e flw!!!                

Analisando Discografias - Wayne Shorter: Parte 2

                 

Moto Grosso Feio – Wayne Shorter





















NOTA: 8/10


Três anos depois, foi lançado mais um trabalho novo de Wayne Shorter, o Moto Grosso Feio. Após o Odyssey Of Iska, decidiu-se resgatar um material feito antes do álbum anterior, em um período em que Shorter já havia deixado definitivamente o quinteto do Miles Davis e se encontrava em plena reconfiguração estética, explorando caminhos que não pertenciam mais nem ao Post-Bop nem ao Jazz Fusion plenamente estruturado que começaria a dominar sua produção logo em seguida. Falando nisso, a produção de Duke Pearson deixou um som aberto e pouco polido, privilegiando a interação espontânea entre os músicos. Com um elenco que novamente contou com nomes daquela cena elétrica, cada um mostra aqui um lado mais econômico, assim como o próprio Shorter em seus saxes, evidenciando uma abordagem voltada ao Spiritual Jazz. O repertório contém 5 faixas, mais caóticas e energéticas. No fim, é um disco bacana e mais explosivo. 

Melhores Faixas: Antiqua, Iska 
Vale a Pena Ouvir: Vera Cruz, Montezuma, Mato Grosso Feio

Native Dancer – Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento





















NOTA: 8,9/10


No ano seguinte, Wayne Shorter retorna com mais um disco interessante, o Native Dancer. Após o Moto Grosso Feio, Shorter havia recém-saído da Blue Note e entrado na Columbia, chegando aqui a um ponto de inflexão: a experimentação abstrata dá lugar a uma música mais comunicativa. Ele, que já vinha demonstrando interesse por melodias não anglo-saxônicas, vê esse interesse se concretizar de maneira orgânica graças à colaboração com Milton Nascimento, que atua não apenas como convidado, mas como coautor espiritual do disco. A produção, feita por Jim Price, é notavelmente clara e aberta, refletindo a intenção de valorizar tanto a improvisação quanto a canção. Wayne Shorter alterna sax tenor e soprano com extrema contenção e sensibilidade, e a voz do Milton é transcendente, não é à toa que foi chamada de “voz de Deus”. O repertório é ótimo, com canções suaves e cheias de profundidade. No final, é um ótimo disco, que revelou uma parceria fenomenal. 

Melhores Faixas: Ponta De Areia, Lilia, Diana, Beauty And The Beast 
Vale a Pena Ouvir: Ana Maria, Tarde

The Soothsayer – Wayne Shorter





















NOTA: 8,3/10


Quatro anos se passaram e foi resgatado um material inédito de 1965 de Wayne Shorter, intitulado The Soothsayer. Após o Native Dancer, a Blue Note resgatou esse material, gravado após o lançamento do clássico Speak No Evil, e nesse trabalho ele mergulha em um clima mais sombrio, denso e introspectivo. Aqui, Shorter parece menos interessado em elegância formal e mais focado em criar tensões emocionais e harmônicas prolongadas. Produção feita por Alfred Lion, é sóbria e extremamente eficaz. O som é escuro e levemente opressivo, reforçando o clima introspectivo das composições. A formação é a mesma dos trabalhos mais conhecidos do saxofonista, criando uma sensação de proximidade quase claustrofóbica entre os instrumentos, o que intensifica o caráter dramático das peças, fazendo um cruzamento entre o Post-Bop e o Jazz modal. O repertório é muito bom, e as canções são bem envolventes. No fim, é um disco interessante e bastante intimista. 

Melhores Faixas: The Big Push, The Soothsayer 
Vale a Pena Ouvir: Angola

Etcetera – Wayne Shorter





















NOTA: 8,5/10


E aí, no ano seguinte, foi lançado mais um material inédito dessa mesma época, o Etcetera. Após o The Soothsayer, esse trabalho surge no mesmo período de álbuns impressionantes como líder, como Juju e Speak No Evil. Esse projeto aparece exatamente entre esses trabalhos, funcionando como uma espécie de caderno de ideias refinadas, no qual Shorter investiga soluções harmônicas e narrativas com ainda mais economia. A produção, feita por Alfred Lion, é marcada por sobriedade e clareza absoluta. O som é limpo, íntimo e profundamente equilibrado, sem exageros de dinâmica ou densidade. Cada instrumento ocupa seu espaço com precisão cirúrgica, criando uma sensação de diálogo constante e respeito mútuo. O trio composto por Herbie Hancock no piano, Cecil McBee no contrabaixo e Joe Chambers na bateria forma a base para os solos expressivos do sax de Shorter. O repertório contém 5 faixas bem variadas. No final, é um disco bacana e mais contido. 

Melhores Faixas: Barracudas, Penelope 
Vale a Pena Ouvir: Toy Tune, Indian Song, Etcetera

Alegría – Wayne Shorter





















NOTA: 6/10


Então chegamos a 2002, quando foi lançado o seu último álbum intitulado Alegría. Após o Etcetera, o saxofonista acabou participando de alguns outros projetos e, nesse período, havia montado um quarteto com Danilo Pérez (piano), John Patitucci (baixo) e Brian Blade (bateria), que culminou no álbum ao vivo Footprints. Para esse disco, a música já não se organiza em torno de estruturas tradicionais, mas sim de narrativas abertas, memória, reapresentação e deslocamento. A produção, feita por Robert Sadin e lançada pelo selo Verve, é austera e profundamente elegante. O som é limpo, com grande atenção à ressonância e à interação entre os músicos. Com uma estética mais orientada ao Jazz de câmara, já que apresenta estruturas mais refinadas e tradicionais, o álbum soa bastante arrastado. O repertório é até bom, mas as reinterpretações são irregulares. No fim, é um disco mediano e que acabou funcionando como uma despedida após seu falecimento em 2023. 

Melhores Faixas: Serenata, Orbits, Bachianas Brasileiras No. 5 
Vale a Pena Ouvir: Capricorn II, Angola, She Moves Through The Fair


Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 2

                  Nothing Will Be As It Was...Tomorrow – Flora Purim NOTA: 8 /10 No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho novo da Flora...