domingo, 5 de julho de 2026

Analisando Discografias - Zé Ramalho: Parte 1

                   

Paêbirú – Lula Côrtes e Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


No ano de 1975, Lula Côrtes e Zé Ramalho lançavam um álbum colaborativo, o clássico Paêbirú. Os dois jovens músicos nordestinos ainda estavam no começo da carreira. Esse disco surgiu a partir do fascínio de ambos pelas lendas indígenas relacionadas ao Caminho do Peabiru, antiga rota pré-colombiana que cruzava parte da América do Sul, pelas inscrições rupestres da Pedra do Ingá e pelo misticismo envolvendo a figura de Sumé, estruturando o álbum de acordo com os quatro elementos fundamentais da natureza. A produção foi feita por Hélio Rozenblit e lançada pelo selo de sua família. O resultado é um som extremamente experimental, misturando Folk psicodélico, Baião, Jazz, Jongo e, principalmente, Udigrudi. A instrumentação é baseada em violões, guitarras elétricas, percussões nordestinas, berimbau e instrumentos pouco convencionais. O repertório é sensacional, e as canções são todas bem tematizadas. Enfim, é um baita disco e uma obra-prima. 

Melhores Faixas: Nas Paredes Da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados Por Sumé, Não Existe Molhado Igual Ao Pranto, Trilha De Sumé, Sumé, Regato Da Montanha, Bailado Das Muscarias 
Vale a Pena Ouvir: Pedra Templo Animal, Raga Dos Raios, Culto À Terra

Zé Ramalho – Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


Três anos se passaram, e Zé Ramalho retornou lançando seu álbum de estreia autointitulado. Após o Paêbirú, com Lula Côrtes, que acabou tendo pouca vendagem, já que grande parte dos exemplares foi perdida numa enchente, o paraibano voltou a cursar Medicina, mas largou o curso em 1976, mudando-se para o RJ para conseguir, enfim, lançar seus trabalhos. Após muita luta, assinou com a CBS. A produção contou com Carlos Alberto Sion, que trouxe uma sonoridade extremamente sofisticada e cinematográfica. Aqui há uma junção do Udigrudi, Folk, Cantoria e MPB, com os violões de doze cordas convivendo com guitarras elétricas, sintetizadores, sanfona, flautas e baixos elaborados. Os vocais graves e roucos do Zé Ramalho funcionam muito bem dentro dessa proposta. O repertório é sensacional, parecendo uma coletânea, já que praticamente todas as canções são belíssimas. Enfim, é um disco fantástico e um dos melhores álbuns da música brasileira. 

Melhores Faixas: Avôhai, Chão De Giz, A Dança Das Borboletas, Voa, Voa 
Vale a Pena Ouvir: Vila do Sossego, A Noite Preta

A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu – Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


No ano seguinte, o Zé Ramalho lançou seu 2º álbum, o clássico A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. Após o seu álbum de estreia, que na época acabou sendo injustamente criticado pela crítica, o cantor não se abalou e decidiu fazer um disco que remete à tradição dos folhetos de cordel nordestinos, transformando o embate entre o Diabo e o Dono do Céu em uma metáfora para os conflitos entre o bem e o mal, a opressão e a liberdade, a fé e o poder. A produção foi relativamente a mesma, só que agora estava mais refinada e com estruturas mais definidas, facilitando sua assimilação sem sacrificar a riqueza musical. Ela junta ainda mais Folk e Cantoria com elementos da MPB, Baião, Forró e influências barrocas, com os vocais graves do Zé, que passaram a ter um controle maior das nuances. O repertório é maravilhoso, também parecendo uma coletânea, com canções bem tematizadas. No fim, é outro disco fantástico e um dos melhores de todos os tempos. 

