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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Analisando Discografias - Belchior: Parte 2

                 

Cenas Do Próximo Capítulo – Belchior





















NOTA: 5/10


Quatro anos se passaram até que Belchior retornasse com mais um disco, o Cenas do Próximo Capítulo. Após o Paraíso, o cantor buscava novas liberdades estéticas e maior controle sobre sua obra. Com isso, ele estava com o caminho livre e pôde lançar seu próximo trabalho de forma independente, explorando um caminho bem mais experimental, conectado às tendências de fora do Brasil. A produção, conduzida pelo cantor junto com Dino Vicente e Ivo de Carvalho, mistura arranjos enxutos com leves experimentações eletrônicas e elementos de Forró e Folk, refletindo tanto a herança nordestina quanto a curiosidade por timbres urbanos e eletrônicos, como, por exemplo, os da New Wave, apesar de apresentar momentos irregulares e falta de dinâmica. O repertório é mediano: tem canções boas e outras bem esquisitas. Enfim, é um trabalho fraco e bastante esquecível. 

Melhores Faixas: O Negócio É O Seguinte, Ouro De Tolo (ótimo cover da música do Raul Seixas), Onde Jaz Meu Coração 
Piores Faixas: Beijo Molhado, Canção De Gesta De Um Trovador Eletrônico, Rock-Romance De Um Robô Goliardo

Melodrama – Belchior





















NOTA: 6/10


No ano seguinte, ele retorna lançando mais um trabalho novo, intitulado Melodrama. Após o Cenas do Próximo Capítulo, que mostrava um Belchior cada vez mais distante do pessoal da MPB e, de certo modo, chegando até um pouco perto do Rock nacional dos anos 80, este trabalho emerge como uma tentativa de reposicionamento estético, de experimentação com texturas mais urbanas e contemporâneas, sem abandonar a densidade poética característica dele, além de marcar seu retorno a uma grande gravadora, a Philips. A produção foi feita por Antônio Foguete, que buscou um equilíbrio entre sofisticação instrumental e os recursos contemporâneos disponíveis nos estúdios dos anos 80, com arranjos elaborados e uma dinâmica até convincente, apesar de alguns momentos previsíveis. O repertório é irregular, com boas canções e outras genéricas. Em suma, é um trabalho mediano, que careceu de maior complementação. 

Melhores Faixas: De Primeira Grandeza, Tocando Por Música, Em Resposta A Carta De Fã
Piores Faixas: Lua Zen, Bucaneira, Os Derradeiros Moicanos, Jornal Blues

Elogio Da Loucura – Belchior





















NOTA: 4/10


Em 1988, mais uma vez Belchior retorna com um disco novo, o Elogio da Loucura (parecendo capa de álbum do Amado Batista). Após o Melodrama, o cantor voltou rapidamente ao estúdio, mantendo seu lirismo e densidade poética, mas dialogando com timbres mais contemporâneos, sem sucumbir totalmente às fórmulas comerciais dos anos 80, às quais ele não aderiu em nenhum momento. A produção foi praticamente a mesma, adotando uma sonoridade que dialoga com o Pop da década, mas sem abandonar a densidade de sua poesia. Ou seja, há presença de teclados, efeitos e ambientações que remetem à década, embora tudo soe um tanto apático e faltem novamente momentos mais dinâmicos, mostrando muita previsibilidade. O repertório desta vez é ruim, e as canções são medíocres, com poucas se salvando. Em suma, é um trabalho fraquíssimo, que representou um tropeço. 

Melhores Faixas: Recitanda, No Maior Jazz, Elegia Obscena 
Piores Faixas: Tambor Tantã, Os Profissionais, Amor De Perdição, Kitsch Metropolitanus

Divina Comédia Humana – Belchior





















NOTA: 8,5/10


Pulando para 1991, Belchior retorna lançando um álbum de regravações, intitulado Divina Comédia Humana. Após o Elogio da Loucura, o cantor quis fazer um registro de reinterpretação de seus próprios sucessos, em arranjos mais simples de voz, violão e guitarra, oferecendo uma espécie de “volta às origens” ou reavaliação intimista do repertório. Até porque a fase dos anos 80 não foi muito fácil para sua carreira, além de ele ter se afastado da grande mídia. A produção foi feita por ele próprio, com os arranjos elaborados por Fernando Melo e Luiz Bueno, trazendo uma sonoridade leve e intimista, que remete aos seus tempos mais antigos, nos anos 70, com muita influência da MPB e do Folk contemporâneo, em um som atmosférico e, de certo modo, bem temático. O repertório é ótimo, e as canções são todas bem reinterpretadas e carregadas de emoção. Enfim, é um bom disco e coeso. 

