domingo, 18 de janeiro de 2026

Analisando Discografias - John McLaughlin: Parte 1

                  

Extrapolation – John McLaughlin





















NOTA: 9/10


Voltando um pouco no tempo, lá para 1969, John McLaughlin lançava seu álbum de estreia, o Extrapolation. Até então, McLaughlin era conhecido sobretudo como um guitarrista altamente requisitado na cena londrina de Jazz e Rhythm and Blues, com passagens por grupos como a Graham Bond Organisation e colaborações com nomes importantes do jazz britânico. Com isso, decidiu gravar um trabalho mais radical, voltado para a improvisação modal, para estruturas livres e para uma assimilação menos ortodoxa. A produção, feita por Giorgio Gomelsky, é extremamente crua e direta, apostando na interação entre os músicos e na clareza da execução, sem excessos de overdubs ou efeitos. As guitarras sólidas do McLaughlin se entrelaçam com a bateria do Tony Oxley e o saxofone do John Surman, formando um trabalho sólido de Post-Bop. O repertório é ótimo, e as canções revelam um lado intimista. No fim, é um belo disco e bastante consistente. 

Melhores Faixas: Extrapolation, This Is For Us To Share, Peace Piece, Arjen's Bag 
Vale a Pena Ouvir: Really You Know, Binky's Beam, It's Funny

Devotion – John McLaughlin





















NOTA: 9,2/10


No ano seguinte, foi lançado seu 2º álbum, intitulado Devotion, que seguiu por um caminho mais psicodélico. Após o Extrapolation, John McLaughlin havia recém-se mudado para os Estados Unidos e, naquele período, recebeu o convite de Miles Davis para fazer parte de sua banda, na qual tocou nos álbuns In a Silent Way e Bitches Brew. Com isso, a Douglas Records enviou uma proposta para que McLaughlin gravasse um disco para o selo. A produção, conduzida por Alan Douglas e Stefan Bright, é crua, quase documental, reforçando a sensação de que o ouvinte está diante de uma experiência ao vivo. O som é denso, saturado e muitas vezes abrasivo, com guitarras distorcidas ocupando o primeiro plano e uma seção rítmica que privilegia impacto e liberdade em vez de precisão elegante, resultando em um trabalho puxado para o Jazz-Rock e o Acid Rock. O repertório é incrível, e as canções são bem pesadas. No geral, é um disco maravilhoso e ousado. 

Melhores Faixas: Devotion, Don't Let The Dragon Eat Your Mother, Brother 
Vale a Pena Ouvir: Sirens, Marbles

Electric Guitarist – Johnny McLaughlin





















NOTA: 8,6/10


Oito anos se passaram até John McLaughlin voltar a lançar um álbum solo com Electric Guitarist. Após o Devotion, e com o monumental reconhecimento do Mahavishnu Orchestra na primeira metade da década de 70, além de aprofundar sua busca espiritual e acústica com o Shakti, McLaughlin se encontrava em uma fase de síntese e reavaliação. O Jazz Fusion já havia se consolidado como linguagem, mas também começava a mostrar sinais de esgotamento criativo, então ele decidiu fazer algo menos excessivo. A produção, feita por ele próprio, apresenta um som mais equilibrado, com atenção cuidadosa à separação dos instrumentos e à clareza dos arranjos. A guitarra elétrica ocupa posição central, mas raramente domina de forma esmagadora; há espaço para teclados, baixo e bateria respirarem, criando uma textura mais arejada. O repertório é muito bom, e as canções são bem mais melódicas e contidas. No fim, é um ótimo álbum e bastante consistente. 

Melhores Faixas: Phenomenon: Compulsion, Friendship 
Vale a Pena Ouvir: My Foolish Heart, New York On My Mind

Electric Dreams – John McLaughlin & The One Truth Band





















NOTA: 8,7/10


Já perto do final dos anos 70, foi lançado Electric Dreams, que seguiu por um caminho mais elétrico. Após o Electric Guitarist, McLaughlin retorna à guitarra elétrica sem a necessidade de provar nada, explorando uma linguagem mais controlada, refinada e introspectiva. O contexto histórico também pesa: o Jazz-Rock começava a se tornar mais institucionalizado, e muitos músicos buscavam ou a suavização do som ou a sofisticação técnica extrema. A produção, feita por ele próprio, é elegante e polida. O som é limpo, com excelente definição dos instrumentos, e a guitarra de McLaughlin assume diferentes timbres ao longo do álbum, alternando entre sons cristalinos e distorções suaves, sempre integradas ao conjunto. Teclados, baixo e bateria são tratados com equilíbrio, criando uma textura sonora coesa e fluida. O repertório é muito bom, e as canções transmitem um lado mais energético e técnico. No final de tudo, é um ótimo disco e bem estruturado. 

