Como Conseguir Chicas – Charly Garcia
NOTA: 9/10
No final dos anos 80, Charly García lançava mais um álbum novo, o Como Conseguir Chicas. Após o Parte De La Religión, a relação do cantor com o sucesso, a exposição pública e os próprios excessos pessoais começava a pesar cada vez mais sobre sua produção. Esse título passa a brincar mais abertamente com temas de relacionamentos, sexualidade, comportamento e vida cotidiana. Essa leveza, porém, não significa que ele tenha abandonado suas características mais sérias. A produção, feita pelo próprio cantor, segue por um caminho bem mais direto, mas que tem uma certa clareza. Os teclados e os recursos eletrônicos continuam sendo utilizados, mas deixam de ser os principais elementos responsáveis pela identidade sonora. Agora, há uma presença maior de guitarras, com bem mais distorção, enquanto o piano dá mais cor aos arranjos. O repertório é muito bom, e as canções são profundas e, ao mesmo tempo, divertidas. Enfim, é um ótimo disco e bastante subestimado.
Melhores Faixas: Fanky, No Toquen, Fantasy, No Me Veras En El Subte, Suicida
Vale a Pena Ouvir: Ella Es Bailarina, Zocacola (participação do Herbert Vianna)
Filosofía Barata Y Zapatos De Goma – Charly Garcia
NOTA: 9,5/10
Entrando nos anos 90, foi lançado mais um trabalho novo dele, o Filosofía Barata Y Zapatos De Goma. Após o Como Conseguir Chicas, o relacionamento de Charly Garcia com Zoca, que havia marcado uma parte enorme de sua vida desde o final dos anos 1970, havia terminado pouco antes da criação do álbum. Essa ruptura teve um impacto muito forte sobre ele e acabou se refletindo diretamente no disco. Com isso, esse trabalho faz um equilibrio entre ironia e uma sensação de perda e solidão. A produção foi para um caminho bem variado, juntando elementos do Pop Rock e Art Pop. Os instrumentos não estão ali apenas para acompanhar as melodias; muitas vezes, eles criam ambientes. O piano pode desaparecer em favor de sintetizadores, uma guitarra pode surgir abruptamente, e uma percussão pode transformar completamente uma passagem. O repertório é incrível, e as canções são todas bem melódicas e intimistas. Enfim, é um baita disco e muito coeso.
Melhores Faixas: Filosofia Barata Y Zapatos De Goma, De Mí, Solo Un Poquito No Mas, No Te Mueras En Mi Casa
Vale a Pena Ouvir: Siempre Puedes Olvidar, Curitas, La Cancion Del Indeciso
La Hija De La Lágrima – Charly Garcia
NOTA: 7,1/10
Quatro anos se passaram, e foi lançado mais um álbum novo, o La Hija De La Lágrima. Após o Filosofía Barata Y Zapatos De Goma, Charly García decide fazer algo muito mais ambicioso: construir uma espécie de Ópera-rock fragmentada, cheia de personagens, situações, interlúdios e mudanças de clima. A ideia do álbum nasceu de uma situação quase absurda que Charly teria presenciado na Espanha, quando ouviu uma discussão entre duas mulheres, e uma delas teria dito a frase que daria nome ao projeto. A produção foi bem diferenciada, já que, em vez de procurar uma sonoridade limpa e uniforme, Charly sobrepõe instrumentos, vozes, efeitos, ruídos, fragmentos e diferentes texturas. Os instrumentos tradicionais convivem com sintetizadores, programações e gravações manipuladas. O repertório é legalzinho, tendo canções divertidas, mas também algumas que parecem estar ali para encher linguiça. Enfim, é um álbum bom, mas que é exageradamente excessivo.