Melhores Faixas: Divina Comédia Humana, Apenas Um Rapaz Latino-Americano, Galos, Noites E Quintais, Na Hora do Almoço 
Vale a Pena Ouvir: Paralelas, Como Nossos Pais, Fotografia 3x4

Vício Elegante – Belchior





















NOTA: 4,2/10


Então chegamos ao que foi praticamente o último álbum de Belchior, o Vício Elegante. Após o Divina Comédia Humana, ele decidiu lançar esse trabalho como um gesto de reaproximação com o público, ao mesmo tempo em que assume uma postura de intérprete, revisitando repertórios alheios e gravando uma canção inédita, já que naquele período estava mais focado em seus shows e em algumas aparições esporádicas. A produção foi conduzida, como sempre, por ele mesmo, resultando em uma sonoridade bem mais ampla que respeita os arranjos originais, mas com influências que vão desde a MPB, Pop Rock e Reggae até elementos de Tango, por incrível que pareça. No entanto, o repertório, apesar de interessante, tem poucos momentos memoráveis e apresenta interpretações bastante frágeis. Após isso, Belchior acabou se afastando, chegando a desaparecer duas vezes, até que veio a falecer em 2017. É uma pena que seu álbum de despedida tenha sido tão apático. 

Melhores Faixas: Almanaque, Chame Do Mundo, Paixão, Aliás 
Piores Faixas: Esquadros, Eternamente, Táxi Boy (Garoto de Aluguel), Aparências, Panis Angelicus
  

domingo, 12 de outubro de 2025

Analisando Discografias - Belchior: Parte 1

                 

Belchior – Belchior





















NOTA: 9,8/10


Indo lá para 1974, Belchior lançava seu maravilhoso álbum de estreia autointitulado. O nosso querido Antônio Carlos Belchior, vindo de Sobral, no interior do Ceará, já havia conquistado certo reconhecimento em festivais universitários e programas de calouros, especialmente após vencer o IV Festival Universitário da Música Brasileira, em 1971, com uma certa música. Nesse período, foi formado um coletivo chamado Pessoal do Ceará, que contava com ele, Fagner, Ednardo e Amelinha. Com isso, ele teve a oportunidade de gravar seu álbum pela Chantecler. A produção, feita pelo cantor junto com Sidney Morais, foi relativamente simples e direta. O som é predominantemente acústico, com arranjos centrados em violões, percussões leves, sopros ocasionais e uma instrumentação enxuta que realça a voz e a palavra, lembrando influências do folk. O repertório é incrível, e as canções são todas bem profundas. No final, é um belo álbum de estreia e um clássico. 

Melhores Faixas: Na Hora Do Almoço (a música que ele venceu o festival), Mote E Glosa, Passeio, A Palo Seco, Senhor Dono Da Casa 
Vale a Pena Ouvir: Rodagem, Cemitério, Todo Sujo De Batom

Alucinação – Belchior





















NOTA: 10/10


Dois anos depois, Belchior lançou o atemporal e clássico 2º álbum dele, o Alucinação. Após o álbum de 1974, que foi um tanto ignorado na época, Belchior passou por um período de incertezas artísticas e pessoais. Com isso, ele passou a colaborar mais com Fagner, Ednardo e Amelinha. Estava, como sabemos, no período da ditadura militar, e havia uma juventude ansiosa por novas linguagens artísticas que refletissem as contradições do momento. O cantor, já amadurecido, decidiu então escrever letras críticas e confessionais. A produção, feita por Marco Mazzola e lançada pela PolyGram, soube dar forma à sonoridade única de Belchior. O resultado é um disco que mescla Folk, Rock, MPB e Blues, com arranjos sóbrios, mas cheios de nuances, incluindo guitarras elétricas, teclados e percussões discretas que situam o som num ambiente contemporâneo. O repertório é sensacional, é praticamente uma coletânea. Enfim, é uma obra-prima e um dos melhores álbuns da música brasileira. 

Melhores Faixas: Apenas Um Rapaz Latino Americano, Sujeito De Sorte, Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, Alucinação, Fotografia 3x4 
Vale a Pena Ouvir: A Palo Seco, Não Leve Flores

Coração Selvagem – Belchior





















NOTA: 9,7/10


No ano seguinte, foi lançado o seu 3º álbum, o Coração Selvagem, que trouxe coisas novas. Após o clássico Alucinação, Belchior se viu numa posição ambígua: finalmente reconhecido nacionalmente, mas também pressionado a repetir o impacto artístico do disco anterior. Em meio a essa fama repentina, o artista sentia a necessidade de reafirmar sua autenticidade, e fugir da armadilha de ser apenas um porta-voz de uma geração desencantada. A produção foi feita novamente por Marco Mazzola, que trouxe um som mais elaborado e polido do que o anterior, com maior presença de instrumentos elétricos, teclados e arranjos orquestrais sutis. Há uma busca por um equilíbrio entre o violão característico do cantor e uma instrumentação mais rica, que abre espaço para camadas melódicas transitando entre Folk, Soft Rock e, claro, MPB. O repertório é ótimo, e as canções são belíssimas e todas cheias de sentimento. Enfim, é outro disco incrível, que mostrava sua versatilidade. 