Melhores Faixas: Love And Understanding, Electric Dreams, Electric Sighs, The Unknown Dissident 
Vale a Pena Ouvir: The Dark Prince, Miles Davis

Belo Horizonte – John McLaughlin





















NOTA: 8/10


Entrando em 1981, foi lançado mais um trabalho do John McLaughlin, intitulado Belo Horizonte. Após o Electric Dreams, McLaughlin buscava uma música mais rítmica, comunicativa e diretamente conectada ao corpo, sem abandonar a sofisticação harmônica e a complexidade rítmica que sempre marcaram sua obra. O título sugere não apenas uma referência geográfica, mas também uma abertura simbólica para influências mais amplas, especialmente ritmos de matriz latina e brasileira, integrados a uma linguagem jazzística moderna. A produção, feita por ele próprio, é claramente moldada pelos padrões do início dos anos 80, com um som mais limpo e orientado para o groove. A guitarra de McLaughlin surge com um timbre mais seco e definido, frequentemente inserida em contextos de Funk e Jazz-Rock, dialogando de forma estreita com o baixo e a bateria. O repertório é muito bom, e as canções são bem mais envolventes. No fim, é um disco interessante e que vale a audição. 

Melhores Faixas: Stardust On Your Sleeve, La Baleine 
Vale a Pena Ouvir: Belo Horizonte, Very Early (Homage To Bill Evans)

Adventures In Radioland – John McLaughlin And Mahavishnu





















NOTA: 6/10


No ano de 1987, foi lançado o que costuma ser apontado como o último álbum do Mahavishnu Orchestra, o Adventures in Radioland. Após o Belo Horizonte e o álbum de 1984 da banda nova-iorquina, John McLaughlin atravessava os anos 80 buscando novas formas de relevância artística em meio a um cenário dominado por produção digital, sintetizadores, baterias eletrônicas e uma linguagem musical cada vez mais distante do risco improvisacional. A produção, feita como sempre por ele próprio, faz uso extensivo desses elementos modernos, criando um som limpo, preciso e altamente controlado, com as guitarras servindo mais como textura. A formação era basicamente a mesma, mas sem Billy Cobham e com Danny Gottlieb em seu lugar; ainda assim, no geral, percebe-se a falta de dinâmica e urgência nos arranjos. O repertório é mediano, com algumas canções boas e outras esquecíveis. Enfim, é um álbum irregular e que soa mais como um trabalho solo. 

Melhores Faixas: The Wait, The Wall Will Fall, Jozy 
Piores Faixas: Half Man - Half Cookie, 20th Century Ltd, Gotta Dance

Qué Alegría – John McLaughlin Trio





















NOTA: 8,2/10


Entrando nos anos 90, em 1992, foi lançado o álbum Qué Alegría, gravado em formato de trio. Após o Adventures in Radioland, McLaughlin buscava recuperar a fisicalidade da performance, o risco do improviso e a interação direta entre músicos. O John McLaughlin Trio nasce justamente dessa necessidade de retorno ao essencial, mas sem nostalgia: trata-se de um formato enxuto, moderno e extremamente virtuoso, no qual a complexidade rítmica e a sofisticação harmônica são exploradas de forma orgânica. A produção, feita como sempre por ele mesmo, é direta, clara e essencialmente acústica, ainda que a guitarra de McLaughlin seja amplificada. O som do trio é captado de forma a preservar a dinâmica natural da interação entre guitarra, baixo e bateria, além de apresentar variações com influências do Flamenco e até do Samba. O repertório é muito bom, e as canções são todas bastante divertidas. Em suma, é um ótimo trabalho e traz uma variação interessante. 

Melhores Faixas: Belo Horizonte, Mila Repa 
Vale a Pena Ouvir: 3 Willows, Reincarnation

The Promise – John McLaughlin





















NOTA: 8/10


Quatro anos depois, foi lançado The Promise, uma obra que seguiu por um caminho mais amplo. Após o Qué Alegría, John McLaughlin optou por fazer um álbum majoritariamente acústico, introspectivo e camerístico, que dialoga com a música clássica, a música de câmara, a tradição espanhola e um lirismo meditativo, refletindo sua longa convivência com a música indiana, espanhola e clássica ocidental, agora integradas de forma orgânica e sem ostentação técnica. A produção, conduzida por ele junto com Jean-Philippe Allard, é extremamente refinada e transparente, pensada para valorizar timbres acústicos, dinâmica natural e clareza absoluta. A guitarra acústica de McLaughlin ocupa o centro do álbum, gravada com riqueza de detalhes, e os arranjos incluem cordas, flauta, oboé e outros instrumentos acústicos que equilibram esse caldeirão sonoro. O repertório é muito bom, e as canções são envolventes e elegantes. No geral, é um ótimo disco e muito detalhado. 