Melhores Faixas: Chipi Chipi, Víctima, Atlantis, Jaco Y Chofi, Kurosawa, Andan, Waitin Piores Faixas: Love Is Love, James Brown, Chiquilín, Lament
Say No More – Charly Garcia
NOTA: 9,2/10
Se passaram dois anos, e Charly García lançava seu 8º álbum solo, o Say No More. Após o La Hija De La Lágrima, ele abandona praticamente qualquer necessidade de seguir uma estrutura convencional. Como naquele período ele estava vivendo um caos em sua vida pessoal, em vez de se esconder, transforma o próprio caos em método artístico. Esse projeto nasce justamente da ideia de fazer música sem obedecer a uma fórmula preestabelecida, permitindo que diferentes sons, ideias, gravações e fragmentos fossem incorporados ao processo. A produção foi ainda mais experimental, com Charly sobrepondo instrumentos, vozes, efeitos, ruídos, fragmentos e diferentes texturas. A principal característica é justamente a ausência de uma estética de perfeição, fazendo do álbum um trabalho muito interessante de Rock experimental, com traços do Art Pop. O repertório é sensacional, e as canções são bem imersivas. No fim, é um baita disco e representa uma evolução.
Melhores Faixas: Alguien En El Mundo Piensa En Mi, Say No More, Canciones De Jirafas, Necesito Un Gol, Casa Vacía, Plan 9
Vale a Pena Ouvir: Estaba En Llamas Cuando Me Acosté, Podrías Entender, La Vanguardia Es Así
El Aguante – Charly Garcia
NOTA: 2,5/10
Em 1998, Charly García volta lançando um álbum bem controverso, o El Aguante. Após o Say No More, que o levou ao experimentalismo, aqui ele decide fazer algo diferente: manter parte daquela liberdade de produção, mas voltar a colocar as canções no centro. Além disso, apresenta uma postura mais desafiadora, quase de sobrevivência, dentro desse trabalho. A produção ficou um pouco mais acessível, com Charly explorando tanto o Pop Rock quanto o Pop barroco. Com isso, houve um uso variado de instrumentos, como guitarras, piano, teclados, cordas, elementos eletrônicos e afins. O que muda é a finalidade: agora, os efeitos, sobreposições e intervenções servem mais frequentemente para reforçar as músicas, mas, assim, tudo soa muito confuso, e os vocais do cantor ficam muito sobrepostos. O repertório é ruim, tendo canções boas e outras que são simplesmente esquecíveis. Enfim, é um disco fraco e que foi um ponto baixíssimo.
Melhores Faixas: Tu Arma En El Sur, No Estaría Mal (It Won't Be Wrong)
Piores Faixas: Correte Beethoven (Roll Over Beethoven), El Aguante, Kill My Mother, Uno A Uno (One To One), Lo Que Ves Es Lo Que Hay (Todo El Mundo Quiere Olvidar)
Influencia – Charly Garcia
NOTA: 8,4/10
Indo para 2002, o Charly García lançava seu 10º álbum de estúdio, o Influencia. Após o El Aguante, surge como uma espécie de reação a esse processo: sem abandonar completamente as experiências anteriores, ele volta a priorizar as canções, as melodias e a interpretação. O próprio título é bastante apropriado, porque o disco trabalha com várias influências musicais. A produção foi para um caminho bem mais limpo e moderno, com o cantor continuando a utilizar teclados, sintetizadores e recursos de estúdio, mas eles estão muito mais subordinados às canções. O piano volta a ocupar uma posição importante, enquanto as guitarras colocam um certo peso, o baixo é bem sustentável e a bateria fica mais orgânica, formando uma base que dialoga com o Pop Rock, com algumas influências do Dance alternativo e do Synth-pop. O repertório é muito bom, e as canções são todas bem cadenciadas. No fim, é um disco bacana e que foi um verdadeiro alívio.
Melhores Faixas: Influencia, I'm Not In Love, Mi Nena
Vale a Pena Ouvir: Influenza, Tu Vicio
Rock And Roll Yo – Charly Garcia
NOTA: 8/10
Mais um ano se passou, e foi lançado mais um trabalho novo do Charly García, o Rock and Roll Yo. Após o Influencia, o cantor decidiu fazer um disco que olha para o passado, mas através de um Charly já muito diferente daquele que havia gravado seus clássicos. Existe também uma sensação de urgência. Muitas músicas parecem nascer mais da necessidade de Charly continuar produzindo do que de um projeto conceitual muito definido. A produção foi para um caminho bem mais pesado, mas que mantém uma certa clareza. As guitarras são bem expressivas, a cozinha rítmica consegue ser bem decente e o piano coloca melodias mais limpas, que dão cor aos arranjos, fora os vocais do Charly, que, mesmo já estando envelhecidos, conseguem ser bem funcionais, fazendo um diálogo com o Hard Rock, Soft Rock e até um pouco do Rock alternativo. O repertório é muito bom, e as canções são todas bem energéticas. Enfim, é um ótimo álbum e que envelheceu bem.
