segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Analisando Discografias - Chick Corea: Parte 2

                  

The Song Of Singing – Chick Corea





















NOTA: 8,2/10


Em 1971, foi lançado mais um trabalho novo do pianista, intitulado The Song of Singing. Após o The Sun, Chick Corea praticamente abandona qualquer compromisso com formas tradicionais de trio de piano e se aproxima de vez da improvisação livre europeia e do Jazz mais vanguardista. Produção conduzida por Sonny Lester e lançada pela Blue Note, é deliberadamente crua e despojada: o piano de Corea soa muito físico, o contrabaixo de Dave Holland não é apenas harmônico, mas também rítmico e textural, e Barry Altschul, na bateria, atua como um verdadeiro colorista, alternando pulsação implícita, ruído e acentos irregulares. O repertório é muito bom, e as composições são bem energéticas. No geral, é um disco bacana e bem ousado. 

Melhores Faixas: Flesh, Ballad III 
Vale a Pena Ouvir: Rhymes, Toy Room

Piano Improvisations Vol. 1 – Chick Corea





















NOTA: 8/10


Alguns meses depois, Chick Corea lança mais um disco Piano Improvisations, Vol. 1. Após o The Song of Singing, depois de explorar intensamente o diálogo coletivo, a abstração extrema e a desconstrução de formas no contexto de grupo, Corea parece sentir a necessidade de um retorno ao indivíduo, não no sentido do virtuosismo exibicionista, mas da introspecção. Este álbum é basicamente ele sozinho, lidando apenas com o piano, o silêncio e o tempo. A produção, feita por Manfred Eicher, foi deliberadamente econômica e intimista: o piano soa próximo, claro e natural, com foco no ataque das teclas, na ressonância do instrumento e no uso consciente do silêncio. O registro privilegia a clareza da ideia musical, permitindo que cada nuance de dinâmica, articulação e intenção seja percebida, seguindo a vibe calma que era comum nos lançamentos da gravadora ECM. O repertório é muito bom, e as canções são bem aconchegantes. Enfim, é um ótimo disco e mostrou algo interessante. 

Melhores Faixas: Song For Sally, Ballad For Anna 
Vale a Pena Ouvir: Something Ago, Where Are You Now? – A Suite of Eight Pictures

Sundance – Chick Corea





















NOTA: 8/10


No ano seguinte, foi lançado o álbum Sundance, um trabalho mais complexo. Após o Piano Improvisations, Vol. 1, tudo isso ainda em 1969, Chick Corea se encontra em um momento de busca por síntese. Ele já não está mais interessado na desconstrução total das formas, mas também ainda não abraçou plenamente a exuberância melódica e rítmica que marcaria o Return to Forever. O disco ocupa exatamente esse “entre-lugar”, sofisticado, profundamente musical e altamente interativo. Gravado e lançado pelo selo Groove Merchant, de seu amigo Sonny Lester, que também assina a produção, o álbum apresenta uma abordagem transparente, equilibrada e elegante, com o piano soando cristalino, de articulação precisa e amplo controle dinâmico, além de uma seção rítmica poderosa, que puxa para um lado mais articulado. O resultado é um som arejado, em que cada instrumento ocupa seu espaço sem competir. O repertório contém 4 faixas muito boas e energéticas. No fim, é um ótimo trabalho e bastante coeso. 

Melhores Faixas: Song Of Wind, Converge 
Vale a Pena Ouvir: Sundace, The Brain

Piano Improvisations Vol. 2 – Chick Corea





















NOTA: 8/10


Um mês depois, foi lançado Piano Improvisations, Vol. 2, que trouxe poucas mudanças. Após o lançamento do Sundance, Chick Corea queria que essa continuação funcionasse como um núcleo silencioso entre esses mundos. Há também um amadurecimento evidente na relação dele com o piano solo. Aqui, ele já não soa como um improvisador apenas explorando possibilidades, mas como um compositor pensando em tempo real, organizando ideias com lógica interna e um senso arquitetônico muito mais definido. A produção, feita mais uma vez por Manfred Eicher, mantém a estética minimalista e intimista do primeiro volume, mas com uma sensação ainda maior de controle e clareza. O piano é captado de forma extremamente próxima, valorizando o toque, a articulação e o peso das notas, sem artificialismos. O repertório é bem interessante, e as composições são mais melódicas. Enfim, é um trabalho muito bom e consistente. 

Melhores Faixas: Departure From Planet Earth, Masquellero 
Vale a Pena Ouvir: After Noon Song, Preparation 1, A New Place

The Leprechaun – Chick Corea





















NOTA: 8,2/10


Quatro anos se passaram, e Chick Corea volta a lançar um álbum solo, o The Leprechaun. Após o Piano Improvisations, Vol. 2, ele estava focado no Return to Forever, mas queria fazer um “álbum de compositor”. Dialogando com suas fases anteriores, tudo isso é filtrado por um espírito lúdico, narrativo e quase infantil, algo que se tornaria uma marca recorrente em sua obra. A produção, feita por ele próprio, é exuberante, soando planejada, mas nunca engessada. O piano acústico continua central, mas é cercado por camadas orquestrais, sintetizadores, madeiras, percussões e arranjos detalhados, além da presença de vocais em alguns momentos, interpretados por sua esposa, Gayle Moran. O repertório é muito bom, e as composições são bem suaves. No fim, é um ótimo disco e bastante intimista. 

