Scratch My Back – Peter Gabriel
NOTA: 8/10
No ano de 2010, foi lançado mais um álbum de Peter Gabriel, o subestimadíssimo Scratch My Back. Após o Up, ele se envolveu cada vez mais com projetos paralelos, trilhas sonoras, curadorias culturais e experimentações conceituais, o que acabou deslocando sua relação com o formato tradicional. A ideia desse trabalho nasce como parte de um projeto de reciprocidade artística, no qual ele reinterpretaria canções de outros compositores. A produção, feita por ele junto com Bob Ezrin, é construída exclusivamente a partir de orquestra de cordas, piano ocasional e voz. Os arranjos, conduzidos principalmente por John Metcalfe, apostam em texturas contínuas, longos sustains, crescendos lentos e harmonias suspensas, criando um clima de solenidade constante que, junto com os vocais contidos e melancólicos do Gabriel, deixa tudo muito íntimo. O repertório é muito bom, e as canções são bem interpretadas. No fim, é um disco bacana e que vale conhecer.
Melhores Faixas: The Power Of The Heart (Lou Reed), The Book Of Love (The Magnetic Fields)
Vale a Pena Ouvir: My Body Is A Cage (Arcade Fire), Heroes (David Bowie), Street Spirit (Fade Out) (Radiohead)
New Blood – Peter Gabriel
NOTA: 8/10
Aí, no ano seguinte, foi lançado mais um disco, o New Blood, no qual ele reinterpreta suas próprias canções. Após o Scratch My Back, ele decide revisitar composições escritas ao longo de mais de trinta anos de carreira e submetê-las ao mesmo processo de “desnudamento” sonoro aplicado aos covers. O álbum surge em um período em que Gabriel parece menos interessado em avançar cronologicamente e mais disposto a reorganizar a própria obra à luz da maturidade. A produção é praticamente a mesma, agora feita junto com John Metcalfe, e apresenta uma paleta emocional um pouco mais variada, ainda que mantenha unidade estética. A orquestra não funciona apenas como pano de fundo, mas como força narrativa, conduzindo clímax, silêncios e explosões emocionais, em diálogo com os vocais maduros do Peter Gabriel. O repertório, obviamente, é muito bom, e as canções são todas bem interpretadas e bem climatizadas. Enfim, é um trabalho bacana e consistente.
Melhores Faixas: Red Rain, Digging In The Dirt
Vale a Pena Ouvir: Don't Give Up (única inédita), San Jacinto, Wallflower, In Your Eyes
I/O – Peter Gabriel
NOTA: 8,6/10
Em 2023, foi lançado o mais recente álbum de Peter Gabriel, intitulado i/o, que trouxe algo expressivo. Após o New Blood, como ele não lançava material novo desde 2002, ele falou repetidamente sobre novas músicas, apresentou versões ao vivo, retrabalhou letras e arranjos, mas evitou a conclusão definitiva do projeto. Assim, esse trabalho não foi escrito em um momento específico, mas se configura como um mosaico de ideias lapidadas ao longo de anos. A produção, conduzida por ele próprio com a colaboração de Brian Eno e Richard Russell, marca o retorno ao uso de uma banda mais tradicional, com percussões complexas, camadas eletrônicas e texturas orgânicas, mas sob uma abordagem menos obcecada por inovação tecnológica e mais focada em clareza emocional e impacto narrativo. O repertório é dividido entre um lado luminoso, mais dinâmico, e outro mais obscuro e atmosférico, com as mesmas canções sob abordagens diferentes. Enfim, é um ótimo disco e bem complexo.
Melhores Faixas: Road To Joy, Olive Tree, Playing For Time, And Still
Vale a Pena Ouvir: This Is Home, Panopticom, So Much


