Eu Tiro É Onda – Marcelo D2
NOTA: 9,4/10
Voltando para 1998, Marcelo D2 lançava seu 1º álbum solo intitulado Eu Tiro É Onda. Após o lançamento de Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára com o Planet Hemp, e depois da prisão dos integrantes da banda em Brasília sob acusação de apologia às drogas, o grupo entrou em um momento de desgaste institucional e comercial. Muitos shows foram cancelados, e a pressão em torno do Planet Hemp acabou impulsionando D2 a experimentar uma identidade artística própria. A produção, feita pelo rapper junto de Rodrigo Nut's e Zé Gonzales, é crua e sofisticada ao mesmo tempo. Há um equilíbrio muito forte entre o peso do Boom Bap e os muitos samples do Samba, Jazz, Funk setentista e MPB. Em vez de simplesmente encaixar um pandeiro sobre um beat tradicional do Rap, eles integraram os elementos brasileiros à estrutura rítmica do Hip-Hop. O repertório é incrível, e as canções são carregadas de profundidade e até leveza. Enfim, é um baita disco, e ainda nem era o ápice.
Melhores Faixas: Sessão, 1967, Samba De Primeira, Eu Tive Um Sonho, Baseado Em Fatos Reais, O Império Contra Ataca
Vale a Pena Ouvir: Eu Tiro É Onda, Batucada
À Procura Da Batida Perfeita – D2
NOTA: 10/10
Melhores Faixas: Qual É?, A Procura Da Batida Perfeita, Profissão M.C., Vai Vendo
Vale a Pena Ouvir: Batidas E Levadas, Lodeando, A Maldição Do Samba
Meu Samba É Assim – D2
NOTA: 8,3/10
Três anos se passaram, e Marcelo D2 lançou mais um álbum, o Meu Samba É Assim. Após o clássico À Procura da Batida Perfeita, que havia estabelecido a fusão entre Samba e Rap como linguagem central de sua obra, este disco aprofunda ainda mais essa proposta e transforma o Samba em elemento dominante da narrativa musical. O álbum mostra um D2 mais seguro artisticamente, mais confortável com sua posição dentro da música brasileira e menos preocupado em provar legitimidade para a cena do Rap nacional. A produção, feita por Leandro Sapucahy e Nave Beatz, traz arranjos mais abertos, percussões que ocupam mais espaço e instrumentos acústicos com enorme protagonismo. O Samba não aparece apenas sampleado: ele se mistura diretamente à construção dos beats. O repertório é muito bom, e as canções conseguem ser divertidas e profundas ao mesmo tempo. No fim, é um ótimo disco, bastante variado.
Melhores Faixas: É Preciso Lutar, Lapa (Aori e Marechal amassando), Pra Que Amor?, Dor De Verdade (participação do Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz)
Vale a Pena Ouvir: Meu Samba É Assim, Gueto (Mr. Catra mandou bem), Nega
A Arte Do Barulho – Marcelo D2
NOTA: 8,2/10
Melhores Faixas: Desabafo, A Arte Do Barulho, Pode Acreditar (Meu Laiá Laiá) (as duas com participação do Seu Jorge), Atividade Na Laje (nessa época, Stephan Peixoto já tava virando Sain), Vem Comigo Que Eu Te Levo Pro Céu
Piores Faixas: Minha Missão, Ela Disse, Kush
Canta Bezerra Da Silva – Marcelo D2
NOTA: 8/10
Entrando em 2010, Marcelo D2 lançava o álbum Canta Bezerra da Silva, que já é bem explicativo pelo próprio título. Após A Arte do Barulho, esse trabalho já vinha sendo pensado desde 2005, ano da morte de Bezerra da Silva, mas só ganhou forma definitiva alguns anos depois. Isso é importante porque o álbum não soa como uma homenagem oportunista ou imediata; existe uma sensação genuína de respeito histórico e continuidade cultural. A produção, feita por Leandro Sapucahy, aposta em instrumentos orgânicos, percussão tradicional, cavaquinho, violão de sete cordas, metais discretos e linhas rítmicas muito mais ligadas ao Samba e ao Partido Alto. O vocal de D2 se encaixa muito bem nesse contexto, proporcionando uma sonoridade extremamente quente e coletiva. Em muitos momentos, parece realmente uma roda de Samba acontecendo em um quintal carioca. O repertório é obviamente muito bom, e a interpretação é bem-feita. No geral, é um disco bacana e bastante honroso.
