sábado, 7 de fevereiro de 2026

Analisando Discografias - Wayne Shorter: Parte 2

                 

Moto Grosso Feio – Wayne Shorter





















NOTA: 8/10


Três anos depois, foi lançado mais um trabalho novo de Wayne Shorter, o Moto Grosso Feio. Após o Odyssey Of Iska, decidiu-se resgatar um material feito antes do álbum anterior, em um período em que Shorter já havia deixado definitivamente o quinteto do Miles Davis e se encontrava em plena reconfiguração estética, explorando caminhos que não pertenciam mais nem ao Post-Bop nem ao Jazz Fusion plenamente estruturado que começaria a dominar sua produção logo em seguida. Falando nisso, a produção de Duke Pearson deixou um som aberto e pouco polido, privilegiando a interação espontânea entre os músicos. Com um elenco que novamente contou com nomes daquela cena elétrica, cada um mostra aqui um lado mais econômico, assim como o próprio Shorter em seus saxes, evidenciando uma abordagem voltada ao Spiritual Jazz. O repertório contém 5 faixas, mais caóticas e energéticas. No fim, é um disco bacana e mais explosivo. 

Melhores Faixas: Antiqua, Iska 
Vale a Pena Ouvir: Vera Cruz, Montezuma, Mato Grosso Feio

Native Dancer – Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento





















NOTA: 8,9/10


No ano seguinte, Wayne Shorter retorna com mais um disco interessante, o Native Dancer. Após o Moto Grosso Feio, Shorter havia recém-saído da Blue Note e entrado na Columbia, chegando aqui a um ponto de inflexão: a experimentação abstrata dá lugar a uma música mais comunicativa. Ele, que já vinha demonstrando interesse por melodias não anglo-saxônicas, vê esse interesse se concretizar de maneira orgânica graças à colaboração com Milton Nascimento, que atua não apenas como convidado, mas como coautor espiritual do disco. A produção, feita por Jim Price, é notavelmente clara e aberta, refletindo a intenção de valorizar tanto a improvisação quanto a canção. Wayne Shorter alterna sax tenor e soprano com extrema contenção e sensibilidade, e a voz do Milton é transcendente, não é à toa que foi chamada de “voz de Deus”. O repertório é ótimo, com canções suaves e cheias de profundidade. No final, é um ótimo disco, que revelou uma parceria fenomenal. 

Melhores Faixas: Ponta De Areia, Lilia, Diana, Beauty And The Beast 
Vale a Pena Ouvir: Ana Maria, Tarde

The Soothsayer – Wayne Shorter





















NOTA: 8,3/10


Quatro anos se passaram e foi resgatado um material inédito de 1965 de Wayne Shorter, intitulado The Soothsayer. Após o Native Dancer, a Blue Note resgatou esse material, gravado após o lançamento do clássico Speak No Evil, e nesse trabalho ele mergulha em um clima mais sombrio, denso e introspectivo. Aqui, Shorter parece menos interessado em elegância formal e mais focado em criar tensões emocionais e harmônicas prolongadas. Produção feita por Alfred Lion, é sóbria e extremamente eficaz. O som é escuro e levemente opressivo, reforçando o clima introspectivo das composições. A formação é a mesma dos trabalhos mais conhecidos do saxofonista, criando uma sensação de proximidade quase claustrofóbica entre os instrumentos, o que intensifica o caráter dramático das peças, fazendo um cruzamento entre o Post-Bop e o Jazz modal. O repertório é muito bom, e as canções são bem envolventes. No fim, é um disco interessante e bastante intimista. 

Melhores Faixas: The Big Push, The Soothsayer 
Vale a Pena Ouvir: Angola

Etcetera – Wayne Shorter





















NOTA: 8,5/10


E aí, no ano seguinte, foi lançado mais um material inédito dessa mesma época, o Etcetera. Após o The Soothsayer, esse trabalho surge no mesmo período de álbuns impressionantes como líder, como Juju e Speak No Evil. Esse projeto aparece exatamente entre esses trabalhos, funcionando como uma espécie de caderno de ideias refinadas, no qual Shorter investiga soluções harmônicas e narrativas com ainda mais economia. A produção, feita por Alfred Lion, é marcada por sobriedade e clareza absoluta. O som é limpo, íntimo e profundamente equilibrado, sem exageros de dinâmica ou densidade. Cada instrumento ocupa seu espaço com precisão cirúrgica, criando uma sensação de diálogo constante e respeito mútuo. O trio composto por Herbie Hancock no piano, Cecil McBee no contrabaixo e Joe Chambers na bateria forma a base para os solos expressivos do sax de Shorter. O repertório contém 5 faixas bem variadas. No final, é um disco bacana e mais contido. 

Melhores Faixas: Barracudas, Penelope 
Vale a Pena Ouvir: Toy Tune, Indian Song, Etcetera

Alegría – Wayne Shorter





















NOTA: 6/10


Então chegamos a 2002, quando foi lançado o seu último álbum intitulado Alegría. Após o Etcetera, o saxofonista acabou participando de alguns outros projetos e, nesse período, havia montado um quarteto com Danilo Pérez (piano), John Patitucci (baixo) e Brian Blade (bateria), que culminou no álbum ao vivo Footprints. Para esse disco, a música já não se organiza em torno de estruturas tradicionais, mas sim de narrativas abertas, memória, reapresentação e deslocamento. A produção, feita por Robert Sadin e lançada pelo selo Verve, é austera e profundamente elegante. O som é limpo, com grande atenção à ressonância e à interação entre os músicos. Com uma estética mais orientada ao Jazz de câmara, já que apresenta estruturas mais refinadas e tradicionais, o álbum soa bastante arrastado. O repertório é até bom, mas as reinterpretações são irregulares. No fim, é um disco mediano e que acabou funcionando como uma despedida após seu falecimento em 2023. 

Melhores Faixas: Serenata, Orbits, Bachianas Brasileiras No. 5 
Vale a Pena Ouvir: Capricorn II, Angola, She Moves Through The Fair


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