Melhores Faixas: Admirável Gado Novo, A Peleja Do Diabo Com O Dono Do, Beira-Mar, Falas Do Povo 
Vale a Pena Ouvir: Jardim Das Acácias, Mote Das Amplidões

A Terceira Lâmina – Zé Ramalho





















NOTA: 10/10


Indo para 1981, o Zé Ramalho lançava seu sensacional 3º álbum, A Terceira Lâmina. Após o A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, este novo disco amplia esse universo ao abordar questões existenciais, políticas e sociais de maneira ainda mais simbólica. O título, nas palavras do cantor, faz referência à sua terceira fase artística, ao seu terceiro filho e também à ideia de uma "terceira guerra", funcionando como metáfora para um momento decisivo da humanidade. A produção, feita pelo próprio cantor junto com Mauro Motta, foi bastante sofisticada, com um som pensado para tocar nas rádios, mas, claro, contendo os elementos do Folk e da Cantoria característicos da obra do Zé. A instrumentação continua extremamente rica. Violões de doze cordas convivem com guitarras elétricas, piano, percussões nordestinas e corais. O repertório é incrível, novamente contendo canções profundas. No geral, é outro álbum fenomenal e um clássico da música brasileira. 

Melhores Faixas: Canção Agalopada, A Terceira Lâmina, Cavalos Do Cão, Kamikaze, Galope Rasante 
Vale a Pena Ouvir: Filhos De Ícaro, Um Pequeno Xote, Atrás Do Balcão

Força Verde – Zé Ramalho





















NOTA: 9,8/10


Mais um ano se passou, e o Zé Ramalho lançou outro álbum, intitulado Força Verde. Após A Terceira Lâmina, esse novo disco marca uma mudança de foco em sua escrita. O tom apocalíptico e político continua presente, mas agora dividido com uma preocupação maior com a natureza, a preservação ambiental, a espiritualidade e a relação entre o homem e o planeta. Fora que o Zé tentou seguir um caminho mais moderno, dialogando com o rumo que a MPB tomou para conseguir tocar nas rádios. A produção foi ainda mais refinada, juntando muito mais elementos da MPB com o Folk contemporâneo, enquanto os arranjos se tornam mais atmosféricos, valorizando sintetizadores, cordas e texturas eletrônicas que ampliam o caráter contemplativo do álbum. Os vocais do Zé complementam esse trabalho com sua voz grave e carregada de sotaque nordestino. O repertório é ótimo, e as canções são belíssimas e carregadas de referências. Enfim, é outro disco incrível e bem coeso. 

Melhores Faixas: Visões De Zé Limeira Sobre O Final Do Século XX, Força Verde, Banquete De Signos, Pepitas de Fogo, Os Segredos De Sumé 
Vale a Pena Ouvir: O Monte Olímpia, Cristais Do Tempo

Orquídea Negra – Zé Ramalho





















NOTA: 8,7/10


Outro ano se passa, e o Zé Ramalho lança mais trabalho novo, a Orquídea Negra. Após o Força Verde, o cantor passou por algumas dificuldades, como uma acusação de plágio envolvendo o gibi do Incrível Hulk, além de seu casamento com Amelinha ter chegado ao fim. Assim, decidiu fazer um projeto que alterna entre composições introspectivas e outras bastante expansivas. A produção foi bem mais diversificada, contando com MPB, Folk, Baião, Xote e algumas influências do Rock. Os violões continuam presentes, mas agora dividem espaço com sintetizadores, guitarras elétricas, metais e arranjos orquestrais. A interpretação vocal do Zé continua transmitindo autoridade, mistério e emoção, adaptando-se muito bem a cada canção. Falando nisso, o repertório é muito bom, e as faixas são divertidas, enquanto outras são mais imersivas. Enfim, é um disco bacana e, assim como o antecessor, acabou não vendendo muito. 