Melhores Faixas: Malandragem Dá Um Tempo, Bicho Feroz
Vale a Pena Ouvir: Meu Bom Juiz, A Semente, Saudação Às Favelas, Na Aba
Nada Pode Me Parar – Marcelo D2
NOTA: 8,8/10
Em 2013, Marcelo D2 lançou seu 6º álbum de estúdio, intitulado Nada Pode Me Parar. Após o Canta Bezerra da Silva, o rapper parecia interessado em recuperar agressividade, velocidade e peso rítmico. Parte disso veio da reunião do Planet Hemp em turnês que aconteceram pouco antes do lançamento do disco. Inclusive, o álbum originalmente sairia em 2012, mas acabou sendo adiado por causa desses compromissos. A produção, feita mais uma vez por Mario Caldato Jr., aposta em beats mais secos, pesados e sintéticos do que nos trabalhos anteriores. Ainda existem samples brasileiros e referências à MPB, mas eles aparecem muito mais integrados dentro de estruturas modernas do Rap, passando pelo Boom Bap, Jazz Rap e até pelo Chipmunk Soul. O repertório é muito bom, e as canções são profundas, com temáticas envolventes. Enfim, é um disco bacana e muito consistente.
Melhores Faixas: Você Diz Que O Amor Não Dói, Eu Já Sabia (Sain mandou bem), A Cara Do Povo, 4:20, Vou Por Aí, Eu Tenho O Poder
Vale a Pena Ouvir: Na Veia, Fella (ótima feat do Akira Presidente), Danger Zone
Amar É Para Os Fortes – Marcelo D2
NOTA: 8,5/10
Cinco anos se passaram, e Marcelo D2 retorna com mais um álbum novo, o Amar É Para Os Fortes. Após o Nada Pode Me Parar, o trabalho nasceu como uma experiência transmídia que unia música, cinema, narrativa visual e comentário social. O disco veio acompanhado de um média-metragem homônimo escrito, dirigido e produzido pelo próprio D2. O conceito central do álbum gira em torno do amor como forma de resistência em um ambiente marcado por violência, desigualdade, racismo estrutural e brutalidade urbana. Produção feita pelo rapper junto com Mario Caldato Jr., Nave Beatz e Sacha Rudy, que colocaram beats variados, aqui os instrumentos respiram muito mais. Há percussões afro-brasileiras, guitarras atmosféricas, linhas de baixo profundas e arranjos vocais muito ricos, fazendo uma fusão do Rap com Samba, Afoxé, MPB e até Baião. O repertório é bem legal, e as canções são imersivas. No fim, é um ótimo disco e carregado de musicalidade.
Melhores Faixas: Febre Do Rato, Filho De Obá (Juntaram Danilo e Alice Caymmi com Rincon Sapiência, e ficou foda!), Resistência Cultural (participação do Gilberto Gil)
Vale a Pena Ouvir: Alto Da Colina, AEPOF
Assim Tocam Os Meus Tambores – Marcelo D2
NOTA: 9,6/10
No ano de 2020, Marcelo D2 lançou seu 8º álbum solo, o Assim Tocam os Meus Tambores. Após o Amar É para os Fortes, esse projeto foi idealizado no período inicial da pandemia de COVID-19. O isolamento, a instabilidade política, o aumento das tensões sociais e a sensação coletiva de insegurança influenciaram profundamente a atmosfera do disco, levando D2 a criar um trabalho mais intimista e musicalmente orgânico. Produzido pelo rapper junto de Barba Negra, DJ Nuts, Dr. Drumah, Kamau, Nave e Tropkillaz, o álbum segue uma abordagem orgânica e calorosa, com presença de percussões orgânicas, cavaquinho, violão, metais suaves, linhas de baixo quentes e arranjos coletivos extremamente vivos, mostrando bases do Rap consciente dentro do Jazz Rap, Drill, Afoxé e Batucada. O repertório é incrível, e as canções são carregadas de profundidade e metáforas. No geral, é um baita disco e um dos melhores de sua carreira.
Melhores Faixas: 4ª As 20h, É Manhã (Vem) (Don L mandou bem), Pelo Que Eu Acredito (Sain e Djonga mandaram bem), Rompeu O Couro (ótima feat do BK’ e Baco), Pela Sombra (Jorge du Peixe mandando bronca), As Sementes
Vale a Pena Ouvir: Magrela87, Mangueforte (participação do Russo Passapusso do BaianaSystem), Tambor, O Senhor Da Alegria (Criolo ficou só na poesia)
Iboru – Marcelo D2
NOTA: 8,4/10
Depois de três anos, Marcelo D2 lançou seu álbum mais recente, intitulado Iboru. Após o Assim Tocam os Meus Tambores, o rapper decidiu fazer um trabalho completamente absorvido por uma estética centrada no samba de terreiro, na ancestralidade afro-brasileira e na ideia de continuidade cultural. O título do álbum vem do iorubá e pode ser traduzido como “que sejam ouvidas as nossas súplicas”. Essa escolha não é apenas simbólica; ela define toda a atmosfera espiritual do disco. A produção, feita por D2 junto de Barba Negra, Julio Fejuca, Kiko Dinucci, Mario Caldato Jr., Nave e Tropkillaz, segue a temática do Samba de terreiro. Ao mesmo tempo, incorpora técnicas modernas de mixagem, colagens sonoras, graves profundos e ambientações cinematográficas, mas sempre com forte presença de tambores, pandeiros e percussões afro-brasileiras. O repertório é ótimo, e as canções são variadas e cheias de espiritualidade. No fim, é um ótimo disco e bastante coeso.