Melhores Faixas: Rehén, V.S.D.
Vale a Pena Ouvir: Asesíname, Rock And Roll Yo, Linda Bailarina
Kill Gill – Chaly Garcia
NOTA: 2,2/10
Foi apenas em 2010 que Charly García lançou seu 12º álbum, o horroroso Kill Gill. Após o Rock And Roll Yo, Charly concebeu um trabalho construído em torno de um personagem que vive em Nova York e decide cometer um atentado. A história seria contada através das músicas, que funcionariam como mensagens destinadas às pessoas próximas desse personagem. Só que, apesar do conceito, esse trabalho passou por uma série de mudanças e implementações até chegar ao material final. A produção, feita pelo cantor junto com Andrew Loog Oldham, colocou um som que tenta ser acessível e experimental. Só que o problema é que mexeram tanto nas gravações que algumas músicas perderam espontaneidade. Em determinados momentos, a quantidade de camadas parece esconder a composição em vez de valorizá-la. O repertório é terrível, tem umas canções legais e outras tenebrosas. No fim, é um álbum horrível e que foi uma mancha podre na sua carreira.
Melhores Faixas: Corazón De Hormigón, Mirando Las Ruedas Piores Faixas: King Kong, Break It Up, Happy And Real, Transformación, In The City That Never Sleeps
Random – Charly Garcia
NOTA: 3/10
Então, se passaram sete anos para ele voltar com um novo álbum intitulado Random. Após o terrível Kill Gill, que havia sido praticamente concluído anos antes de sua publicação, enquanto esse novo álbum foi composto e desenvolvido depois da grave crise pessoal que levou Charly a um período de internação e reabilitação. Por isso, o álbum representa um verdadeiro retorno à atividade criativa. A produção foi, como sempre, bastante limpa e um pouco mais equilibrada, com um grande uso de teclados, pianos, guitarras, baixos, bateria eletrônica, samplers, loops, programações e até iPads. Tudo isso para fazer um som que tivesse um nível de detalhe que lembrasse seus primeiros projetos, mas o problema é que tudo soa muito previsível: os sintetizadores são excessivos e as guitarras, muito comprimidas. O repertório é fraquíssimo, tendo canções bem sem graça, com algumas exceções. No final, é um álbum ruim e que mostrava a queda do cantor.
Melhores Faixas: Primavera, Rivalidad, Amigos De Dios
Piores Faixas: Believe, Spector, Ella Es Tan Kubrick, Mundo B
La Lógica Del Escorpión – Charly Garcia
NOTA: 2,5/10
Então chegamos ao ano de 2024, quando foi lançado o que pode ser o último álbum do Charly García, o La Lógica Del Escorpión. Após o Random, o cantor já estava preparando esse projeto muito antes mesmo da pandemia, trazendo um conceito que vem da conhecida fábula do escorpião e da rã. Na história, o escorpião pede ajuda para atravessar um rio, promete não atacar a rã, mas acaba picando-a no meio do caminho e condenando os dois à morte. A produção foi mais variada e direta, com Charly criando as bases, experimentando com samples e loops, além de ter aquele equilíbrio de usar sintetizadores e baterias eletrônicas para depois acrescentar instrumentação orgânica, mas tudo soa muito mal-nascido, e os vocais do cantor estão bastante fora do tom. O repertório é terrível, tendo canções medíocres e poucas realmente interessantes. Mas, enfim, é um álbum horrível, que só mostra que já passou da hora de parar.
Melhores Faixas: La Pelicana Y El Androide (vocal envelhecido do Spinetta conseguindo ser melhor do que a do Charly), El Club De Los 27
Piores Faixas: Autofemicidio, Rock And Roll Star, Yo Ya Sé, Estrellas Al Caer, Rompela