Melhores Faixas: Taxi Lunar, Kryptônia, Xote Dos Poetas (participação do Fagner), Napalm
Vale a Pena Ouvir: Dominó, Orquídea Negra, Para Chegar Mais Perto De Deus

Por Aquelas Que Foram Bem Amadas Ou Pra Não Dizer Que Não Falei De Rock – Zé Ramalho





















NOTA: 8/10


Novamente se passou mais um ano, e o cantor lançou Por Aquelas Que Foram Bem Amadas ou pra Não Dizer Que Não Falei de Rock. Após a Orquídea Negra, o Zé Ramalho decidiu revisitar um repertório composto ainda no início da década de 70, quando atuava como guitarrista em bandas de baile. O próprio Zé Ramalho afirmou posteriormente que desejava registrar esse material porque fazia parte de sua formação musical. A produção foi mais direta, privilegiando guitarras elétricas, teclados, sintetizadores, bateria mais pesada e linhas de baixo bastante marcantes, aproximando diversas faixas do Rock clássico, além de apresentar pequenos traços da MPB. Aqui, os vocais do Zé conseguem ser bem variados, e há momentos em que ele adota uma abordagem mais urgente. O repertório é muito bom, e as canções são bem melódicas e envolventes. Enfim, é um disco bacana e bastante subestimado. 

Melhores Faixas: Made In PB, Dupla Fantasia 
Vale a Pena Ouvir: Dança Das Luzes, O Tolo Na Colina (The Fool On The Hill) (participação do Erasmo Carlos), Paisagem Da Flor Desesperada

De Gosto, De Água E De Amigos – Zé Ramalho





















NOTA: 8,5/10


Em 1985, o Zé Ramalho lançava mais um trabalho, intitulado De Gosto, de Água e de Amigos. Após o Por Aquelas Que Foram Bem Amadas ou pra Não Dizer Que Não Falei de Rock, o cantor decidiu fazer um disco que trata da amizade, da passagem do tempo, das origens, da identidade cultural e das relações humanas. O próprio título resume esse espírito: a água representa renovação, enquanto os amigos simbolizam acolhimento, memória e permanência. A produção, feita por Renato Corrêa e Mariozinho Rocha, seguiu uma abordagem mais limpa e moderna. Os arranjos continuam baseados no violão, instrumento inseparável do compositor, mas ganham forte presença de sintetizadores, guitarras elétricas, cordas, acordeão e uma seção rítmica bastante refinada, resultando em um álbum mais puxado para o Pop Rock e a MPB. O repertório é muito bom, e as canções são bem suaves e reflexivas. No geral, é um ótimo disco e merece ser redescoberto. 

Melhores Faixas: Mestiça, Chuva Pesada, Martelo Dos 30 Anos, Paralelas 
Vale a Pena Ouvir: Forrobodó, De Gosto, De Água E De Amigos

Opus Visionário – Zé Ramalho





















NOTA: 9/10


Se passou mais um ano, e o Zé Ramalho lançou um trabalho bem mais tradicional, o Opus Visionário. Após o De Gosto, de Água e de Amigos, o cantor optou por não repetir a fórmula mais acessível de seu álbum anterior. Em vez disso, voltou a privilegiar um repertório marcado pelo simbolismo, pela espiritualidade, pela ficção científica, pela filosofia e pelo surrealismo, retomando características que aproximavam sua produção de seus discos clássicos. A produção do Mauro Motta equilibrou instrumentos acústicos e arranjos tradicionais nordestinos. Aqui há um investimento muito maior em sintetizadores, programação eletrônica, efeitos digitais e texturas sonoras da música Pop daquele período. Os arranjos, feitos por Lincoln Olivetti e Robson Jorge, colocam essa sonoridade moderna em diálogo com os violões e as percussões nordestinas. O repertório é muito bom, e as canções são bem melódicas. No fim, é um ótimo álbum e bem consistente. 