Melhores Faixas: Fuzuê (participação do Zeca Pagodinho e Xande de Pilares), O Samba Falará + Alto, Povo De Fé, Tempo De Opinião, Só Quando Meu Samba Morrer
Vale a Pena Ouvir: Pra Curar A Dor Do Mundo, Fonte Que Eu Bebo, Abrindo Os Caminhos
Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete – Marcelo D2
NOTA: 7/10
No final de 2024, Marcelo D2 iniciou sua quadrilogia de EPs com Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 1: Dona Paulete. Após o Iboru, o objetivo desses EPs passou a ser misturar regravações de clássicos do Samba com releituras de músicas importantes da própria trajetória de D2. O volume 1 funciona como uma homenagem direta à sua mãe, Paulete Maldonado, falecida em 2021. Isso dá ao trabalho um caráter profundamente íntimo e emocional desde o princípio. A produção, conduzida por Julio Fejuca, Nave e Os Fita, trabalha elementos fundamentais do Samba, como cavaquinho, tantã, repique, pandeiro, cuíca e dinâmica coletiva, enquanto incorpora discretamente técnicas modernas de produção, graves contemporâneos e referências ao Funk, Rap e Kizomba. O repertório contém 7 faixas bastante descontraídas. No fim, é um ótimo EP e bastante emocional.
Melhores Faixas: Castelo De Um Quarto Só, Desabafo
Vale a Pena Ouvir: Obrigado Samba, Maneiras
Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 2: Tia Darci – Marcelo D2
NOTA: 7/10
Já no comecinho de 2025, Marcelo D2 lançou rapidamente Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 2: Tia Darci. Após o volume 1, essa continuação amplia ainda mais o conceito do “Novo Samba Tradicional”, mas agora direcionando o foco para o papel das matriarcas, das rodas suburbanas e da transmissão oral dentro da cultura do gênero. O título homenageia Tia Darci do Jongo, figura histórica da cultura popular carioca e símbolo da preservação das tradições afro-brasileiras ligadas ao Samba, ao jongo e às rodas comunitárias. A produção, feita por Julio Fejuca, Márcio Alexandre, Nave e Os Fita, faz o som parecer construído diretamente dentro de uma roda de Samba comunitária e aberta. Os tambores e as percussões ocupam um papel absolutamente central. Tantã, repique, pandeiro, agogô e atabaques aparecem constantemente. O repertório é ótimo, e as canções ficaram cheias de envolvência. Enfim, é um EP legal e mais contemplativo.
Melhores Faixas: Meu Nome É Favela, Nascente Da Paz (participação do Grupo Fundo De Quintal)
Vale a Pena Ouvir: Delegado Chico Palha, A Maldição Do Samba
Manual Prático Do Novo Samba Tradicional, Vol. 3: Luiza – Marcelo D2
NOTA: 7/10
Depois de dois meses, foi lançado Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 3: Luiza. Após o volume 2, este trabalho desloca o foco para a relação afetiva entre Marcelo D2 e Luiza Machado, transformando o vínculo do casal no eixo criativo do disco. Se os trabalhos anteriores falavam bastante sobre ancestralidade coletiva, tradição do Samba e memória suburbana, aqui o centro emocional é a convivência doméstica, o amor maduro e a parceria artística construída ao longo dos anos entre os dois. Produzido por Mario Caldato Jr. e Nave, o EP mantém os tambores como elemento fundamental, mas agora eles dividem espaço com harmonias suaves, arranjos melódicos sofisticados e texturas muito mais atmosféricas. O cavaquinho, os violões e os corais criam uma sensação constante de proximidade emocional. O repertório, como de costume, conta com 7 faixas, e todas elas são carregadas de leveza. No final de tudo, é um EP delicado e bastante sensível.
Melhores Faixas: Lucidez, 1967
Vale a Pena Ouvir: Nas Águas De Amaralina, Filhos De Jorge
É isso, então flw!!!