Melhores Faixas: Leprachun's Dream, Lenore 
Vale a Pena Ouvir: Nite Sprite, Soft And Gentle

My Spanish Heart – Chick Corea





















NOTA: 8,3/10


Meses depois, foi lançado outro álbum extenso, o My Spanish Heart, um trabalho mais tematizado. Após o The Leprechaun, Chick Corea estava cada vez mais interessado pela música espanhola e latino-mediterrânea, mas vai muito além de uma simples apropriação estilística. Não se trata de “Jazz com tempero latino”, e sim de uma tentativa real de fundir a linguagem harmônica do Jazz moderno, a escrita orquestral e o lirismo popular em uma obra coesa. A produção, feita novamente por ele próprio e lançada sob o selo da Polydor, traz uma abordagem rica, densa e extremamente detalhada. O piano segue como núcleo emocional, mas é cercado por orquestrações elaboradas, com cordas, sopros, percussões latinas, guitarras flamencas e teclados elétricos usados com grande critério. O repertório é muito bom, e as composições são bastante variadas. No fim, é um disco bacana e honroso. 

Melhores Faixas: The Bozo, Night Streets 
Vale a Pena Ouvir: The Gardens, Love Castle, Spanish Fantasy, Wind Danse

The Mad Hatter – Chick Corea





















NOTA: 8,3/10


Dois anos depois, Chick Corea lança mais um trabalho solo, intitulado The Mad Hatter. Após o My Spanish Heart e com o fim do Return to Forever, ele decide realizar um trabalho conceitual inspirado diretamente no universo literário de Lewis Carroll, especialmente Alice no País das Maravilhas. Usando esse imaginário para explorar contrastes psicológicos, jogos de lógica, absurdo, fantasia e melancolia, tudo é traduzido em uma linguagem musical altamente sofisticada. A produção é mais detalhada, refinada e controlada, mas nunca fria. O piano acústico continua sendo o eixo central, mas é constantemente cercado por cordas, sopros, sintetizadores, madeiras, percussões e guitarras, todos usados com precisão quase cinematográfica, em um caldeirão do Jazz Fusion com certas influências do Rock progressivo. O repertório é muito bom, e as composições são bem divertidas. No fim, é um disco legal e curioso. 

Melhores Faixas: Dear Alice, Humpty Dumpty 
Vale a Pena Ouvir: The Mad Hatter Rhapsody, The Woods

Friends – Chick Corea





















NOTA: 8,3/10


Na metade do mesmo ano de 1978, foi lançado o álbum Friends (com os Smurfs na capa, que doido). Após o The Mad Hatter, Chick Corea estava profundamente interessado em conceito, narrativa e identidade autoral, mais do que em performance virtuosa ou impacto de grupo. O Return to Forever já havia passado pelo auge elétrico e técnico, e Chick parecia deliberadamente se afastar da ideia de “banda poderosa” para algo mais afetivo, plural e comunitário. A produção é deliberadamente leve, clara e sem grandiosidade. Diferente dos discos orquestrais anteriores, aqui Chick opta por arranjos mais enxutos, timbres limpos e uma sensação geral de proximidade. O piano acústico volta a ser o centro, mas frequentemente dividido com instrumentos melódicos simples, percussões suaves e pequenas formações que variam. O repertório é muito bom, e as composições são bem mais dinâmicas. No geral, é um disco legal e com uma boa proposta. 

Melhores Faixas: Samba Song, Friends 
Vale a Pena Ouvir: Cappucino, The One Step

Secret Agent – Chick Corea





















NOTA: 8,2/10


E aí, chegando quase ao fim daquele ano, foi lançado o 3° disco de 1978 de Chick Corea, o Secret Agent. Após o Friends, depois de ter explorado praticamente tudo no Jazz, ele escolhe o caminho oposto: a fragmentação consciente. Fazendo um álbum de múltiplas identidades, quase um portfólio camuflado. A produção é praticamente a mesma, transparente, limpa e extremamente controlada, mas nunca fria. O piano acústico segue central, mas frequentemente dialoga com violino, flauta, percussões leves, segundo piano, alguns vocais do Gayle Moran e pequenos conjuntos, criando uma sensação de música de câmara moderna. O repertório é ótimo, e as composições são bem mais intimistas. No geral, é um ótimo trabalho e bem variado. 

Melhores Faixas: Fickle Funk, Glebe St. Blues 
Vale a Pena Ouvir: Drifiting, Central Park, Bagatelle #4,

Tap Step – Chick Corea





















NOTA: 7/10


Entrando nos anos 80, foi lançado o álbum Tap Step, um trabalho mais sofisticado. Após o Secret Agent, Chick Corea buscava constantemente renovar sua linguagem e trabalhar com colaboradores de longa data. Decidindo fazer um álbum que reúne Jazz latino, Funk, Jazz Fusion e música eletrônica, ele mantém a busca por sonoridades inventivas e grooves pulsantes. A produção é a mesma, seguindo um som rico e cheio de texturas, resultado tanto das várias contribuições instrumentais quanto do uso extensivo de teclados elétricos e sintetizadores pelo próprio Chick Corea. Ele combina instrumentos acústicos com teclados elétricos tradicionais, como Fender Rhodes e Clavinet, além de sintetizadores analógicos, embora nem sempre soem necessários. O repertório é até legal, com ótimas composições e algumas mais fracas. No fim, é um disco interessante, mas com algumas falhas. 

Melhores Faixas: Samba L.A., Grandpa Blues, Magic Carpet 
Piores Faixas: Tap Step, The Slide
 

         Por hoje é isso, então flw!!!       

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