Melhores Faixas: Quasar Do Sertão, Olhares Sem Destino, Pedras E Moças, Zyliana, Visionária 
Vale a Pena Ouvir: Um Índio, Tamarineira Village

Décimas De Um Cantador – Zé Ramalho





















NOTA: 8/10


E aí mais um ano se passou, e, de novo, o Zé Ramalho lançou mais um álbum, o Décimas de um Cantador. Após o Opus Visionário, o cantor volta a concentrar sua atenção nas raízes nordestinas, especialmente na tradição dos cantadores, repentistas e poetas populares, sem abandonar completamente as influências que havia adquirido nos trabalhos anteriores. A produção, feita mais uma vez por Mauro Motta, tem a presença de violões de doze cordas, guitarras elétricas, sintetizadores, programação eletrônica, baixos bastante elaborados e percussões discretas. Lincoln Olivetti permanece responsável por parte da programação eletrônica, enquanto Robson Jorge exerce papel fundamental nos teclados, guitarras e arranjos. Juntos, eles constroem uma sonoridade que dialoga muito mais com a MPB daquela época, com pequenas influências da música nordestina. O repertório é legalzinho, e as canções são bem interessantes. No geral, é um ótimo disco e foi mais ousado. 

Melhores Faixas: Medley: Pelos Telefones / Lay, Lady, Lay , Mulher Nova, Bonita E Carinhosa Faz O Homem Gemer Sem Sentir Dor 
Vale a Pena Ouvir: Mary Mar, Décimas De Um Cantador, Aldeias Da Borborema

Frevoador – Zé Ramalho





















NOTA: 8,5/10


Pulando para 1992, o Zé Ramalho lançou seu 10º álbum de estúdio, o Frevoador. Após o Décimas de um Cantador, o cantor lançou alguns trabalhos esporádicos e retornou nos anos 90 em um momento de profundas mudanças na indústria musical brasileira, já dominada pelo sertanejo romântico e pela música pop. Quando retornou, atualizou sua sonoridade sem abandonar completamente a identidade construída ao longo dos anos. A produção, feita pelo cantor junto com Luís Fernando Borges, privilegiou violões, guitarras limpas e teclados discretos, deixando o som mais orgânico. Ao mesmo tempo, permanecem presentes elementos nordestinos como a viola, o acordeão, o bandolim e ritmos derivados do Baião, do Frevo e do Xote. O repertório é ótimo, e as canções são bem divertidas e carregadas de reflexão. No final de tudo, é um ótimo disco e, dessa vez, o sucesso veio. 

Melhores Faixas: Entre A Serpente E A Estrela, Cidadão, A História Do Jeca Que Virou Elvis Presley 
Vale a Pena Ouvir: Porta Secreta, Do Terceiro Milênio Para Frente, Serpentária

Cidades & Lendas – Zé Ramalho





















NOTA: 6/10


Cinco anos depois, o Zé Ramalho lançou mais um trabalho, o Cidades & Lendas. Após o Frevoador, Zé foi chutado da gravadora CBS. Esse novo disco ficou temporariamente interrompido, e o próprio artista assumiu praticamente toda a coordenação do trabalho, cuidando da produção, da escolha dos músicos e da finalização das gravações até conseguir um novo contrato com a BMG. Vale lembrar que ele aproveitou o hype de sua canção Admirável Gado Novo, que estava fazendo parte da trilha sonora da novela Rei do Gado. A produção é bastante refinada, equilibrando instrumentos acústicos e elementos contemporâneos. O violão volta a ocupar posição central, acompanhado pela viola de doze cordas de Manassés, instrumento que confere forte identidade nordestina ao disco. Mas o problema é que tudo soa arrastado e parece faltar algo mais imersivo. O repertório é fraquinho: há canções boas e outras mais do mesmo. Em suma, é um trabalho mediano e muito monótono. 

Melhores Faixas: Cidades & Lendas, Os Últimos Dias, Não Existe Molhado Igual Ao Pranto
Piores Faixas: Leva Eu Sodade, Rap-Xote Esotérico, Profetas

                                                                                 É isso, um abraço e flw!!!                      

Analisando Discografias - Zé Ramalho: Parte 1

                    Paêbirú – Lula Côrtes e Zé Ramalho NOTA: 10/10 No ano de 1975, Lula Côrtes e Zé Ramalho lançavam um álbum colaborativo, ...