domingo, 8 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Airto Moreira: Parte 2

                   

Fingers – Airto



















NOTA: 9/10


Outro ano se passou, e mais um trabalho foi lançado por Airto Moreira, intitulado Fingers. Após o Free, ele já não era apenas “o percussionista brasileiro que passou por Miles Davis, Weather Report e Return to Forever”, mas um artista plenamente consciente de sua identidade e do espaço que ocupava no Jazz contemporâneo. E a gravadora onde estava, a CTI, funcionava como uma espécie de ponte entre a sofisticação do Jazz, a força do groove elétrico e uma sonoridade refinada. A produção, feita por Creed Taylor, segue aquele lado luxuoso característico da gravadora, com um som amplo cristalino e extremamente detalhado, valorizando tanto a complexidade rítmica quanto a riqueza harmônica dos arranjos. O que impressiona é como a percussão assume um papel estrutural, e com isso se percebe uma fusão de Jazz Fusion com Baião e Samba-jazz. O repertório é muito bom, e as canções são bem divertidas. No fim, é um ótimo disco e bem tematizado. 

Melhores Faixas: Merry-Go-Round, Parana, Fingers (El Rada) 
Vale a Pena Ouvir: Tombo In 7/4, Wind Chant

Virgin Land – Airto





















NOTA: 9,2/10


No ano de 1974, foi lançado outro disco magnífico de Airto Moreira, o Virgin Land. Após o Fingers, no qual havia alcançado um equilíbrio quase ideal entre sofisticação, groove e identidade brasileira, Airto decide ampliar ainda mais o escopo de sua música. O contexto era de total abertura criativa: o Jazz Fusion já havia rompido fronteiras formais, a CTI incentivava produções grandiosas, e Airto se encontrava plenamente integrado ao circuito internacional. A produção, feita pelo baterista Billy Cobham, apresenta um refinamento técnico impecável, com arranjos amplos, camadas densas e uma sonoridade majestosa. A presença de uma orquestra de cordas confere ao álbum um caráter épico, muitas vezes cinematográfico, sem apagar o papel central da percussão. Com isso, vemos uma junção do Jazz Fusion com Jazz-Funk e elementos latinos. O repertório é incrível, e as canções são todas bem dinâmicas. No fim, é um belo disco e ainda mais expressivo. 

Melhores Faixas: Lydian Riff, Musikana, Virgin Land 
Vale a Pena Ouvir: Stanley's Tune, Hot Sand

Identity – Airto





















NOTA: 8,3/10


Se passa mais um ano, e foi lançado mais um álbum do Airto Moreira, o Identity. Após o Virgin Land, ele decidiu buscar uma linguagem mais direta, urbana e fortemente conectada ao Funk, ao Soul e à estética do Jazz Fusion de meados dos anos 70. O contexto já era outro: aquela cena começava a se consolidar como linguagem dominante, o groove ganhava cada vez mais protagonismo e a música negra norte-americana exercia influência decisiva sobre o Jazz contemporâneo. A produção, feita por Herbie Hancock, coloca um som mais compacto e menos expansivo, aproximando-se de uma estética de Jazz Fusion com Funk. Os arranjos priorizam o groove contínuo, linhas de baixo marcantes, guitarras rítmicas e teclados elétricos, enquanto a percussão de Airto se integra ao conjunto de forma menos exibicionista e mais funcional. O repertório é muito bom, e as canções são bem envolventes e imersivas. No fim, é um ótimo trabalho e mais variado. 

Melhores Faixas: Encounter (Encontro No Bar), Tales From Home (Lendas) 
Vale a Pena Ouvir: Identify, Wake Up Song (Baião Do Acordar)/Café

Promises Of The Sun – Airto





















NOTA: 8,7/10


Mais um ano se passou, e foi lançado outro trabalho do Airto Moreira, intitulado Promises of the Sun. Após o Identity, que se aproximava de uma estética mais urbana, funkeada e elétrica, aqui essa linguagem é refinada e ganha maior coesão conceitual. Com o Jazz Fusion já dialogando com um lado mais black e sofisticado, Airto demonstra estar totalmente à vontade nesse ambiente. Ao mesmo tempo, ele não abandona a dimensão espiritual e cultural que sempre permeou sua obra. A produção, feita por ele próprio junto com sua esposa Flora Purim, é elegante e bem resolvida, com uma sonoridade limpa, direta e claramente orientada pelo groove. Os arranjos são mais enxutos, priorizando a interação entre baixo, bateria, teclados e percussão, enquanto os vocais dele e de Flora assumem um papel mais central, além de haver momentos que retomam o Samba. O repertório é muito bom, e as canções ficaram mais atmosféricas. No geral, é um trabalho bem interessante. 

Melhores Faixas: Promises Of The Sun, Ruas Do Recife, Circo Marimbondo 
Vale a Pena Ouvir: Zuei, Batucada

I'm Fine. How Are You? – Airto





















NOTA: 8,5/10


Indo para 1977, foi lançado outro trabalho de Airto Moreira, o I’m Fine. How Are You? (eu sei, capa brega). Após o Promises of the Sun, ele acabou saindo da CTI Records e assinou com a Warner Bros., simbolicamente marcando um novo momento estético. O Jazz Fusion já não era novidade: em meados dos anos 70, estava plenamente integrado à indústria musical, dialogando com o Funk, o Soul, o Pop sofisticado e até com o Soft Rock. Airto, sempre atento ao contexto, decide abraçar essa nova realidade sem abandonar suas raízes rítmicas e culturais. A produção é basicamente a mesma, mas agora mais polida e acessível. Os arranjos são bem definidos, e a percussão passa a atuar muito mais como elemento de integração do que como centro absoluto da narrativa musical, além dos vocais, que aparecem em momentos mais cadenciados. O repertório é ótimo, e as canções ficaram mais suaves e variadas. No fim, é um álbum muito bom e subestimado. 