Melhores Faixas: No Return, Shin Jin Rui 
Vale a Pena Ouvir: Thelonius Melodius, The Wish, Django

Industrial Zen – John McLaughlin



















NOTA: 8,5/10


Pulando para 2006, John McLaughlin retorna com mais um disco, intitulado Industrial Zen. Após o The Promise, McLaughlin entra no novo século sem qualquer interesse em se tornar uma figura reverencial do passado, fazendo um álbum que retoma a eletricidade, o groove e a complexidade rítmica, agora filtrados por um músico que domina plenamente suas ferramentas e não precisa mais provar nada, além de incorporar influências modernas. A produção, feita por ele mesmo, é extremamente bem definida. O som é denso, com baixo e bateria ocupando um papel central na construção dos grooves, enquanto a guitarra elétrica de McLaughlin surge com um timbre encorpado, agressivo quando necessário, mas sempre controlado. Há também momentos em que o disco assume um caráter mais texturizado, com influências da música industrial. O repertório é ótimo, e as canções são mais densas e puxam para um lado meditativo. No final, é um disco bacana e bastante imersivo. 

Melhores Faixas: Just So Only More So, Mother Nature, To Bop Or Not To Be 
Vale a Pena Ouvir: Wayne's Way, For Jaco

Floating Point – John McLaughlin





















NOTA: 8,3/10


Dois anos se passaram, e foi lançado meio que uma continuação, o Floating Point. Após o Industrial Zen, McLaughlin decidiu explorar nesse projeto algo que funcionasse como um contraste equilibrado: peso e leveza, intensidade e espaço, controle e espontaneidade. O título sugere essa ideia de equilíbrio móvel, de um ponto flutuante que nunca se fixa completamente, refletindo tanto a filosofia musical quanto a postura existencial do guitarrista neste estágio da carreira. A produção apresenta um som bem definido, com cada instrumento ocupando seu espaço de forma precisa. A guitarra elétrica de McLaughlin surge com um timbre articulado e flexível, capaz de transitar rapidamente entre agressividade rítmica e lirismo melódico. O baixo e a bateria constroem grooves elásticos e mutáveis, fundamentais para o caráter fluido do disco. O repertório é muito bom, e as canções têm uma pegada envolvente e energética. No final, é um disco bacana e que segue esse lado característico. 

Melhores Faixas: Inside Out, AbbaJi (For Alla Rakha) 
Vale a Pena Ouvir: Off The One, The Voice, Five Peace Band

To The One – John McLaughlin And The 4th Dimension





















NOTA: 8/10


No ano de 2010, John McLaughlin formou o grupo 4th Dimension e lançou o disco To the One. Após O Floating Point, o guitarrista já havia reencontrado uma linguagem elétrica contemporânea que conciliava groove, complexidade rítmica, espiritualidade e energia física. Assim, formou uma banda com Gary Husband (teclados e bateria), Étienne Mbappé (baixo; sem qualquer relação com Kylian Mbappé) e Mark Mondesir (bateria). A produção, como sempre feita pelo próprio John McLaughlin, mantém o padrão moderno e energético dos trabalhos anteriores, mas com ênfase ainda maior na interação coletiva. O som é bem definido e musculoso, com baixo e bateria desempenhando papel central na criação de grooves densos e flexíveis. A guitarra de McLaughlin surge com timbre claro e cortante, bem integrada ao conjunto. O repertório é ótimo, e as canções são envolventes, com muita improvisação. Enfim, é um trabalho muito consistente e equilibrado. 

Melhores Faixas: The Fine Line, To The One 
Vale a Pena Ouvir: Recovery, Discovery

Now Here This – John McLaughlin And The 4th Dimension





















NOTA: 6/10


Dois anos se passaram, e foi lançado o 2º trabalho dessa fase, o irregular Now Here This. Após o To the One, que tinha a proposta de afirmar a unidade espiritual e musical do quarteto, aqui John McLaughlin parece interessado em tensionar essa unidade por meio de contrastes mais evidentes entre contemplação e energia, silêncio e densidade rítmica. A produção é a mesma de sempre, mas apresenta uma sonoridade ligeiramente mais aberta. A mixagem favorece a clareza rítmica e a respiração entre os instrumentos. O baixo e a bateria seguem como pilares centrais, enquanto os teclados ampliam o campo harmônico e a guitarra de McLaughlin surge com timbre limpo e articulado; ainda assim, muita coisa acaba ficando repetitiva e faltando algo mais envolvente. O repertório é mediano, com algumas canções legais e outras bastante genéricas. Enfim, é um trabalho relativamente fraco e que se afasta da proposta inicial. 

Melhores Faixas: Trancefusion, Guitar Love, Not Here Not There 
Piores Faixas: Wonderfall, Riff Raff, Take It Or Leave It
 

Então é isso, um abraço e flw!!!                

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