Melhores Faixas: Coração Selvagem, Pequeno Mapa Do Tempo, Paralelas, Todo Sujo De Baton, Carisma 
Vale a Pena Ouvir: Populus, Caso Comum De Trânsito

Todos Os Sentidos – Belchior





















NOTA: 8/10


Indo para 1978, foi lançado mais um álbum dele, o Todos os Sentidos, que tentou ser mais modernizado. Após o Coração Selvagem, esse novo disco aparece num período em que o artista vinha alternando reflexões existenciais e canções mais próximas do cotidiano, e ao mesmo tempo experimentando arranjos com maior variedade tímbrica para ampliar o alcance sonoro de suas letras, além de entrar nas tendências que viriam a se tornar padrão no início dos anos 80. A produção foi feita, como sempre, por Marco Mazzola, e equilibrava a economia instrumental característica das obras autorais do cantor com pequenas ambições de textura: há violões e voz em evidência, mas também percussões e sintetizadores, até porque quem arranjou isso aqui foi Lincoln Olivetti, então há algumas influências de Disco e Soft Rock. O repertório é até interessante, tendo ótimas canções e outras bem descartáveis. No geral, é um trabalho bom, apesar de ter algumas falhas. 

Melhores Faixas: Divina Comédia Humana, Como Se Fosse Marcado, Sensual 
Piores Faixas: Ter Ou Não Ter, Corpos Terrestres, Até à Manhã

Era Uma Vez Um Homem E O Seu Tempo – Belchior





















NOTA: 10/10


Entrando no final dos anos 70, foi lançado outro álbum fenomenal, o Era uma Vez um Homem e o Seu Tempo. Após o Todos os Sentidos, àquela altura, havia uma expectativa de que Belchior mantivesse a força poética, a densidade existencial e o equilíbrio entre reflexão e melodia que vinham sendo sua marca, e quem sabe retornasse à sonoridade que o consolidou. Vale lembrar que, nesse período, ele ainda estava com uma grande gravadora, a Warner, já pelos seus últimos dois trabalhos. A produção, feita por Guti Carvalho, é bem refinada e bastante melódica, com uma sonoridade que realça a voz e o violão de Belchior, tudo isso transitando entre MPB e Folk Rock, de forma bem pacífica e com arranjos intimistas. Lincoln Olivetti e Robson Jorge também participaram da produção, mas, no geral, tudo é bem consistente. O repertório é maravilhoso, e as canções são belíssimas e profundas. Em suma, é um baita disco e mais uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Tudo Outra Vez, Mêdo De Avião, Comentário A Respeito De John, Espacial, Brasileiramente Linda, Retórica Sentimental 
Vale a Pena Ouvir: Meu Cordial Brasileiro, Pequeno Perfil De Um Cidadão Comum

Objeto Direto – Belchior





















NOTA: 4/10


Entrando nos anos 80, Belchior lançava seu 6º álbum de estúdio, o Objeto Direto. Após o Era uma Vez um Homem e o Seu Tempo, Belchior mostrava que sua discografia vinha demonstrando uma evolução poética e sonora contínua, e ele se colocava numa encruzilhada: manter sua identidade literária forte sem deixar de atender às demandas de produção do mercado musical que evoluía, já que a maioria dos medalhões da MPB teve de se adaptar à pasteurização sonora para poder tocar nas rádios. A produção, conduzida novamente por Guti Carvalho, tentou dar equilíbrio à sonoridade mais refinada que caracterizava os últimos trabalhos. Com isso, tudo é mais polido, chegando a flertar com um lado quase progressivo em alguns momentos, mas deixando também muitas irregularidades, principalmente na questão do ritmo. O repertório é fraco, com canções pouco inspiradas e apenas algumas interessantes. No geral, é um trabalho irregular e com pouca coesão. 

Melhores Faixas: Objeto Direto, Ypê, Seixo Rolado 
Piores Faixas: Jóia De Jade, Mucuripe, Cuidar do Homem

Paraíso – Belchior





















NOTA: 6/10


Se passaram dois anos para o Belchior retorna com outro disco bem fraquinho, o Paraíso. Após o Objeto Direto, ele começou meio que revisitar sua produção, relendo temas, trabalhando com arranjos menos “riscados” e investindo em alguma leveza melódica sem claro, abandonar seu viés introspectivo. Até porque ele não tava querendo fazer parte das tendências que solavam a música brasileira naquele período ficando assim bem reservado até mesmo para o show business. Produção foi aquela de sempre, foi como sempre bem refinada so que indo para um caminho bem mais orgânico e quente, indo para um lado que mergulhava bem mais naquela essência que foi a MPB na década anterior, só que com elementos modernos como sintetizadores e guitarras elétricas, mas com muitas irregularidades e com um som bem previsível. O repertório é bem mediano, tem canções legais e outras bem sem energia. No geral, é um trabalho irregular e faltando complemento. 

Melhores Faixas: Má, Ela, Bela 
Piores Faixas: Paraíso, Monólogo Das Grandezas Do Brasil, Rima Da Prosa


        Então é isso, um abraço e flw!!!              

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