Melhores Faixas: The Happy People, Celebration Suite, La Tumbadora 
Vale a Pena Ouvir: The Road Is Hard (But We're Going To), Meni Devol

Touching You...Touching Me – Airto





















NOTA: 8/10


No fim dos anos 70, foi lançado outro álbum do Airto Moreira, intitulado Touching You… Touching Me. Após o I’m Fine. How Are You?, Airto aprofunda aqui um caminho claramente orientado à canção, ao groove elegante e ao diálogo com o Pop sofisticado e a música adulta contemporânea do fim da década. Isso ocorre em um período no qual o Jazz Fusion já havia perdido parte de seu ímpeto criativo, tornando-se mais previsível. A produção, conduzida por ele ao lado de Bob Monaco, aposta em um som limpo e equilibrado, com grande atenção às texturas e à inteligibilidade das melodias. Os arranjos são cuidadosamente desenhados para favorecer a fluidez, com linhas de baixo bem definidas, teclados aveludados, guitarras discretas e uma seção rítmica que prioriza constância e elegância, além de uma percussão orientada ao groove e ao Funk. O repertório é interessante, e as canções ficaram bem mais envolventes. Enfim, é um disco bacana e mais acessível. 

Melhores Faixas: Move It On Up, Toque De Cuica 
Vale a Pena Ouvir: Tempos Altras (Dreams Are Real), Partido Alto, Tempos Altras (Dreams Are Real)

The Other Side Of This – Airto Moreira





















NOTA: 5/10


Indo agora para 1992, foi lançado um dos trabalhos mais fracos do Airto Moreira, o The Other Side of This. Após o Touching You… Touching Me, ele passou a focar em outros projetos, como, por exemplo, seus álbuns colaborativos com sua esposa Flora Purim (dos quais falaremos depois). Assim, ele entra nos anos 90 com uma postura diferente: menos preocupado com tendências de mercado e mais interessado em reafirmar uma identidade artística profunda, orgânica e espiritual. A produção, feita por Mickey Hart, privilegiou a naturalidade dos instrumentos, a dinâmica real das performances e a sensação de espaço. A percussão de Airto volta a ocupar um papel central, funcionando eixo estrutural e espiritual da música; além disso, há muitos elementos latinos, tribais e de world music, mas em excesso, soando por vezes confusos e arrastados. O repertório é mediano, com canções fracas e algumas interessantes. Enfim, é um trabalho irregular, marcando um tropeço. 

Melhores Faixas: Hey Ya, Dom-Um (A Good Friend), Tumbleweed, When Angels Cry 
Piores Faixas: Endless Cycle, Terra E Mar, Back Streets Of Havana, Old Man's Song

Aluê – Airto Moreira





















NOTA: 8/10


Foi apenas em 2017 que Airto Moreira retornou com um novo disco, intitulado Aluê. Após o The Other Side of This, depois de focar em outros projetos e não lançar material inédito por muitos anos, decidiu fazer um disco que servisse como celebração de mais de 50 anos de carreira do percussionista, integrando releituras de temas marcantes de sua trajetória com algumas composições inéditas. A produção, feita por Carlos Ezequiel, desta vez contou com uma formação inteiramente composta por músicos brasileiros. Aqui, a proposta é acolhedora e orgânica: som acústico e elétrico integrados, arranjos que priorizam o corpo e o sopro dos instrumentos, espaço para improvisos coletivos e diálogo entre gerações. Com isso, temos uma junção de Jazz Fusion, Samba-jazz, Baião e alguns elementos de Funk. O repertório é muito bom, e as canções são todas cheias de variação. No fim, é um disco bacana e honroso. 

Melhores Faixas: Lua Flora, I'm Fine, How Are You? 
Vale a Pena Ouvir: Aluê, Sea Horse

Eu Canto Assim – Airto Moreira





















NOTA: 8,4/10


Então chegamos a 2021, quando foi lançado seu último álbum até o momento, o Eu Canto Assim. Após o Aluê, Airto Moreira se propôs a fazer um trabalho voltado mais ao canto e à interpretação de repertório tradicional brasileiro, especialmente Samba-canção, Bolero e padrões clássicos da MPB, um terreno no qual Airto já havia transitado em seus primeiros anos de carreira. A produção, feita por Flora Purim, adota uma abordagem intimista, orgânica e centrada na voz de Airto, uma escolha estética que privilegia a interpretação e a nuance de cada canção, em vez de uma instrumentação vasta e elaborada. Com isso, temos uma base sólida com piano, contrabaixo e seção rítmica com percussão natural, proporcionando espaço para a voz e a interpretação de Airto, em contraste com a temática mais complexa de seus discos anteriores. O repertório é muito bom, e as canções são bem mais intimistas e profundas. No fim, é um ótimo trabalho e bem consistente. 

Melhores Faixas: As praias desertas, Canção que morre no ar 
Vale a Pena Ouvir: Ilusão à toa, Molambo, Canção dos olhos tristes

 

Analisando Discografias - Flora Purim: Parte 2

                  Nothing Will Be As It Was...Tomorrow – Flora Purim NOTA: 8 /10 No ano seguinte, foi lançado mais um trabalho novo da Flora...